Março Lilás: OMS propõe cobertura vacinal de 90% para eliminar câncer do colo do útero
- 08 de março é o Dia Internacional da Mulher
- “O Brasil oferece vacina gratuita, exames de rastreamento e centros especializados para tratamento”, revela especialista
O mês de março é marcado pela campanha Março Lilás, dedicada à conscientização e à prevenção do câncer do colo do útero, uma doença evitável que, apesar dos avanços da medicina, ainda provoca a morte de quase 19 mulheres por dia no Brasil.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa é de cerca de 19mil novos casos anuais no triênio 2023–2025. A doença é atualmente o câncer que mais mata mulheres até os 36 anos no país e o segundo que mais causa óbitos na faixa etária até os 60 anos. As maiores taxas de incidência e mortalidade concentram-se nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, evidenciando desigualdades no acesso à vacinação, ao rastreamento e ao tratamento.
No cenário global, o alerta também é preocupante. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, se medidas efetivas não forem ampliadas, o número de mortes anuais por câncer do colo do útero pode chegar a 410 mil até 2030, frente a aproximadamente 350 mil registradas em 2022.
“Quando falamos em violência contra a mulher, precisamos ampliar o olhar. A mortalidade por câncer de colo do útero é uma forma de violência institucional e social, porque decorrem, muitas vezes, da negligência, da desigualdade e da falta de acesso à saúde. São mortes evitáveis que revelam falhas no cuidado e na proteção dessas mulheres.”, revela a Dra. Susana Aidé, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
Uma doença causada pelo HPV
O câncer do colo do útero é provocado, em mais de 90% dos casos, pela infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), um vírus sexualmente transmissível. Existem diferentes tipos de HPV, sendo alguns classificados como de alto risco, ou seja, com potencial para provocar alterações celulares que podem evoluir para lesões pré-cancerígenas e, posteriormente, para o câncer.
Além do colo do útero, o HPV também pode estar associado a tumores de vulva, vagina, ânus, pênis e orofaringe, afetando homens e mulheres.
Embora o câncer do colo do útero possa evoluir de forma silenciosa nas fases iniciais, alguns sinais exigem avaliação médica imediata, mesmo quando os exames preventivos estão em dia, como sangramento fora do período menstrual, sangramento após a relação sexual, dor pélvica persistente e corrimento vaginal anormal.
A importância da vacinação
A vacinação contra o HPV é considerada a principal estratégia de prevenção primária. No Brasil, a vacina é ofertada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Também há estratégias de resgate para adolescentes e jovens que não foram imunizados na faixa etária recomendada.
A Dra. Susana destaca que a imunização é segura e baseada em evidências científicas consolidadas. “A vacina contra o HPV está disponível no Programa Nacional de Imunizações desde 2014 e possui eficácia, efetividade e segurança comprovadas. Hoje, temos ampla base científica que sustenta a imunoprevenção. Não há justificativa para deixar de vacinar”, afirma.
Segundo a especialista, ampliar a cobertura vacinal é fundamental para mudar o cenário atual. “Não adianta apenas uma família vacinar sua filha ou seu filho. Precisamos de alta cobertura populacional. Quando falamos em prevenção, falamos em responsabilidade coletiva. Se não ampliarmos a vacinação, continuaremos registrando números que poderiam ser evitados.”
Além da vacinação, o rastreamento regular é essencial para identificar precocemente lesões precursoras do câncer. O exame citopatológico, conhecido como Papanicolaou, continua sendo um método seguro e eficaz. Nos últimos anos, o teste molecular para detecção do DNA do HPV vem sendo incorporado como estratégia de maior sensibilidade, podendo gradualmente substituir o exame tradicional em alguns contextos.
A OMS estabeleceu metas globais para a eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030. A estratégia prevê: vacinar 90% das meninas até os 15 anos; garantir que 70% das mulheres realizem exames de rastreamento de alta qualidade ao menos duas vezes na vida (preferencialmente aos 35 e 45 anos); e assegurar que 90% das mulheres com diagnóstico de lesões ou câncer recebam tratamento adequado.
Para a FEBRASGO, a reversão desse quadro depende de três frentes simultâneas: ampliar a cobertura vacinal, organizar o rastreamento com busca ativa e acompanhamento dos resultados, e garantir diagnóstico e tratamento oportunos.
“O câncer do colo do útero é uma doença que pode ser evitada. Vacina e rastreamento salvam vidas. Precisamos transformar conhecimento científico em ação concreta”, conclui Dra. Susana.