Recomendação para reposição de cálcio em gestantes
Recentemente foi publicada na Cochrane Database of Systematic Reviews (DOI: 10.1002/14651858.CD001059.pub6), excelente metanálise sobre uso de cálcio na prevenção da pré-eclâmpsia [Cluver et al., 2025], que de certo modo, se sobrepõe à metanálise anterior de Hofmeyr et al. [2018] (DOI: 10.1002/14651858.CD001059.pub5).A publicação de Hofmeyr et al. [2018], versão amplamente citada, concluiu que suplementação com cálcio (z1 g/dia) reduz o risco de pré-eclâmpsia, especialmente em mulheres com ingestão dietética baixa de cálcio. Também apontou redução de parto pré-termo e de complicações maternas graves em algumas análises. Além disso, ressaltou o efeito protetor em populações de comprovada baixa ingesta de cálcio. Estes dados serviram de base para a recomendação da Organização Mundial de Saúde [OMS] e para as recomendações do Ministério da Saúde [MS] do Brasil.
A nova análise de Cluver et al. [2025] incorpora ensaios maiores e avaliações de qualidade adicionais, concluindo que, após excluir estudos considerados por eles não confiáveis (com alto risco de viés, como estudos com baixo número de casos ou sem aprovação de protocolo de pesquisa em plataforma oficial para Ensaio Clínico Randomizado, o efeito protetor da prescrição de cálcio inexiste
— isto é, a evidência passa a não suportar de forma robusta a prevençào da pré- eclâmpsia por suplementação rotineira de cálcio.
Assim, comparando as duas análises podemos afirmar que: Hofmeyr et al. sintetizaram o corpo de evidência disponível até -2014/2018, que inclula muitos estudos com baixa casuística e alguns cluster-ECRs e Cluver et al. [2025] atualizaram com ensaios mais recentes, incluindo estudos multicêntricos com grande casuística, realizando uma avaliação de risco de viés / sensibilidade. A diferença crítica é que Cluver et al. [2025] realizaram análises de sensibilidade que excluiram estudos com risco de viés sérios ou considerados “não confiáveis”, o que mudou substancialmente o efeito global. Hofmeyr et al. [2018] discutiram possíveis vieses (pequeno-estudo/viés de publicação) mas mantiveram o efeito ao combinar os estudos então disponíveis. Estes autores destacaram efeito mais forte com doses z1 g/dia e em populações com baixa ingestão dietética de cálcio. Cluver et al. [2025] também examinam dose e subgrupos, mas o sinal geral enfraqueceu quando estudos de baixa confiança foram excluídos. Ambas as revisões não mostram efeitos adversos robustos. Hofmeyr et al. [2018] observaram pequeno aumento de síndrome HELLP em números
absolutos (efeito raro), que não anulou benefícios percebidos — mas Cluver et al. [2025] chamam atenção para incerteza sobre segurança quando o beneficio é incerto. Estudo recente [Dwarkanath et al., 2024] suporta a não inferioridade na suplementação de doses baixas (500mg) em relação a doses altas de cálcio (algo em parte já incorporado em protocolos nacionais, que sugerem 1g/dia de suplementação).
Mesmo que a eficácia preventiva universal possa e deva ser questionada, populações com ingestão alimentar baixa de cálcio podem continuar a se beneficiar com a reposição — essa é uma nuance que aparece nas análises por subgrupos onde deve-se contextualizar a ingestão dietética. Discordamos da afirmação dos autores desta última metanálise, de que o tema da reposição de cálcio para grupos de risco de desenvolverem pré-eclâmpsia, esteja encerrada. Há necessidade ainda de ensaios com casuisticas maoires e bem conduzidos, com avaliação de adesão, inicio precoce da reposição, concentraçoes basais de cálcio dietético e avaliação rfgida de desfechos clínicos para resolver a incerteza residual.
Quais são as limitaçôes das evidéncias?
Como a maioria das participantes dos estudos iniciaram a ingesta de cálcio a partir da metade da gestação, não temos informações nesta revisão sobre a eficácia da suplementação de cálcio desde o inicio da gravidez. Essa observação vale tanto para mulheres que vivem em áreas onde a população tem cálcio suficiente na dieta, quanto para aquelas que não têm, e para aquelas com alto risco versus baixo risco de desenvolver pré-eclâmpsia.
Inicio do uso de cálcio Idade gestacional em semanas
Belizan 1983 15
Belizan 1991 20
Crowter 1999 18
Levine 1997 17
Villar 1987 26
Villar 1990 23
Goldberg 2013 20
Dwarkanath 2024 ‹20 (1/3 < 13)
O efeito sobre a mortalidade materna foi considerado incerto, quando se utilizou o denominador para 10.000 nascimentos onde o RR foi de 0,33 (IC 0,06 - 1,83), mas com grande intervalo de confiança. Essa conclusão se fundamentou somente a partir de 3 ECR (9430 pacientes), um número insuficiente para o cálculo da mortalidade materna que se mede por 100.000 nascimentos. Considerando um risco basal da mortalidade materna no grupo placebo de - 0,15s e o efeito demonstrado de uma redução do RR de 67a (RR-0,33), com um alfa de 0,05 e um poder de 80a, teríamos que ter um tamanho amostral de aproximadamente 15.700 gestantes por grupo. Entretanto, temos cerca de 2.400.000 nascimentos/ano no
Brasil com cerca de 350 mortes/ano por HAS/Eclâmpsia. Para uma incidência de
15a de HAS, teremos 360.000 possíveis usuárias de cálcio. Se tivermos uma redução de 67% de mortalidade, diminuiremos cerca de 235 mortes por ano no Brasil. Se houver uma adesão de 70% das pacientes em usar o cálcio, evitaríamos 165 mortes/ano.
Dos 20 ensaios previamente incluídos na metanálise anterior de Hofmeyr et al. [2018], que foram excluídos por Cluver et al. [2025], onze foram porque os critérios de elegibilidade mudaram e nove porque estão aguardando classificação devido a problemas de confiabilidade. Isso demonstra que a metanálise de Cluver et al.[2025] ainda não está concluída e pode ser revista após a inclusão dos estudos que estão sendo esperados.
Fundamentadas nas consideraçóes acima, a Rede Brasileira de Estudos sobre a Hipertensão na Gravidez (RBEHG) e a Comissão Nacional Especializada (CNE) sobre Hipertensão na Gestação da Febrasgo emitem conjuntamente as seguintes consideraçóes:
• Populaçôes com ingestão muito baixa de cálcio: apesar da incerteza global, muitas diretrizes (incluindo a OMS) continuam a recomendar suplementação em populações com ingestão dietética baixa — a plausibilidade biológica e evidência histórica ainda sustentam essa recomendação em contextos de baixo consumo alimentar de cálcio. Contudo, a revisão 2025 sugere que o efeito pode ser menor do que se pensava e que políticas universais devem ser reavaliadas com base em contexto local.
• Suplementação universal rotineira para todas as gestantes: a evidência recente não sustenta um benefício claro e consistente — portanto, políticas universais podem precisar de reavaliação, preferindo-se abordagens direcionadas (por ex., mulheres com baixo consumo dietético e/ou alto risco para pré-eclâmpsia).
• Pesquisa futura: são necessários ECRs bem desenhados, transparentes, com registro prévio, boa adesão e descrição clara de ingestão dietética basal, para resolver a incerteza remanescente.
A recente Nota Técnica emitida pelo MS (n° 251/2024) representou um avanço, considerando a atividade multiprofissional na atenção pré-natal, com a oportunidade de prescrição de cálcio por não médicas (os) [(enfermeiras (os) e nutricionistas], para garantir a intervenção oportuna, colocando em pauta a questão nutricional e o risco de pré-eclâmpsia. Lembramos que a deficiência de cálcio em nosso país beira 100% da população (IBGE), o que é uma boa justificativa para não deixarmos de prescrever.
Assim, a RBEHG e a CNE sobre Hipertensão na Gestação da Febrasgo recomendam que, por enquanto, para a população brasileira, não se mude a diretriz de reposição de cálcio (de 500 a 1000 mg/dia) em gestantes identificadas
com alto risco para pré-eclâmpsia e/ou com baixa ingesta de cálcio, na qual a mortalidade materna por hipertensão arterial ainda atinge taxas altas. Essa recomendação pode ser revista a qualquer momento, após publicações mais robustas ou revisão da própria metanálise de Cluver et al. [2025]. Essas entidades aguardarão o posicionamento de entidades oficiais como a OMS e o Ministério da Saúde do Brasil, bem como o posicionamento de outros pesquisadores experts neste assunto.
José Carlos Peraçoli
Presidente da CNE de Hipertensão na Gestação - FEBRASGO
Assinado digitalmente por José Geraldo Lopes Ramos
ND: OU=UFRGS, CN=José Geraldo Lopes Ramos, E=jose.ramos@ufrgs.br Razão: Eu sou o autor deste documento Localização:
Data: 2025.12.21 15:42:15-03'00'
Foxit PDF Reader Versão: 2025.2.0
José Geraldo Lopes Ramos
Presidente da RBEHG
Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia é classificada no Grupo A4 pelo Qualis
Liderada pelo Dr. Marcos Felipe Silva de Sá, desde 2016, a Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (RBGO) foi classificada esta semana no Grupo A4 na avaliação Qualis Periódicos para o quadriênio 2021-2024.
“A FEBRASGO comemora esta avaliação, isso coloca nossa revista científica no mesmo patamar de outras boas revistas internacionais e reafirma a excelência do trabalho do Dr. Marcos Felipe como editor-chefe, a quem parabenizamos por esta conquista” declara a Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO.
Qualis Periódicos é o sistema de classificação da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que avalia a qualidade e o impacto internacional de periódicos científicos nacionais em diferentes áreas do conhecimento por meio de uma revisão periódica (normalmente em quadriênios).
“Parabenizo o professor Marcos Felipe pela conquista. Como Diretor Científico da FEBRASGO, reconheço e agradeço sua dedicação, liderança e compromisso contínuo com a excelência editorial, fundamentais para o fortalecimento da ciência brasileira e para a consolidação da RBGO como periódico de referência na Ginecologia e Obstetrícia”, Dr. Agnaldo Lopes da Silva Filho, diretor científico da FEBRASGO.
A história por detrás dessa conquista
A RBGO alcançou um marco de excelência graças ao trabalho do Dr. Marcos Felipe Silva de Sá, ginecologista com 50 anos dedicados à vida acadêmica e que, em janeiro de 2016, assumiu o cargo de editor-chefe da revista. “Antes de 2016, a RBGO não era indexada em bases de dados internacionais. Os artigos eram publicados em português, o que limitava o acesso por pesquisadores estrangeiros. Além disso, não tinha periodicidade. Assumi esse desafio, já na qualidade de diretor científico, cargo da Diretoria da FEBRASGO responsável pelos seus periódicos. Com aprovação da diretoria, à época tendo como presidente o Dr. César Eduardo Fernandes, me tornei o editor”, conta ele.
Dr. Marcos Felipe explica que seu plano inicial imediato incluiu a transição para publicações em inglês e a implementação do sistema ScholarOn, oferecido pela Scielo, para tornar o processo de submissão e avaliação de manuscritos científicos totalmente digitalizado, sem custos para a FEBRASGO.
Além disso, organizou uma equipe de editores associados, composta por professores universitários escolhidos entre os mais qualificados do Brasil, nas diferentes subáreas da Ginecologia e Obstetrícia. Também foi criada parceria com a Thieme, uma editora internacional, responsável pela editoração e publicação da revista mensal. Ademais, foi estabelecido um fluxo de trabalho estruturado com a criação do Editorial Office - um escritório dedicado especificamente a dar suporte às publicações científicas da FEBRASGO, liderado pelo colaborador Bruno Henrique Sena Ferreira, com o suporte da editora técnica Sra. Edna Rother.
“Com este grupo ativo, manter a regularidade das publicações era ponto fundamental e, uma vez garantido o seu ritmo, a RBGO pôde ser cadastrada nas principais bases de dados internacionais. Outro ponto importante para o crescimento das revistas editadas pela FEBRASGO foi a decisão da diretoria de que nossos periódicos seriam de acesso livre a todos os interessados - associados ou não - e que não haveria qualquer custo para os autores publicarem seus artigos”, ressalta o editor-chefe, se referindo à RBGO e à revista Femina.
A parceria com a Thieme, porém, ficou onerosa, então a Diretoria da FEBRASGO optou pela criação de um quadro de profissionais próprios, sob a coordenação do Editorial Office. A meta era conquistar o Fator de Impacto concedido pela Web of Science e, não menos importante, melhorar a classificação no rol dos periódicos do Sistema Qualis. “A revista conquistou o seu Fator de Impacto há três anos e finalmente, nesta semana, recebeu nível A4 na classificação Qualis Periódicos”, comenta, acrescentando que uma das estratégias implementadas ao longo dos anos para melhorar a visibilidade da revista foi a criação de um site próprio - https://journalrbgo.org/pt-br/
Todo trabalho ao longo dos anos trouxe resultados, após melhorias no processo de seleção dos manuscritos e publicação regular. “Nossa revista agora é vista como prioritária pelos programas de pós-graduação, não só pela gratuidade das publicações (publicar em revistas internacionais custa muito caro), mas também pelos seus indicadores de qualidade”, explica Dr. Marcos Felipe.
Como funciona a aprovação de artigos
1 - O Editorial Office recebe o trabalho e analisa as diretrizes de publicação, como número de páginas, figuras e outras especificidades técnicas (análise da forma).
2 – Em seguida, o artigo segue para o editor-chefe (Dr. Marcos Felipe) para uma avaliação inicial nas qualificações mínimas do manuscrito e seleção de um editor associado com base no tema do artigo dentre as 30 subespecialidades da Ginecologia e Obstetrícia.
3 - O editor (ou editora) associado(a) recebe o artigo e pode dar seu parecer sobre a publicação (ou não) do estudo, ou encaminha o artigo para revisores anônimos da área, mantendo o processo de "duplo cego" para evitar vieses. Se houver conflito de interesse, o editor e/ou o revisor deve declinar a avaliação do artigo.
4 – O artigo volta para avaliação do editor-chefe para a decisão final que é baseada nos pareceres dos editores associados e seus revisores (aceitar ou recusar ou aceitar com ajustes – Revisão).
A equipe de revisores da revista é composta por professores universitários - com doutorado e, preferencialmente, orientadores de programas de pós-graduação - associados à FEBRASGO. Todo trabalho é voluntário. “Recebemos 524 artigos em 2025, com uma taxa de aprovação de 20%-25%. Nosso objetivo é que o artigo seja citado em grandes publicações internacionais”, relata ele para exemplificar o volume de trabalhos recebidos e o rigor científico de aprovação.
“Quero destacar que sou muito grato às sucessivas diretorias da FEBRASGO, pelo apoio às nossas Revistas (RBGO e Femina). Agradeço aos editores associados, cerca de 50 docentes de diferentes áreas da GO, e todos os colaboradores que trabalham diretamente ligados ao Editorial Office liderados por Bruno Sena”, finaliza Dr. Marcos Felipe.
Números da RBGO
Fator de Impacto: 1,4
CiteScore: 2,6
Indice H- Scimago: 32
Google Scholar (Acadêmico): h5-Index: 25
h5- Median: 37
Qualis CAPES: A4
Perfil - Dr. Marcos Felipe tem 78 anos de idade, dos quais 50 dedicados à vida universitária. Mineiro de Guaxupé, é formado pela USP Ribeirão Preto, com mestrado e doutorado pela USP-SP. Tem Pós-doutorado pelo Departament of Reproductive Medicine da Universidade da Califórnia, (EUA) e a Especialização em Reprodução Humana pela Universidade de Valência, Espanha, além de MBA de Gestão em Saúde pela FEARP-USP. Foi professor titular da USP e está aposentado há cerca de 4 anos.
EPISÓDIO 26 - Fertilidade em Pauta: A Visão da OMS Sobre Prevenção Diagnóstico e Tratamento
Moderador: Rivia Mara Lamaita
Participantes: Natalia Ivet Zavattiero Tierno e Rui Alberto Ferriani
No Brasil, quase 19 mulheres morrem por dia vítimas do câncer do colo do útero
#JaneiroVerde
No Brasil, os números seguem alarmantes: em média, cerca de 19 mulheres morrem todos os dias em decorrência do câncer do colo do útero, doença causada pela infecção do HPV. “É o 1º câncer que mais mata mulheres até os 36 anos de idade no país e o 2º tipo de câncer que mais mata mulheres até os 60 anos”, explica o ginecologista Dr. Agnaldo Lopes, diretor científico da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
Embora existam diferenças regionais, o impacto é nacional e reforça a urgência de ampliar o acesso à prevenção. Estimativas do INCA apontam cerca de 17 mil casos novos por ano no Brasil no triênio 2023–2025, com maior risco em estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste — um retrato de desigualdades de acesso a vacinação, rastreamento e tratamento.
O cenário global também preocupa: se nada mudar, o número anual de mortes por câncer do colo do útero pode chegar a cerca de 410 mil até 2030, contra aproximadamente 350 mil mortes em 2022 no mundo. Para especialistas, a tendência só será revertida com a combinação efetiva de vacinação, rastreamento organizado e tratamento oportuno.
Entre as principais estratégias de prevenção está o rastreamento. O exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, segue como método seguro e eficaz e permite identificar lesões precursoras muitas vezes antes de qualquer sintoma. Já o teste molecular para detecção do DNA do HPV vem ganhando espaço e, em processos de transição, tende a substituir gradualmente o Papanicolau em diferentes contextos, ampliando a sensibilidade do rastreio e favorecendo o diagnóstico precoce.
A FEBRASGO ressalta que, na prática, o mais importante é não ficar sem rastrear. Mulheres e pessoas com colo do útero devem manter acompanhamento regular com profissionais de saúde e seguir as orientações locais do serviço (SUS e rede privada), garantindo investigação adequada e encaminhamento rápido quando houver resultado alterado.
Além do rastreamento, a prevenção começa cedo com a vacinação contra o HPV, capaz de reduzir drasticamente o risco de desenvolver câncer do colo do útero e outras doenças associadas ao vírus. No SUS, a vacina é ofertada gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos e, como estratégia de resgate, também vem sendo disponibilizada para jovens de 15 a 19 anos em campanhas e ampliação de prazo, facilitando a proteção de quem perdeu a idade recomendada.
“É sempre importante lembrar que esse câncer pode ser evitado: vacina e rastreamento salvam vidas. Quando a prevenção funciona, reduzimos não só a mortalidade, mas também tratamentos complexos e suas consequências para a saúde e a qualidade de vida”, reforça o Dr. Agnaldo Lopes.
Para a FEBRASGO, transformar esses números passa por três frentes simultâneas: aumentar a cobertura vacinal, organizar o rastreamento (com busca ativa e acompanhamento de resultados) e garantir acesso rápido ao diagnóstico e ao tratamento. A entidade também orienta que sintomas como sangramento fora do período menstrual, sangramento após relação sexual, dor pélvica persistente e corrimento anormal merecem avaliação médica — mesmo com exames preventivos em dia.
Por fim, a FEBRASGO faz um chamado para que famílias, escolas, serviços de saúde e gestores atuem juntos: vacinar adolescentes, manter o preventivo em dia e facilitar o acesso ao cuidado são medidas concretas que podem evitar mortes que hoje ainda acontecem diariamente no Brasil.
Papanicolau tem fundamento?
FEBRASGO reforça a importância do exame na prevenção do câncer do colo do útero
O exame ginecológico de citologia, conhecido como Papanicolau, é uma das principais estratégias - assim como o teste molecular para detecção do DNA do HPV - para o achado precoce de lesões precursoras do câncer do colo do útero, muitas vezes antes mesmo do surgimento de sintomas. A identificação dessas alterações em fases iniciais é fundamental para a redução da mortalidade, especialmente considerando que o câncer do colo do útero ainda figura entre as principais causas de morte por câncer em mulheres jovens no Brasil.
Durante muitos anos o exame Papanicolau salvou muitas vidas por detectar o câncer de colo uterino em suas fases pré-cancerosas, evitando-se assim a transformação maligna. No entanto, nos últimos anos, diversos estudos científicos vêm demonstrando que o teste de DNA do HPV (isto é, o teste que detecta o DNA do vírus causador do tumor) é muito mais sensível na detecção das lesões pré-malignas e malignas, em cerca de 35% a 40%, quando comparado à citologia. Dessa maneira, diversas entidades internacionais, bem como o Brasil, vêm recomendando sua utilização. Entretanto, nas localidades onde este teste de HPV ainda não está disponível recomenda-se a coleta da citologia.
Diante de questionamentos públicos sobre a relevância do exame, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) reforça que o Papanicolau é um exame com sólido embasamento científico e papel essencial no cuidado à saúde da mulher.
“Quando uma pessoa pública questiona a importância desse exame, é fundamental reforçar à população que, sim, o Papanicolau tem fundamento e é um exame importante para a detecção precoce do câncer do colo do útero. Ainda que algumas mulheres possam se sentir desconfortáveis com o exame, vale explicar que o teste molecular para detecção do DNA do HPV - que já está disponível no Brasil e vem sendo implementado de forma gradual tanto no SUS quanto na rede privada - utiliza a mesma forma de coleta do Papanicolau. O benefício destes testes será sempre maior que qualquer desconforto”, explica a Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO.
A FEBRASGO destaca ainda que o rastreamento adequado, aliado à vacinação contra o HPV e ao acompanhamento regular com profissionais de saúde, é essencial para a prevenção e o diagnóstico precoce das doenças ginecológicas. “O câncer do colo do útero é um dos poucos tipos de câncer cuja causa é bem estabelecida: a infecção pelo vírus HPV. Dessa forma, a vacinação contra este vírus, que previne o contágio, aliada ao rastreamento precoce das alterações provocadas pelo vírus — por meio da citologia ou do teste de HPV — tem potencial para, em um futuro próximo, reduzir significativamente a incidência dessa doença como problema de saúde pública”, comenta a Dra Adriana Campaner, presidente da Comissão Nacional Especializada em Trato Genital Inferior da FEBRASGO.