Saúde da mulher: excesso de exames e intervenções também pode causar danos

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Saúde da mulher: excesso de exames e intervenções também pode causar danos

17 set. de 2026

  • Mais medicina nem sempre significa melhor medicina
  • 17/09 — Dia Mundial da Segurança do Paciente

“Segurança da paciente não significa apenas evitar erros, infecções ou complicações, mas também evitar o cuidado de baixo valor: exames, medicamentos ou procedimentos que não têm indicação clara e que podem iniciar uma verdadeira cascata de intervenções”, declara a Dra. Marta Curado Carvalho Franco Finotti, ginecologista e membro da Comissão de Ética da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).

De acordo com a especialista, todo exame deve responder a uma pergunta clínica. Quando exames são solicitados indiscriminadamente para mulheres assintomáticas e de baixo risco para doenças graves, aumenta a possibilidade de encontrar alterações sem significado clínico, os chamados achados incidentais. O resultado pode ser uma sequência de novos exames, biópsias, procedimentos, ansiedade e, em alguns casos, cirurgias que talvez nunca fossem necessárias.

“Um exemplo bastante didático é o rastreamento do câncer de ovário em mulheres assintomáticas e de risco habitual durante exames de check-up. De acordo com estudos, o uso rotineiro de CA-125 — exame de sangue utilizado para rastrear tumor em contextos diagnósticos específicos ou acompanhar doenças já conhecidas — e ultrassonografia transvaginal não demonstrou redução da mortalidade e pode produzir falsos positivos. O CA-125, por exemplo, pode estar aumentado em várias situações benignas. Quando solicitado sem necessidade, um resultado discretamente alterado pode assustar uma mulher saudável e desencadear ultrassonografias repetidas, ressonância, consultas especializadas e até procedimentos invasivos”, alerta a ginecologista.

Por isso, em mulheres assintomáticas e sem alto risco hereditário, o rastreamento do câncer de ovário com CA-125 e/ou ultrassonografia transvaginal não é recomendado. “Uma medicina segura não é aquela que faz o maior número de exames. É aquela que faz o exame certo, para a paciente certa, no momento certo e com uma finalidade bem definida”, ressalta Dra. Marta.

Outro exemplo de excesso são os chamados painéis hormonais extensos. Dosar inúmeros hormônios sem considerar idade, sintomas, fase do ciclo menstrual, uso de medicamentos e contexto clínico pode produzir números fora de uma faixa de referência sem que exista uma doença.

Na Obstetrícia, algo semelhante pode ocorrer com ultrassonografias excessivamente frequentes em gestações de baixo risco, cardiotocografias ou outros exames realizados sem indicação clínica específica. O pré-natal deve ser cuidadoso e completo, mas também individualizado de acordo com os fatores de risco maternos e fetais. “O problema não é o exame em si. É realizar um exame sem saber previamente o que faremos com o resultado”, acrescenta a médica.

Segundo ela, na Obstetrícia, a segurança da paciente é particularmente importante, pois existe uma linha tênue entre uma intervenção que salva vidas e a medicalização desnecessária de um processo fisiológico. Entre os exemplos estão indução do trabalho de parto sem indicação bem estabelecida, cesariana sem indicação clínica, episiotomia de rotina, amniotomia e aceleração do trabalho de parto sem necessidade, restrição injustificada de mobilidade ou alimentação, exames vaginais excessivamente frequentes e monitorização fetal contínua em situações de baixo risco quando não há indicação específica. “Isso não significa demonizar as intervenções. Muito pelo contrário: quando corretamente indicadas, muitas delas são fundamentais e salvam a vida da mãe e do bebê. O ponto é abandonar a lógica da intervenção de rotina e adotar a lógica da intervenção por indicação”, reforça Dra. Marta.

Há ainda uma dimensão da segurança da paciente que não aparece nos exames: a experiência da mulher. Comunicação inadequada, procedimentos realizados sem explicação ou consentimento e perda de autonomia também podem causar danos e marcar negativamente a experiência do parto.

Existe uma falsa sensação de que investigar tudo é sinônimo de prevenção. Mas prevenção baseada em evidências significa selecionar aquilo que comprovadamente beneficia determinada mulher, considerando idade, sintomas, história pessoal, antecedentes familiares e fatores de risco.

Da mesma maneira, a discussão sobre excesso de intervenções não pode ser confundida com defesa da falta de assistência. O objetivo não é fazer menos por princípio, mas fazer o necessário, no momento adequado e com indicação correta. Na Ginecologia e na Obstetrícia, isso é especialmente importante porque os especialistas acompanham mulheres saudáveis durante grande parte de suas vidas — na prevenção, no planejamento reprodutivo, na gestação, no parto, no climatério e na menopausa.

“Segurança da paciente também é protegê-la do excesso. Nem todo exame precisa ser feito, e nem toda intervenção possível é necessária. A melhor medicina é aquela que oferece o máximo benefício com o mínimo de dano”, finaliza a ginecologista da FEBRASGO.

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