Violência contra a mulher: levantamento inédito da FEBRASGO identifica necessidades de quem está na linha de frente do cuidado da saúde feminina

Terça, 10 Março 2026 10:18

Levantamento inédito feito pela FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia traz as principais necessidades e demandas dos profissionais médicos diante da identificação e atendimento de mulheres vítimas de violência, seja ela psicológica, moral, sexual, física ou patrimonial.

Identificar lacunas estruturais e técnicas no atendimento, compreender o nível de preparo e segurança dos médicos, mapear dificuldades relacionadas à rede de apoio e fluxos de encaminhamento e subsidiar o desenvolvimento de ações estratégicas estão dentro dos objetivos da próxima fase da campanha #EuVejoVocê pelo fim da violência contra a mulher em todas fases da vida.

Dos respondentes, 66,09% correspondeu ao público feminino, sendo grande parte das respostas advindas de médicas(os) de São Paulo (31,83%) e Minas Gerais (11,42%). Cerca de 61% do público participante atuam em ambas as redes, pública e privada e 57,24% dos profissionais atendem vítimas de violência ao menos ocasionalmente, evidenciando que a violência está presente de forma recorrente na prática clínica.

Entre os tipos de violência mais identificados estão: violência psicológica/emocional (82,99%), violência sexual (50%), violência física (34,38%) e violência patrimonial (24,65%). Dos médicos(as) entrevistados, 23% relatam sentir-se pouco ou nada preparados para lidar com estes casos, indicando uma lacuna formativa relevante.

“Ao apresentar esses dados, assumimos nosso papel institucional de liderar esse debate, transformar conhecimento em ação e fortalecer nossos profissionais para que sejam parte ativa no enfrentamento à violência contra a mulher” explica Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO

Na prática clínica, em relação à abordagem sobre violência contra a mulher, 46,55% abordam as pacientes apenas quando há sinais evidentes; 26,55% apenas quando a paciente relata a violência espontaneamente; 14,48% realizam abordagem rotineira e 12,41% raramente ou nunca abordam o tema. A ausência ou fragilidade da rede de apoio (59,17%) associada às inseguranças jurídicas (44,98%) revela que o principal obstáculo não é apenas clínico, mas estrutural.

Há variação no grau de conhecimento dos fluxos regionais: 43% dos profissionais conhecem pouco ou não conhecem os fluxos de notificação e encaminhamento, evidenciando fragilidade estrutural na articulação assistencial.

“Neste levantamento identificamos uma forte demanda por campanhas educativas contínuas na mídia, divulgação de direitos legais e canais de denúncia (como o Disque 180), orientações claras sobre onde e como buscar ajuda, ações educativas em escolas e comunidades e fortalecimento da autoestima e da autonomia feminina”, explica Dra. Maria Celeste.

Foram mencionados como prioritários: Fluxogramas objetivos de atendimento, protocolos padronizados, checklists operacionais, orientações específicas por município ou região, ferramentas de avaliação estruturada (questionários ou escores), diretrizes claras sobre notificação obrigatória.

Para os(as) ginecologistas ouvidos, há necessidades de educação jurídica simplificada, esclarecimento sobre deveres legais e limites do sigilo, proteção institucional ao profissional, segurança em casos sensíveis (como aborto legal) e garantia de respaldo em situações que envolvam risco ao médico ou à equipe.

Diante dos números levantados, a FEBRASGO identifica demandas de mapeamento atualizado da rede de proteção por região, integração com assistência social, psicologia e serviços jurídicos, fortalecimento das Delegacias da Mulher, ampliação de casas-abrigo, redução da burocracia para encaminhamentos e equipes multiprofissionais estruturadas.

Entre as contribuições dissertativas dos respondentes, foram mencionadas propostas de educação de meninos e jovens sobre respeito e igualdade, inclusão de homens nas campanhas, combate a narrativas que romantizam controle e ciúme, enfrentamento da violência psicológica invisibilizada e ações educativas desde a infância.

Olhar ampliado - Desigualdades no acesso a exames, vacinação, rastreamento e assistência qualificada configuram formas de violência que impactam diretamente indicadores como câncer do colo do útero e mortalidade materna — condições que, em grande parte, poderiam ser evitadas com políticas públicas efetivas e assistência adequada.

A segunda fase da campanha #EuVejoVocê deve, portanto, avançar do campo da conscientização para o campo do suporte prático, fortalecendo o profissional que está na linha de frente do cuidado por meio de treinamentos práticos, simulações de atendimento, orientações sobre como perguntar e acolher, fornecimento de educação médica continuada objetiva e aplicável, e divulgação de conteúdos específicos para ginecologistas e obstetras.

A escuta realizada reafirma o compromisso da FEBRASGO com a qualificação da assistência e com o enfrentamento da violência contra a mulher no contexto da saúde.

Para conhecer os dados completos deste levantamento, clique aqui.


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