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Disfunções Sexuais no Climatério têm Tratamento

Quinta, 22 Junho 2017 15:55
A sexualidade feminina é muito caprichosa e multifacetada, abraçando componentes fisiológicos, psicológicos e interpessoais. Nesse contexto é relevante o papel das diferenças individuais, dos fatores sócioculturais, da aprendizagem e da idade.

1 Em uma parte significativa das mulheres ocorre a chamada disfunção sexual. Esse termo é utilizado para definir distúrbios sexuais, que provoquem sofrimento, que incluem o transtorno do orgasmo feminino, o transtorno do interesse/excitação sexual feminina e o transtorno da dor gênito-pélvica/penetração. 2 A disfunção sexual de curta duração pode provocar frustração e angústia, além de dor, em alguns casos. Quando crônica, essa disfunção de ordem sexual pode levar à ansiedade e a depressão, prejudicando relacionamentos ou criando problemas em diferentes áreas da vida da mulher 3,4 . As queixas sexuais são prevalentes durante toda a vida reprodutiva, mas durante o climatério as mulheres podem ficar mais vulneráveis à disfunção sexual feminina (DSF) devido à interação de vários fatores4 . Durante a transição menopausal e a menopausa ocorrem alterações hormonais que provocam diferentes efeitos nos órgãos genitais e no sistema nervoso central5 . Tudo isso sem contar os fatores físicos, psicológicos, sociais e relativos ao parceiro sexual, que influenciam a função sexual4,6 . As alterações hormonais, de fato, podem influenciar direta ou indiretamente a função sexual feminina5 . Os estrogênios são particularmente importantes na manutenção do tecido genital saudável. Além disso, a atrofia vulvo-vaginal causada pela deficiência de estrogênio na pós-menopausa leva ao afinamento do epitélio vaginal, à perda de elasticidade, ao aumento do PH vaginal, à redução da lubrificação e a alterações na sensação genital, assim como ao ressecamento vaginal e à dispareunia, sintomas muito comuns nessa fase7 . A atrofia vaginal tem um impacto significativo sobre o funcionamento sexual e pode afetar todos os domínios da função sexual, incluindo o desejo sexual8 .

O efeito das mudanças urogenitais da menopausa nas alterações da função sexual é bem conhecido. Em um estudo com 1858 mulheres com média etária de 58 anos, Kingsberg e cols verificaram que muitas mulheres sofrem silenciosamente com dispareunia (dor durante o ato sexual), principalmente por acreditarem que a atrofia vulvovaginal (VVA), como o problema é oficialmente conhecido, era apenas uma parte natural do envelhecimento e algo com que tinham que conviver. Essa condição VVA está relacionada ao afinamento e enfraquecimento dos tecidos vaginais devido a diminuição do estrogênio após a menopausa.9 Vários estudos estimam que aproximadamente cinquenta por cento das mulheres pós-menopáusicas sofrem com sintomas vulvovaginais relacionados, incluindo secura vaginal, irritação, dor durante a relação sexual e problemas com a micção9,10. Sintomas de VVA impactam na capacidade de alcançar o prazer sexual (75%), no relacionamento com parceiros (67%) e na espontaneidade sexual (66%). Apesar de 71% das participantes serem sexualmente ativas, houve diminuição de desejo sexual em dois terços dessas mulheres em consequência da atrofia vulvovaginal. 10

Com toda esta dor e desconforto era comum acreditar que as mulheres estariam procurando avidamente por ajuda para aliviar esses sintomas. Mas pesquisas recentes nos Estados Unidos e na Europa constataram que as mulheres frequentemente não relatam seus sintomas e, por consequência, não recebem tratamento. Há uma tremenda falta de comunicação em relação à questão do desconforto vaginal. A condição é usualmente "subdiagnosticada e subtratada" em mulheres mais velhas, graças a uma falta de comunicação entre médicos e suas pacientes na pós-menopausa.9,10

No estudo de Kingsberg e cols apenas 7% das mulheres usavam terapias prescritas para VVA (terapias de estrogênio local ou medicamento oral de moduladores seletivos do receptor de estrogênio), 18% eram ex-usuárias de terapias prescritas de VVA, 25% usavam inadequadamente o tratamento e 50% nunca tinham sido tratadas. A maior parte das mulheres (81%) não estava ciente de que a VVA é uma condição médica. Das mulheres que nunca utilizaram tratamento, 72% nunca tinham discutido seus sintomas com um profissional de saúde.10

Efeitos sistêmicos do climatério na função sexual
Além dos problemas urogenitais, durante a peri ou pós-menopausa, os efeitos sistêmicos da deficiência estrogênica podem piorar a função sexual nas mulheres11. Entre esses efeitos sistêmicos se encontram os sintomas vasomotores, a insônia, as alterações do humor e os sentimentos negativos que muitas vezes surgem12 .

Embora não se tenha uma exata compreensão do seu papel na sexualidade feminina, os andrógenos, produzidos na glândula adrenal e ovários, parecem ter importância no interesse e na excitação sexual13 . O nível de andrógenos circulantes declina gradualmente com a idade devido a uma redução da produção adrenal: os andrógenos circulantes em uma mulher de quarenta anos são a metade do que é encontrado numa de vinte14 .

A queda na produção hormonal, que afeta os receptores em vários sistemas do corpo, provoca, portanto, consequências na função sexual que variam de efeitos na função cognitiva à resposta genital local. Quando há uma queda abrupta na produção desses hormônios, como na menopausa cirúrgica ou quimioterapia, o efeito adverso na função sexual, especialmente no desejo sexual, é ainda mais significativo15 .

O desejo sexual hipoativo (DSH), ou seja, a redução desse desejo, foi o problema sexual mais prevalente identificado em estudo populacional em mulheres brasileiras de meiaidade, seguido pela disfunção da excitação e do orgasmo. O estudo identificou o DSH em aproximadamente 60% dessas mulheres e uma prevalência maior com o aumento da idade16. Registro de 1574 pacientes citou que 67,5% das mulheres estavam frequentemente ou sempre angustiadas pela falta de desejo sexual. Menos da metade dessas mulheres procuraram cuidados ou assistência profissional para seu DSH. Das que aceitaram tratamento hormonal, 7,6% estavam na pré-menopausa e 23,7% eram mulheres na pós-menopausa. Entre os motivos apontados para a falta de procura por cuidados se encontravam a falsa noção que diminuição do desejo sexual é uma parte inevitável do envelhecimento e o pressuposto de que não existe nenhum tratamento para as disfunções sexuais femininas. 17

Outros fatores da disfunção sexual
Existem evidências de que a função sexual é influenciada por fatores psicossociais, incluindo a qualidade do relacionamento interpessoal, o suporte social, o bem estar emocional, as doenças crônicas e a depressão 18, assim como a ausência de parceiro ou parceiro com problemas de saúde19 . No entanto, entre todos os fatores que afetam o desejo sexual feminino, o envelhecimento parece ser o mais significativo20. Além disso, as doenças crônicas, que aparecem com o envelhecimento e os tratamentos relacionados, podem afetar direta ou indiretamente a função sexual feminina, pela diminuição dos níveis dos esteróides sexuais, inervação e perfusão dos órgãos genitais femininos21. Não obstante, algumas mulheres pós-menopausa relatam um aumento na satisfação sexual. Isto pode ser devido a diminuição da ansiedade associada ao medo de gravidez. Além disso, nessa fase, muitas têm menos responsabilidades de criação dos filhos, permitindo-lhes relaxar e desfrutar de intimidade com seus parceiros.

Em relação ao parceiro sexual, estudos indicam a associação entre grau de intimidade emocional com o parceiro e satisfação sexual. Por outro lado, problemas sexuais do parceiro podem ter efeitos adversos na função sexual feminina. Assim problemas de disfunção erétil, por exemplo, podem levar à diminuição do desejo feminino. 22

No entanto, constatou-se que no decorrer do envelhecimento observou-se mudança na forma de expressão da sexualidade, assim como diminuição da frequência da atividade sexual, mas a satisfação sexual pode permanecer para a maioria das que continuam sexualmente ativas23 .

CONCLUSÃO
O conhecimento dos fatores que interferem na sexualidade feminina no climatério é de suma importância, uma vez que existem várias possibilidades de tratamento para os sintomas climatéricos. De maneira especial, deve-se considerar a relevância da atrofia vulvovaginal, não só pelos sintomas locais, mas como desencadeadora de distúrbios nos outros domínios da função sexual.



Referências
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