Especialista da FEBRASGO explica sobre o fezolinetanto, remédio não hormonal para fogachos aprovado pela Anvisa

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Especialista da FEBRASGO explica sobre o fezolinetanto, remédio não hormonal para fogachos aprovado pela Anvisa

24 jun. de 2026

A Anvisa aprovou em 22 de junho de 2026 o fezolinetanto, que será comercializado no Brasil com o nome Veoza®, na apresentação de 45 mg. Trata-se de um medicamento oral e não hormonal indicado para sintomas vasomotores moderados a graves associados à menopausa, especialmente fogachos e suores noturnos. A aprovação sanitária, porém, não significa disponibilidade imediata: preço e data de lançamento ainda não foram definidos.

O fezolinetanto substitui a reposição hormonal? – “Não. O fezolinetanto não substitui de forma geral a terapia hormonal da menopausa. Ele amplia as possibilidades de tratamento. A terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores nas mulheres que apresentam indicação e não possuem contraindicações. Além disso, ela pode trazer benefícios sobre outros componentes do climatério, como sintomas geniturinários e prevenção da perda de massa óssea, dependendo da formulação e da indicação”, comenta a Dra. Rita de Cassia Dardes, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Climatério da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.

A médica explica que o fezolinetanto tem uma atuação mais específica: ele foi desenvolvido para reduzir fogachos e suores noturnos moderados a graves. Portanto, não deve ser apresentado como um tratamento para todos os sintomas da menopausa, mas como uma alternativa não hormonal importante para determinadas pacientes.

A própria indicação regulatória do fezolinetanto é direcionada aos sintomas vasomotores moderados a graves. A FEBRASGO também reforça que a terapia hormonal apresenta relação benefício-risco favorável para mulheres adequadamente selecionadas, especialmente quando iniciada antes dos 60 anos ou dentro dos primeiros dez anos após a menopausa. “Ele não veio ocupar o lugar da terapia hormonal; veio preencher uma lacuna importante e permitir que o tratamento seja ainda mais individualizado”, conta Dra. Rita

Como funciona esse medicamento? – O fezolinetanto não contém estrogênio nem progesterona. Ele atua diretamente no centro de controle da temperatura corporal, localizado no hipotálamo. Com a queda do estrogênio durante a transição menopausal, ocorre um desequilíbrio na atividade dos neurônios chamados KNDy, com aumento da sinalização da neurocinina B. Isso torna o centro termorregulador mais sensível e favorece o aparecimento das ondas de calor e dos suores noturnos.

O fezolinetanto bloqueia seletivamente o receptor de neurocinina 3, o receptor NK3. Com isso, ajuda a reorganizar essa atividade cerebral e reduz a frequência e a intensidade dos fogachos. “Uma maneira didática de explicar é: Ele funciona como se ajudasse a recalibrar o termostato do cérebro, que se torna desregulado pela queda do estrogênio”, diz a genecologista. O mecanismo de ação descrito pelas agências reguladoras envolve o bloqueio da ligação da neurocinina B ao receptor NK3 nos neurônios KNDy, modulando o centro termorregulador do hipotálamo.

Quais são as pacientes mais beneficiadas? – As principais candidatas são mulheres com fogachos e suores noturnos moderados ou graves, que comprometem o sono, a disposição, o trabalho e a qualidade de vida. O medicamento é particularmente relevante para aquelas que não podem utilizar terapia hormonal sistêmica, que apresentaram efeitos adversos ou resposta inadequada ao tratamento hormonal, ou que, após receberem informações adequadas, preferem uma opção não hormonal.

Também pode ser considerado quando, após avaliação clínica individualizada, o início da terapia hormonal não é a alternativa mais apropriada. De acordo com a ginecologista, o estudo DAYLIGHT demonstrou benefício em mulheres consideradas inadequadas para terapia hormonal por contraindicação, cautela médica, efeitos adversos prévios ou escolha pessoal. A melhora dos sintomas foi observada já nas primeiras semanas e mantida durante os seis meses avaliados.

É preciso ter cuidado especial ao falar sobre câncer de mama. Por ser não hormonal, o medicamento desperta grande interesse para mulheres com histórico de neoplasias hormônio-dependentes. Entretanto, isso não significa que esteja automaticamente liberado para toda paciente com câncer de mama. Nas mulheres em tratamento oncológico, a indicação deve ser compartilhada com o oncologista, porque os estudos específicos nessa população ainda estão em andamento”, reforça Dra. Rita

A segurança e a eficácia específicas em mulheres com câncer de mama receptor hormonal positivo em terapia endócrina ainda estão sendo avaliadas no estudo de fase 3 HIGHLIGHT 1.

A FEBRASGO recebe esta aprovação de maneira positiva, porque representa uma inovação relevante e amplia o arsenal terapêutico disponível para o cuidado das mulheres no climatério. Durante muito tempo, as alternativas não hormonais específicas para os sintomas vasomotores foram limitadas. A chegada de um medicamento desenvolvido diretamente para atuar no mecanismo dos fogachos permite oferecer um tratamento baseado em evidências a mulheres que não podem ou não desejam utilizar terapia hormonal.

“Ao mesmo tempo, é importante evitar a ideia de competição entre os tratamentos. Não existe uma solução única para todas as mulheres. A terapia hormonal continua tendo papel fundamental quando bem indicada, e o fezolinetanto passa a integrar o conjunto de opções que devem ser escolhidas de acordo com sintomas, idade, tempo de menopausa, comorbidades, preferências e perfil de risco de cada paciente”, pontua a ginecologista.

Como toda nova tecnologia, sua utilização deve vir acompanhada de prescrição responsável, farmacovigilância, acompanhamento dos dados de segurança em vida real e discussão sobre acesso ao tratamento. A aprovação representa mais autonomia para a mulher e mais possibilidades para o médico individualizar o tratamento.

Recomendações importantes – A primeira recomendação é não se automedicar. Fogachos e suores noturnos precisam ser avaliados no contexto global da saúde da mulher, porque o fezolinetanto é indicado para sintomas vasomotores moderados a graves e não trata necessariamente outras queixas, como secura vaginal, dor nas relações, perda óssea, alteração do humor ou redução da libido.

Antes da prescrição, o médico deverá revisar o histórico clínico, doenças hepáticas e renais e todos os medicamentos utilizados, devido à possibilidade de interações medicamentosas. “Também é importante lembrar que o medicamento não é anticoncepcional. Mulheres que ainda se encontram na transição menopausal e têm possibilidade de gestação precisam manter contracepção adequada”, comenta Dra. Rita. Ela conta que, nos Estados Unidos, a bula determina exames hepáticos antes do tratamento, mensalmente durante os três primeiros meses e novamente no sexto e no nono mês. Como a bula brasileira acaba de ser aprovada, a orientação pública mais segura é enfatizar que o acompanhamento deve seguir exatamente o esquema estabelecido pela Anvisa.

“A aprovação do fezolinetanto é uma excelente notícia porque reconhece a importância dos sintomas da menopausa e oferece uma alternativa não hormonal especificamente desenvolvida para os fogachos. Mas tratamento moderno não significa escolher sempre o medicamento mais novo: significa avaliar cada mulher individualmente, explicar benefícios e riscos e tomar a decisão em conjunto com ela”, finaliza a médica.

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