Dor, desejo e prazer: FEBRASGO reforça que saúde sexual também é saúde
05 ago. de 2026
No Dia Nacional da Saúde, celebrado em 5 de agosto, a FEBRASGO alerta que secura vaginal, dor na relação e queda do desejo sexual não devem ser tratadas como “coisa da idade”. Para a entidade, a ginecologia do futuro precisa integrar sexualidade e longevidade ao cuidado da mulher
A longevidade feminina não pode ser discutida sem falar de menopausa e sexualidade. No Brasil, cerca de 30 milhões de mulheres estão nessa faixa e dados nacionais apontam que 82% têm sintomas que impactam qualidade de vida. Entre eles, dor durante a relação, secura vaginal, perda do desejo, dificuldade de excitação e queda da satisfação sexual muitas vezes são naturalizadas pelas próprias mulheres — e deixam de ser investigadas na consulta médica.
Segundo a Dra. Jussimara Souza Steglich, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a sexualidade deve ser compreendida como parte da saúde integral da mulher. “Dor na relação é sintoma, não uma consequência inevitável da idade. Ela precisa ser investigada e tratada precocemente, antes que comprometa desejo, excitação, orgasmo e satisfação”, afirma.
A especialista reforça que o desejo sexual feminino não depende apenas dos hormônios. Ele é resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos, socioculturais e relacionais. Sono, humor, autoestima, doenças crônicas, uso de medicamentos, sobrecarga mental, qualidade da parceria e histórico de vida também interferem diretamente na função sexual.
Por que muitas mulheres ainda não falam sobre dor, desejo e prazer no consultório? – Muitas mulheres acreditam que prazer e desejo são assuntos secundários ou que não pertencem à consulta ginecológica. Outras deixam de falar por medo de julgamento, vergonha de abordar intimidade ou receio de serem consideradas frias, exigentes ou promíscuas.
Também é comum que a mulher considere a dor durante a relação como algo “normal”, especialmente após o parto ou na menopausa. O mesmo ocorre com a perda do desejo, muitas vezes entendida como parte inevitável do envelhecimento. Os fogachos do climatério podem melhorar com o tempo, mas dor sexual, secura vaginal, e a síndrome genitourinaria da menopausa são progressivos se não forem tratados. Eles não são normais da idade e possuem tratamento eficaz, de acordo com a médica.
Segundo Dra. Jussimara, o ginecologista precisa perguntar ativamente sobre dor, secura vaginal e desejo sexual, em vez de esperar que a paciente relate espontaneamente.
Quando há relato de dor durante a relação sexual, a ISSWSH (principal sociedade científica global dedicada à saúde sexual feminina) recomenda investigar: síndrome genitorinária da menopausa, disfunção do assoalho pélvico, vulvodinha dermatoses vulvares, causas infecciosas e fatores psicossociais e relacionais.
Quando a queda do desejo é hormonal? – A queda do desejo sexual pode ter relação com a menopausa, especialmente quando há insuficiência ovariana ou quando a mulher passou por cirurgia para retirada dos ovários. Nesses casos, alterações hormonais podem interferir na resposta sexual.
Na menopausa, a síndrome geniturinária pode causar ressecamento vaginal, dor na penetração e desconforto durante a relação. A dor pode levar à contração dos músculos do assoalho pélvico, criando um ciclo difícil de romper: dor, contratura muscular, medo de sentir dor novamente, ansiedade e perda do desejo.
Entretanto, a perda do desejo não deve ser atribuída automaticamente aos hormônios. A ginecologista conta que protocolos internacionais orientam que o desejo sexual hipoativo seja avaliado de forma ampla, e o manejo deve ser multidisciplinar, envolvendo, quando indicado, educação sexual, fisioterapia no assoalho pélvico, terapia cognitivo comportamental ou terapia sexual e tratamento hormonal, quando indicado.
Doenças como hipotireoidismo, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, endometriose e fibromialgia podem interferir na função sexual. Alguns medicamentos, incluindo antidepressivos, também podem afetar a sexualidade feminina.
Além disso, ansiedade, depressão, autoestima baixa, estresse, privação de sono, sobrecarga mental, puerpério, histórias de abuso sexual, conflitos conjugais e dificuldades de intimidade podem impactar profundamente a vida sexual da mulher.
“O diagnóstico exige identificar todos esses fatores. A saúde sexual não depende apenas dos hormônios. Ela reflete como a pessoa dorme, sente, se relaciona, cuida da própria saúde e envelhece junto com o parceiro”, explica Dra. Jussimara.
Secura vaginal e dor na relação não devem ser encaradas como normais da idade. “São sintomas e precisam de avaliação. Embora frequentes na menopausa, não devem ser tratados como algo sem solução. Em muitos casos, a terapia hormonal pode melhorar principalmente sintomas relacionados à deficiência estrogênica, como secura vaginal, dor à penetração e desconforto sexual decorrentes da síndrome genitourinária da menopausa, mas não constitui tratamento específico para todas as causas de redução do desejo sexual”, explica.
A especialista reforça que abordagens integradas são fundamentais. Educação sexual, conhecimento sobre anatomia, fisioterapia do assoalho pélvico e manejo dos fatores emocionais fazem parte do cuidado. “A resposta sexual depende da interação entre sistema nervoso central, estímulos sensoriais, hormonais, fatores emocionais e contexto relacional. Milhões de terminações nervosas são capazes de despertar prazer. Audição e olfato também participam dessa resposta”, destaca Dra. Jussimara.
A fisioterapia pélvica pode ser importante quando há dor, contratura muscular ou dificuldade de relaxamento durante a relação. O acompanhamento psicológico ou terapêutico também pode ser indicado em situações de ansiedade, trauma, autoestima baixa ou dificuldades conjugais.
A qualidade da vida sexual depende da interação entre diversos fatores. Dormir bem melhora energia, humor e desejo. Medidas como técnicas de relaxamento e práticas de mindfulness apresentam evidências de melhora de atenção às sensações corporais, redução da ansiedade relacionada ao desempenho sexual e melhora da satisfação e da função sexual.
Ansiedade, depressão e estresse diminuem a satisfação sexual. A parceria também tem papel importante: comunicação, intimidade e adaptação do casal às mudanças do envelhecimento podem se tornar mais relevantes do que a frequência das relações.
Publicações recentes vêm discutindo o conceito de “doublepause”, que descreve mudanças simultâneas vividas por homens e mulheres durante o envelhecimento. Isso significa que o cuidado com a sexualidade deve considerar não apenas a mulher isoladamente, mas também a dinâmica do casal. “Envelhecer bem como casal significa cuidar simultaneamente do sono, da saúde física, da saúde emocional e da sexualidade. A função sexual torna-se um marcador importante do envelhecimento saudável, e não apenas uma consequência dos hormônios”, conclui Dra. Jussimara, para quem a ginecologia do futuro será necessariamente a ginecologia da sexualidade e da longevidade.