Primeiros 1.000 dias: FEBRASGO alerta que o cuidado com o bebê começa antes do nascimento
10 ago. de 2026
Nutrição materna, prevenção de anemia e infecções, vacinação, escolha da via de parto, apoio emocional e acompanhamento no puerpério fazem parte de uma rede de cuidado que pode impactar o desenvolvimento da criança ao longo da vida
Para a ginecologista Dra. Eliana Martorano Amaral, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a atenção à nutrição materna, o combate à anemia e a prevenção e tratamento de infecções estão entre as principais intervenções durante a gravidez – e contribuem para reduzir riscos, como o nascimento prematuro. “Quando a gravidez é compreendida como um evento positivo na vida da mulher, e ela está bem nutrida e amparada durante o pré-natal e o parto, as condições de desenvolvimento do bebê são melhores. O suporte à mulher nesse período é fundamental”, diz.
A via de parto também deve fazer parte das orientações oferecidas durante o pré-natal. “Atualmente, há evidências de que a via de nascimento pode ter relação com aspectos da saúde da criança ao longo da vida, especialmente no que diz respeito ao risco de doenças imunológicas e metabólicas. Ao nascer por via vaginal, por exemplo, a criança entra em contato com bactérias que ajudam a colonizar seu trato gastrointestinal, incluindo estômago e intestino”, comenta Dra. Eliana.
A especialista também ressalta a importância da vacinação durante a gestação, incluindo a vacina contra o vírus sincicial respiratório, que contribui para proteger a criança nos primeiros meses de vida, fase em que o bebê está mais vulnerável a infecções respiratórias.
A saúde física e emocional da gestante interfere diretamente no desenvolvimento do bebê, tanto durante a gravidez quanto após o nascimento. No primeiro ano de vida, em especial, crescer em um ambiente seguro é fundamental para o desenvolvimento neuropsicológico da criança.
Para que os primeiros 1.000 dias sejam tratados como prioridade de saúde pública, Dra. Eliana defende o investimento contínuo na formação dos profissionais. “Esse cuidado não deve ser exclusivamente médico. Trata-se de uma assistência multiprofissional, que envolve educação em saúde, aspectos nutricionais, acompanhamento clínico adequado, orientações fisioterápicas e odontológicas. Entre os exemplos estão a preparação e fortalecimento dos músculos do períneo, independentemente da via de parto, e os cuidados com a saúde gengival durante a gestação, que podem contribuir para reduzir o parto prematuro”, explica.
Esse olhar ampliado também vale para o aleitamento materno. A amamentação, embora fundamental, nem sempre é um processo simples. “Por isso, é importante que diferentes profissionais de saúde, com destaque para a equipe de enfermagem, estejam disponíveis para orientar e acompanhar essa mulher. As visitas domiciliares têm papel relevante, especialmente na primeira e na segunda semana de vida do bebê”, diz Dra. Eliana.
A ginecologista destaca que, como sociedade, ainda é preciso ampliar a compreensão sobre a importância do cuidado qualificado ao longo de todo esse período. Para que alimentação, vacinação, aleitamento e vínculo se transformem em cuidado real, e não apenas em orientação, é necessário acompanhamento contínuo.
“Na rotina do pré-natal, os profissionais devem contar com protocolos bem estabelecidos e checklists que incluam alimentação, vacinação e outros pontos essenciais do cuidado. Esses protocolos precisam estar visíveis nos serviços de saúde, inclusive impressos e disponíveis em consultórios, mesas e paredes, para orientar não apenas os profissionais, mas também as mulheres, seus familiares e acompanhantes. A informação clara ajuda a reforçar a importância dessas medidas”, afirma a médica da FEBRASGO.
Nos 1.000 primeiros dias deve haver orientação sobre o futuro reprodutivo e o planejamento de uma próxima gestação. “A recomendação é que haja intervalo mínimo de dois anos entre um parto e outro. Esse tempo é importante para que a mãe se recupere física e psiquicamente e possa dedicar atenção à primeira criança nestes anos de ouro, antes da chegada de um outro filho”, alerta a obstetra.
Para a Dra. Eliana, a gestação, parto e puerpério devem ser compreendidos como responsabilidade de toda a sociedade. Não se trata de colocar sobre a mulher todo o peso do bom cuidado, mas de envolver todos ao seu redor: equipe de saúde, familiares, parcerias e pessoas próximas. O objetivo é garantir que mãe e criança vivenciem os primeiros 1.000 dias com a melhor qualidade possível, em um ambiente de cuidado, segurança, apoio e responsabilidade compartilhada”, finaliza a especialista da FEBRASGO.