Casais LGBTQIA+ e o sonho da parentalidade: opções vão da reprodução assistida à adoção

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Casais LGBTQIA+ e o sonho da parentalidade: opções vão da reprodução assistida à adoção

26 jun. de 2026

  • O paciente precisa conhecer os possíveis efeitos da transição sobre a fertilidade
  • 28 de junho: Dia Internacional do Orgulho LGBT

 

A fertilidade na população LGBTQIA+ ainda é um tema que precisa ser abordado com maior antecedência no cuidado em saúde, especialmente antes do início de intervenções médicas que possam impactar a capacidade reprodutiva.

A Dra. Marta Curado Carvalho Franco Finotti, ginecologista, membro da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Assistida da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, defende que o aconselhamento sobre fertilidade e planejamento reprodutivo seja realizado de forma precoce, contínua e individualizada.

“A orientação sobre fertilidade deve fazer parte do cuidado desde o início do acompanhamento. É fundamental que pacientes e familiares compreendam os possíveis impactos das terapias hormonais, dos bloqueadores da puberdade e das cirurgias sobre a capacidade reprodutiva futura, bem como as alternativas disponíveis para preservação da fertilidade”, afirma a especialista.

A médica chama atenção para estudos que demonstram que a falta de informação ainda é uma realidade. “A maioria das pessoas transgênero relata desejo de ter filhos biológicos. Pesquisas mostram que cerca de 50% das mulheres trans e 37,5% dos homens trans teriam optado pelo congelamento de gametas se tivessem recebido orientação adequada antes de iniciar o tratamento”, destaca.

Impactos da transição de gênero na fertilidade

Nos homens trans que utilizam testosterona, podem ocorrer alterações na função ovariana e supressão da ovulação. Apesar disso, estudos apontam que a atividade folicular pode permanecer preservada, permitindo a possibilidade de gestação após a interrupção do hormônio, embora o grau de reversibilidade ainda não seja totalmente conhecido.

Já entre mulheres trans em uso de estrogênio e antiandrógenos, podem ocorrer atrofia testicular, redução significativa da produção de espermatozoides e alterações importantes no espermograma. Em alguns casos, a recuperação da fertilidade após a suspensão do tratamento é apenas parcial.

A atenção deve ser ainda maior durante a infância e a adolescência. O bloqueio puberal pode interferir na maturação das células germinativas e impactar o potencial reprodutivo futuro. Já as cirurgias com retirada de ovários ou testículos eliminam definitivamente a possibilidade de produção de gametas.

“Nessas situações, a decisão precisa ser tomada com muito cuidado, envolvendo equipes multiprofissionais, o paciente e, quando se trata de adolescentes, também os responsáveis legais”, explica a Dra. Marta.

Atualmente, as principais estratégias para preservação da fertilidade incluem a criopreservação de sêmen para mulheres trans e o congelamento de óvulos ou embriões para homens trans. Em pacientes pré-púberes, existe ainda a possibilidade  de criopreservação de tecido ovariano ou testicular, embora essa técnica,  ainda,  não ofereça garantia de uma gestação futura . “Não é mais uma técnica considerada experimental, já temos casos de nascidos vivos em todo o mundo e muitas vezes    é  uma opção a ser considerada”, reforça a especialista

Neste caso,  garantir o consentimento informado é uma responsabilidade essencial dos profissionais envolvidos no cuidado dessa população. “O paciente precisa conhecer os possíveis efeitos da transição sobre a fertilidade, entender as perspectivas de reprodução futura e ter acesso às opções de preservação antes de iniciar intervenções que possam comprometer sua capacidade reprodutiva”, ressalta.

Casais homoafetivos

Além da preservação da fertilidade, os avanços da medicina reprodutiva ampliaram significativamente as possibilidades de parentalidade para casais homoafetivos.

De acordo com a Dra. Marta, homens e mulheres homoafetivos apresentam desejo de ter filhos em frequência semelhante à observada entre casais heterossexuais, mas geralmente necessitam do acompanhamento de especialistas em reprodução assistida para planejar a gestação de forma segura e adequada.

“Hoje existem diversas alternativas que permitem a construção da parentalidade de forma planejada. A escolha depende do desejo de vínculo genético ou gestacional, das condições financeiras, das normas legais vigentes e do acesso aos serviços especializados”, explica a ginecologista da FEBRASGO.

Entre os casais formados por duas mulheres, uma das principais opções é a inseminação artificial com sêmen de doador. Também é possível realizar fertilização in vitro (FIV) utilizando sêmen proveniente de bancos autorizados. Outra alternativa é a chamada gestação compartilhada, conhecida como ROPA ou Co-FIV, em que uma parceira fornece os óvulos e a outra  recebe o embrião transferido e gesta , permitindo a participação biológica de ambas no processo reprodutivo.

Além das técnicas de reprodução assistida, a adoção e a adoção unilateral do filho biológico da parceira também representam caminhos importantes para a formação familiar.

Já entre casais formados por dois homens, a principal alternativa para obtenção de vínculo genético é a fertilização in vitro com óvulos doados e gestação por substituição, modalidade regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina no Brasil. Em muitos casos, ambos os parceiros podem utilizar seus espermatozoides em ciclos distintos ou até mesmo no mesmo tratamento.

A adoção também permanece como uma importante via de acesso à parentalidade, especialmente em situações nas quais a gestação por substituição apresenta limitações legais ou custos elevados.

“A parentalidade é um direito reprodutivo que deve ser discutido de forma respeitosa e sem preconceitos. Quanto mais cedo essa conversa acontecer, maiores serão as possibilidades de planejamento e de preservação das opções reprodutivas futuras”, conclui Dra. Marta.

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