CBGO 2026: Dr. Gian Carlo Di Renzo fala sobre a progesterona para além da manutenção da gravidez
30 maio. de 2026
O aborto e o parto prematuro são situações que fazem parte de uma mesma síndrome obstétrica. Hoje, na visão atual dos problemas graves da gestação — como a pré-eclâmpsia, o parto prematuro e o aborto — entende-se que não são doenças isoladas, mas síndromes caracterizadas por múltiplos fatores de risco e mecanismos complexos.
Essas condições estão relacionadas, principalmente, ao funcionamento da placenta, órgão responsável pela comunicação entre a mãe e o feto. Parte desses fatores é determinada pela genética e outra parte pelo ambiente, como estilo de vida, alimentação, tabagismo, exposição a substâncias tóxicas e outros hábitos.
Essa é a introdução da conferência “Progesterona: Além da Manutenção da Gravidez”, do Dr. Gian Carlo Di Renzo (Itália), convidado para o CBGO 2026. O renomado palestrante internacional abordou o papel da progesterona nos últimos 20 anos e fez questão de enfatizar que a progesterona, descoberta há cerca de 100 anos, é um dos hormônios mais estudadas da Medicina — tanto que sua descoberta e caracterização renderam quatro Prêmios Nobel. O próprio nome progesterona significa “pró-gestação”, ou seja, favorável à manutenção da gravidez.
Dr. Di Renzo explica que a molécula da progesterona é muito semelhante aos esteroides, que possuem ação anti-inflamatória. Durante a gestação, ela exerce dois papéis fundamentais: primeiro, promove a imunotolerância materna, ajudando o organismo da mulher a aceitar o feto; segundo, atua como potente anti-inflamatório, reduzindo o estresse oxidativo e a resposta inflamatória provocada por agentes externos. “Além disso, a progesterona tem importante efeito antiprostaglandínico, inibindo as contrações uterinas. Todos esses mecanismos ajudam a manter a gravidez até o termo”, complementa.
Quando a gestação é interrompida precocemente, seja por aborto ou parto prematuro, estamos diante do mesmo mecanismo fisiopatológico. A principal diferença entre eles é apenas a idade gestacional. Em fases mais iniciais, quando o feto ainda não é viável, chamamos de aborto; após cerca de 20 a 22 semanas, quando já existe possibilidade de sobrevivência fetal, chamamos de parto prematuro. No entanto, do ponto de vista dos fatores de risco e dos mecanismos fisiopatológicos, trata-se essencialmente da mesma condição.
“A progesterona demonstrou eficácia tanto na prevenção do aborto quanto do parto prematuro. É claro que cerca de 40% a 45% dos abortos estão relacionados a alterações cromossômicas e genéticas incompatíveis com a vida, situações em que a progesterona não consegue atuar. Porém, nos demais 50% dos casos, ela pode aumentar em cerca de 30% as chances de evolução para um nascimento saudável”, conta o ginecologista italiano.
No caso do parto prematuro, os melhores resultados são observados em mulheres com fatores de risco conhecidos, como colo uterino curto ou histórico anterior de parto prematuro. Nesses casos, a progesterona pode aumentar entre 40% e 50% as chances de a gravidez chegar ao termo. Ainda assim, ele ressalta que aborto e parto prematuro são síndromes multifatoriais. Portanto, a progesterona não consegue atuar sobre todas as causas possíveis.
“Estudos epidemiológicos mais recentes também observaram que mulheres tratadas com progesterona nas primeiras 15 a 16 semanas de gestação apresentaram menor risco de hipertensão gestacional e outras complicações relacionadas à placenta. Isso provavelmente ocorre porque a progesterona favorece uma placentação mais adequada, permitindo melhor funcionamento placentário. Um dos problemas fundamentais da hipertensão gestacional e de algumas complicações metabólicas da gravidez é, justamente, uma placentação inadequada. Estes dados são importante e relativamente novos”, explica Dr. Di Renzo.
O médico também apresentou pesquisas avaliando marcadores bioquímicos capazes de identificar mulheres com maior risco de aborto, parto prematuro e outras complicações. Em grupos selecionados, as pacientes tratadas com progesterona apresentaram resultados significativamente melhores em comparação às que não receberam tratamento. No grupo sem tratamento, aproximadamente 75% apresentaram resultados desfavoráveis, enquanto, no grupo tratado, esse percentual foi próximo de 10%. Esses dados sugerem que a progesterona poderia ter aplicações mais amplas do que as conhecidas atualmente.
“Ainda são necessários novos estudos para confirmar essas evidências, mas os resultados atuais são bastante promissores”, fnaliza Dr. Di Renzo.