Estudo alerta para a prevenção e controle das hepatites virais, responsáveis por mais de 1,34 milhões de mortes por ano em todo o mundo
Especialista também recomenda a necessidade de acompanhamento de gestantes portadoras destes vírus para prevenir a transmissão da mãe para o bebê
São Paulo, julho de 2021. Se as doenças infecciosas já são naturalmente motivo para preocupação, durante a gravidez elas tendem a trazer ainda mais tensão e as hepatites virais são importantes neste contexto. Um estudo realizado pelo médico tocoginecolgista Dr. Geraldo Duarte, presidente da Comissão Nacional Especializada em Doenças Infectocontagiosas da FEBRASGO, revela que mulheres infectadas por hepatites virais têm risco aumentado de transmitirem estes vírus para o bebê durante a gravidez nos casos em que não há um acompanhamento médico adequado durante o pré-natal. “Estamos falando de infecções com elevadas taxas de morte, já que as hepatites virais A, B e C são responsáveis por mais de 1,34 milhão de óbitos anualmente em todo o mundo, dos quais 66% são decorrentes da hepatite B, 30% da hepatite C e 4% da hepatite A”. explica Dr. Geraldo.
O mês de julho, instituído como o de prevenção às hepatites virais – conhecido como “Julho Amarelo” – tem o objetivo de reforçar as ações de vigilância, prevenção e controle das infecções virais que acometem o fígado. Para chamar a atenção ao tema, o especialista enfatiza a necessidade de aguçar o olhar do cuidado para as gestantes, principalmente, durante o pré-natal. O tratamento das hepatites varia bastante, principalmente de acordo com o agente que a provoca (vírus, hepatite autoimune, tóxico). Independente da causa, o tratamento das hepatites deve sempre seguir orientações médicas.
A hepatite viral consiste na presença de inflamação das células do fígado. Pode apresentar várias etiologias associadas, nomeadamente vírus (Hepatite A, Hepatite B, Hepatite C, Hepatite D, Hepatite E), sendo que, no Brasil, os tipos A, B e C são os mais comuns.
Nos casos da gestante com hepatite viral o maior temor é que a infecção comprometa a saúde do bebê e, de acordo com o artigo, o risco de transmissão vertical pode chegar a 90% nos casos da hepatite B replicante se não houver acompanhamento e tratamento adequado. Na sua forma crônica, geralmente é assintomática, porém, corre o risco de evoluir para insuficiência hepática crônica, cirrose e hepatocarcinoma – tipo de câncer primário do fígado. “Uma das nossas preocupações é a mulher grávida portadora da hepatite B, visto que este vírus apresenta a taxa mais elevada de transmissão da mãe para o seu bebê”, ressalta o Dr. Geraldo Duarte. Na sequência ele complementa: “no entanto, a contaminação pode ser evitada se a mulher tomar a vacina contra a hepatite B antes de engravidar, ou o mais rápido possível após o diagnóstico da gravidez. Além disto, com carga viral elevada, o uso de medicamento adequado e receitado por um especialista consegue reduzir a carga viral”.
Segundo o estudo, em relação à hepatite causada pelo vírus C, foi observado que aproximadamente de 50% a 85% das pessoas evoluem para a forma crônica da doença. O risco de a mãe infectar o bebê varia de 3,8% a 7,8%, taxas que dependem da carga viral. Já a hepatite tipo A, que acomete mais crianças em regiões onde o vírus endêmico, é considerada uma das mais brandas e com elevadas taxas de cura. Sua taxa de transmissão vertical é muito baixa devido ao curto período de viremia e aos cuidados com o parto vaginal. Embora cada tipo viral apresente características diferentes, o especialista recomenda a amamentação em todos os casos de hepatite A, B e C.
Os resultados do estudo estão descritos no artigo Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: hepatites virais, publicado pelo Dr. Geraldo Duarte e colaboradores.
Duarte G, Pezzuto P, Barros TD, Mosimann Junior G, Martínez-Espinosa FE. Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: hepatites virais [Brazilian Protocol for Sexually Transmitted Infections 2020: viral hepatitis]. Epidemiol Serv Saude. 2021;30(spe1):e2020834
Tipos de hepatites virais
Hepatite A: também chamada de hepatite infecciosa, causada por um vírus transmitido pela ingestão de alimentos ou água contaminados. Ela é autolimitada, não evolui para doença crônica e tem na vacina sua principal forma de controle. Seu período de incubação varia de 15 a 50 dias e é assintomática em 70% dos adultos.
Hepatite B: é a mais grave das três e pode se tornar crônica. Transmitida pela transfusão de sangue ou contato com agulhas contaminadas, ela aumenta os riscos de câncer no fígado. Na forma aguda, cerca de 70% dos casos apresentam a forma subclínica – que não produz manifestações ou efeitos detectáveis por meio de exames – e 30% a forma ictérica – evolução grave da doença.
Hepatite C: também é transmitida por agulhas contaminadas e transfusão de sangue.
Sintomas:
Os sinais e sintomas podem variar de acordo com o tipo de hepatite, da gravidade da doença e do seu tempo de evolução. No entanto, os sintomas mais comuns são:
- Cansaço
- Náuseas
- Falta de apetite
- Icterícia (coloração amarelada da pele ou na parte branca dos olhos
- Febre, em alguns casos
- Urina de cor escura
- Fezes de cor clara
Gestantes e puérperas incluídas nos grupos prioritários para vacinas contra SARS-CoV2 no Plano Nacional de Imunização
A Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) recomenda:
Após a análise dos dados de morbidade, mortalidade e risco de óbito por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) por covid-19 em gestantes e puérperas, foi considerado que o risco de agravamento e óbitos em gestantes e puérperas após a infecção por SARS-CoV2 mostrou uma elevação significativa nas semanas 17 a 23 de 2021, sendo então recomendado a retomada da vacinação contra covid-19 em gestantes sem comorbidades e/ou fatores de risco com as vacinas inativadas (Coronavac) e de mRNA (Pfizer), sem a necessidade de indicação ou relatório médico.
Recomendações atuais
- A Febrasgo reforça que a SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) por Covid-19 em gestantes e puérperas está associada a risco elevado de morbidade e mortalidade materna, além do maior risco de prematuridade e óbito fetal;
- Em consonância com o PNI (Plano Nacional de Imunização), a Febrasgo recomenda a retomada da vacinação das gestantes sem comorbidades e ou fatores de risco, com as vacinas disponíveis no país que não contenham vetor viral, ou seja as inativadas (Coronavac©) e as de mRNA (Pfizer). A Febrasgo entende que o uso de vacinas covid-19 em gestantes com e sem comorbidades ou fatores de risco deve ocorrer independente da indicação médica, sendo apenas necessário, se assim for o desejo da gestante ou puérpera, da apresentação do cartão de pré-natal ou registro do nascimento da criança. As gestantes e puérperas incluídas nos grupos prioritários, definidos pelo PNI e as sem comorbidades e/ou fatores de risco, agora também contempladas, que ainda não tenham sido vacinadas deverão ser imunizadas de acordo com cronograma do PNI do seu município, com vacinas covid-19 que não contenham vetor viral, ou seja, Coronavac e Pfizer;
- De acordo com a reunião da CTAI (Camara técnica assessora de imunizações) do dia 2 de julho de 2021, as gestantes e puérperas (incluindo as sem fatores de risco adicionais) que já receberam a primeira dose da vacina da AstraZeneca-Oxford/Fiocruz, poderão aguardar o término do período da gestação e puerpério (até 45 dias pós-parto) para a administração da segunda dose da vacina ou podem optar por tomar a segunda dose preferencialmente com a vacina da Pfizer e nos locais aonde não estiver disponível, com a Coronavac. As gestantes e puérperas (incluindo as sem fatores de risco adicionais) que já tenham recebido a primeira dose de outra vacina COVID-19 que não contenha vetor viral (Sinovac/Butantan ou Pfizer) deverão completar o esquema com a mesma vacina nos intervalos habituais.
A Febrasgo ressalta que essas recomendações poderão ser revistas a qualquer momento de acordo com novas evidências científicas.
Brasil, 5 de julho de 2021.
O gargalo da formação na assistência à saúde de pessoas LGBTQIA+
Dra. Lucia Alves Lara comenta avanços e desafios da atenção ginecológica a mulheres que fazem sexo com mulheres e pessoas com incongruência de gênero
São Paulo, junho de 2021. “Em todo o Brasil, de modo geral, a formação de profissionais de saúde sobre as demandas específicas da população LGBTQIA+* é muito precária. A falta de acolhimento, que muitas dessas pessoas relatam, passa pela falta de conhecimento da equipe de saúde. A partir de 2016, esse tema começou a ficar mais recorrente em congressos, debates com o poder público, ligas estudantis – sobretudo a respeito de mulheres e homens trans e mulheres que fazem sexo com mulheres. Mas ainda há uma grande lacuna de informação”, explana a ginecologista Dra. Lúcia Alves da Silva Lara – presidente da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) – sobre os desafios da assistência à saúde de pessoas LGBTQIA+.
Estima-se que hoje, no país, 10% da população apresentem gênero e/ou sexualidade tidos como não normativos. O grupo de pessoas transexuais compreende fatia um pouco menor – de 0,3% a 0,9% 1, 2. Entretanto, apesar do elevado contingente, a ainda incipiente difusão de informações técnicas promovem cenários de invisibilidade desses grupos no cotidiano da saúde, refletindo em evasão de cuidados preventivos e de assistência médica. No âmbito da saúde sexual de mulheres que fazem sexo com mulheres, um estudo de 2012, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, apontou que apenas 2% se previnem contra as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), em razão do desconhecimento de medidas preventivas e/ou ausência de produtos específicos para esta finalidade. Dados de pesquisa da Universidade Estadual Paulista, de 2017, com 150 mulheres de semelhante estratificação, revelou que 47,3% delas apresentava algum tipo de IST3.
A especialista da Febrasgo aponta que o caminho para evitar cenários como este passa pela capacitação de equipes médicas (estudantes, ginecologistas, enfermeiros, paramédicos etc) de modo universal. “Essa população existe e não pode ser ignorada. É fundamental que as universidades discutam temas ligados às necessidades desse grupo. Bem como, o Ministério da Saúde atue na formação de programas de saúde voltados às pessoas LGBTQIA+. E as Secretarias de Saúde dos estados e municípios realizem treinamentos contínuos. Ainda há muita diferença nos serviços e qualidade de atendimento em diferentes centros médicos e regiões do país”.
Em outra medida, no âmbito dos avanços observados, nos últimos anos, a especialista destaca iniciativa do Conselho Federal de Medicina (CFM) que atualizou as normas de atendimentos às pessoas com incongruência de gênero – reduzindo a idade mínima para realização de terapias hormonais e cirurgias.
“Há muito ainda a fazer. Há uma ignorância da população e de parte da classe política sobre essas pessoas. Não se trata de opção. Existe uma base biológica que precisa ser conhecida, discutida por todos. É muito importante que essa conversa ocorra também em outras esferas”, finaliza a Dra Lucia.
* Sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais, Queer, Intersexuais, Assexuais e outras variedades de manifestações de gênero e sexualidade.
- Johnson EL, Kaplan PW. Caring for transgender patients with epilepsy. Epilepsia. 2017 Oct;58(10):1667-72. PubMed PMID: 28771690.
- Febrasgo. Comissão de Sexologia. Disponível em https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/411-aspectos-da-transexualidade#_ENREF_5
- Andrade, Juliana. Vulnerability to sexually transmitted infections of women who have sex with women. 2020. Disponível em https://doi.org/10.1590/1413-812320202510.03522019
Grávidas morrem mais por covid, mas vacinação do grupo ainda é lenta
Desde o começo da pandemia, 11.390 gestantes tiveram diagnóstico de COVID-19 no Brasil e 950 morreram, ou 8,3% segundo dados do Observatório Obstétrico Brasileiro COVID-19.A situação ficou ainda mais grave este ano: em 2021, dos 5.943 casos, entre grávidas, 667 morreram, ou seja, 11,2%.
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