Dengue na gestação aumenta o risco de mortalidade materna

Terça, 20 Fevereiro 2024 19:06

Ginecologistas e obstetras devem ficar atentos aos sintomas e diagnósticos diferenciais. Hidratação e avaliação diária da paciente são cuidados fundamentais.

Por Letícia Martins, jornalista com foco em saúde

 
Nos últimos meses, o Brasil tem enfrentado crescimento significativo do número de casos de dengue, sinalizando a possibilidade de mais um pico epidêmico da doença. Embora esse aumento seja comum no mês de abril, a curva epidemiológica indica que os números foram antecipados para janeiro e fevereiro, notadamente após o período do Carnaval.

Nesse cenário preocupante, as gestantes merecem atenção redobrada, pois o risco de hospitalizações é maior em relação às mulheres sem a infecção, principalmente quando elas adquirem a infecção no último trimestre da gravidez. “Casos de dengue hemorrágica aumentam em mais de 400 vezes o risco de morte materna e em 27 vezes quando a gestante apresenta apenas sinais de gravidade”, afirma o Dr. Antônio Braga Neto, coordenador estadual da Área Técnica da Saúde das Mulheres do Rio de Janeiro e membro do Grupo de Trabalho sobre Dengue na Gestação criado recentemente pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Entre as possíveis razões para a alta taxa de letalidade está a demora no atendimento da gestante com dengue. Demora essa que pode ser causada tanto por parte do profissional em fazer o diagnóstico, quanto da mulher em buscar o atendimento. “Assim, na presença de febre associada a pelo menos outros dois sintomas, como mialgia, exantema, dor retro-orbital, náuseas, vômitos e diarreia, deve ser considerado suspeita de dengue”, avisa Dr. Antônio.

Dr. Regis Kreitchmann, presidente da Comissão Nacional Especializada (CNE) de Doenças Infectocontagiosas da Febrasgo e coordenador do GT sobre Dengue na Gestação da Febrasgo, explica que toda gestante com sintomas suspeitos de dengue já é caracterizada no grupo B da doença. “Ela deve passar por uma avaliação médica e receber hidratação oral imediata, enquanto aguarda o resultado do hemograma e do teste de diagnóstico. Já a hidratação endovenosa deve ser feita em pacientes dos grupos C e D, que apresentam sinais de alarme indicando maior gravidade da doença com necessidade de hospitalização, como aumento progressivo de hematócrito, sangramento de mucosas, dor abdominal intensa, entre outros”, disse Dr. Regis.

 

Ele salienta ainda que as gestantes com suspeita de dengue devem ser avaliadas diariamente até 48 horas após o desaparecimento da febre, mantendo sempre a hidratação oral ou intravenosa, conforme a gravidade. “Não existe tratamento específico para a dengue. As condutas médicas dependerão do grau de gravidade da doença, mas o primeiro procedimento é hidratar”, ressalta. Dr. Regis.

“Outro cuidado fundamental é controlar a febre da gestante, evitando que ela desenvolva trabalho de parto pré-termo. Com a conduta adequada, a grande maioria das pacientes evolui para melhora clínica, mas como não é possível saber quem vai melhorar, é imprescindível fazer o diagnóstico de todas as gestantes com sintomas suspeitos e acompanhar a evolução clínica da doença”, ressalta o Dr. Geraldo Duarte, vice-presidente da CNE de Doenças infectocontagiosas e membro do GT sobre Dengue na Gestação.

Diagnósticos diferenciais

Suspeitar de outras doenças que apresentam sintomas parecidos aos da dengue pode fazer a diferença no diagnóstico precoce: “Todas as doenças exantemáticas, que aparecem na pele com uma coloração avermelhada e às vezes como um rendilhado mais sutil, fazem diagnóstico diferencial com a dengue. As mais comuns nesta época do ano são a chikungunya e a zika, transmitidas pelo mesmo vetor, o Aedes aegypti”, não esquecendo da leptospirose, esclarece o Dr. Geraldo.

De acordo com o Dr. Geraldo, sarampo, rubéola, parvovírus B19, denominado hoje em dia de eritrovírus B19, mononucleose infecciosa, exantema súbito e leptospirose também fazem diagnóstico diferencial de dengue. “A leptospirose, por exemplo, apresenta um quadro clínico muito parecido ao da dengue grave, com choque e hemorragia, duas complicações com potencial de causarem a morte materna. Da mesma forma, pacientes com septicemia, meningococcemia, infecção de trato urinário, malária, doenças autoimunes, alergias medicamentosas e alergias cutâneas precisam ser investigadas”, disse Dr. Geraldo.

Outra recomendação do Dr. Geraldo para fazer o diagnóstico diferencial é levar em consideração a região onde a gestante mora ou esteve nos últimos 15 dias. No Brasil, os casos de dengue na atualidade atingem principalmente a região sudeste, nordeste e norte.

Em breve, a Febrasgo irá lançar o Manual de Manejo de Dengue na Gestação, com diretrizes atualizadas.

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