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Violência contra a Mulher: Febrasgo alerta para principais fatores de risco, ao longo da infância e vida adulta

Quarta, 26 Agosto 2020 14:01
Agosto Lilás chama a atenção para o desafio de assegurar segurança e melhores condições de vida para as mulheres
 
São Paulo, agosto de 2020. Levantamento realizado pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a partir de dados de instituições brasileiras e internacionais, revela um cenário epidêmico de diferentes formas de violência contra a mulher que a acompanham ao longo de toda a vida. O quadro pode apresentar características ainda mais densas em casos de mulheres negras, pobres e de baixa escolaridade. A revisita desses dados estatísticos e epidemiológicos aponta ainda que os principais agressores encontram-se no lar e no trabalho, ambientes que deveriam prover acolhimento, segurança e estímulo ao desenvolvimento pessoal e profissional.
 
Violência Contra Crianças
Na esfera infantil, as meninas figuram como o principal alvo de violência física e sexual. De acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), das cerca de 46 mil notificações registradas, em 2018, 54,4% estavam associadas a vítimas do gênero feminino, sobretudo as de raça negra (47,9%). O levantamento abrangeu crianças de zero a nove anos e apontou que o tipo de violência mais relatado foi negligência e abandono (53,4%). A violência sexual aparece como o segundo tipo mais comum (26,5%) – um caso a cada 43 minutos – seguida pela violência física (24,3%). Esse dado complementa-se com estimativa do Ministério da Saúde que aponta que, a cada mês, pelo menos uma criança de 10 a 14 anos morre em decorrência de complicações da gestação. Ainda de acordo com o SINAN, os familiares representam quase a totalidade dos agressores (97,8%) e as residências são os locais priorizados para essas agressões (67,1%).
 
O ginecologista Dr. Agnaldo Lopes, presidente da Febrasgo, destaca que essas violências estão associadas ao surgimento de traumas físicos e psicológicos. “A necessidade de proteção dessas meninas não impacta somente o atual momento da infância, mas toda a vida da mulher. Esses casos de violência estão altamente relacionados a alto percentual de abandono escolar, abuso de álcool e drogas, comportamentos sexuais de risco, baixo autoestima, transtornos psiquiátricos, maior risco de suicídio, além de doenças crônicas, autoimunes e câncer decorrente do estresse pós-traumático”.
 
O profissional explica ainda que em situações de gravidezes precoces, há ainda riscos de complicações graves no desenvolvimento da gestação, como anemia, pré-eclâmpsia, eclampsia (aumento da pressão durante a gravidez), diabetes gestacional, parto prematuro e parto distócico. Não raramente, esses quadros podem levar à morte da gestante e do bebê.
 
Vida Adulta
A chegada à vida adulta e maturidade reserva ainda mais desafios e riscos às mulheres. De acordo com o Ministério da Saúde, somente em 2018, foram registrados 145 mil casos de violência contra a mulher (agressão física, psicológica, sexual ou uma combinação delas). A cada 4 minutos, uma mulher sobre algum tipo de violência – situação que tem se agravado em circunstância de isolamento social. O órgão aponta ainda que a violência doméstica é a principal causa externa de óbitos femininos. Entre os homens, estão os conflitos armados e atividades relacionadas à crimes.
 
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), episódios de violência impactam a saúde a saúde física, sexual, reprodutiva e mental das mulheres. Abusos físico ou sexual estão relacionados a maiores chances de aborto, depressão, risco de infecção por HIV e outra ISTs, distúrbios com álcool e transtornos psicológicos.
 
Trabalho
AS violências contra a mulher não são apenas de ordem física e sexual, mas também de caráter psicológico, moral e financeiro – realidades comuns no cenário laboral. Nesse universo, observou-se que além de menor participação, rendimentos e possibilidades de ascensão, as mulheres estão mais expostas a adoecimentos, agravos e lesões decorrentes do trabalho. Fatores ligados à escolaridade, etnia, estratificação social e presença de filhos impactam ainda mais essas realidades.
 
Segundo levantamentos do Ministério da Saúde, casos de LER/DORT são mais frequentes em ocupações socialmente mais desvalorizadas, como faxineira, cozinheira e alimentadora de linha de produção. As notificações de dermatoses atingem, sobretudo, faxineiras, técnicas em enfermagem e trabalhadora da agropecuária. As profissionais do segmento de saúde – técnicas e auxiliares de enfermagem e enfermeiras – estão sujeitas ainda a maior incidência de acidentes de trabalho com exposição a material biológico e transtorno mental. Esse último item também figura entre as notificações de professoras e agentes escolares.
 
As principais causas de adoecimento aparecem relacionadas às estruturas e condições de trabalho impostas às mulheres, como: longas jornadas, sobrecarga de trabalho, deficiência de recursos humanos e materiais, burocracia excessiva, falta de autonomia, cobranças administrativas e violência institucional, humilhações e ofensas, medo de demissão, falta de reconhecimento, e outros. Para as profissionais de saúde ainda somam-se condições precárias para realização do cuidado a pessoas com doenças graves e risco de morte, e ambientes de trabalho insalubres.
 
Os dados apontam também que as profissionais de serviços domésticos são as maiores vítimas de lesões por produtos químicos, como detergentes, sabão em pó, cera, água sanitária, desinfetante, inseticida, repelente de inseto e raticida, que podem causar destruição do manto lipídico da epiderme e secura da pele, eritema, descamação e fissuras.

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