Setembro Amarelo reforça a importância do cuidado com a saúde mental após a perda gestacional
03 set. de 2026
Especialista da FEBRASGO alerta que aborto espontâneo e morte fetal podem desencadear luto profundo e aumentar o risco de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático quando não há acolhimento adequado
Quando se fala em Setembro Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre a saúde mental, pouco se discute um sofrimento silencioso enfrentado por milhares de mulheres: o impacto emocional provocado pela perda gestacional. Seja após um aborto espontâneo ou uma morte fetal, a interrupção inesperada da gravidez pode desencadear um processo de luto intenso, capaz de comprometer a saúde física, emocional e psicológica da mãe.
Segundo o obstetra Dr. Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a perda gestacional é um evento potencialmente traumático e deve ser reconhecida como uma experiência que exige acolhimento e assistência especializada. “Independentemente da idade gestacional, a perda pode provocar tristeza profunda, sensação de vazio, culpa, ansiedade, dificuldade para dormir, irritabilidade e perda do interesse pelas atividades do dia a dia. Sofrer intensamente nesse momento é uma reação humana esperada e não significa, por si só, que a mulher tenha desenvolvido uma doença psiquiátrica”, explica.
Nos casos de morte fetal em gestações mais avançadas, o impacto costuma ser ainda mais complexo. Nessa fase, a família já estabeleceu um vínculo afetivo com o bebê, realizou exames, preparou o enxoval e compartilhou a gestação com pessoas próximas. Além da perda do bebê, interrompe-se também um projeto de vida que já estava sendo construído.
Embora a maioria das mulheres consiga elaborar o luto de forma saudável ao longo do tempo, especialmente quando recebe apoio adequado, algumas podem desenvolver transtornos como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou luto prolongado. O risco é maior entre mulheres com histórico de transtornos psiquiátricos, perdas gestacionais recorrentes, infertilidade, ausência de rede de apoio ou experiências traumáticas durante o atendimento.
De acordo com o especialista, toda mulher que enfrenta uma perda gestacional pode se beneficiar de acolhimento psicológico. Entretanto, alguns sinais indicam a necessidade de avaliação por profissionais de saúde mental.
Entre eles estão tristeza intensa que persiste por várias semanas sem apresentar melhora, incapacidade de retomar a rotina, isolamento social, crises frequentes de ansiedade ou pânico, insônia persistente, sentimento excessivo de culpa, sensação permanente de fracasso, lembranças invasivas do momento da perda, pesadelos e pensamentos recorrentes sobre a morte ou desejo de não viver.
“A identificação precoce desses sinais permite iniciar intervenções eficazes antes que o sofrimento se torne mais grave. O cuidado psicológico não deve ser visto apenas como tratamento, mas como parte da recuperação integral da mulher”, ressalta o médico.
O especialista também destaca a importância da atuação da equipe de saúde durante todo o processo. Uma comunicação clara, respeitosa e compassiva, aliada ao cuidado com a privacidade da paciente e ao esclarecimento de dúvidas, contribui significativamente para reduzir o sofrimento emocional.
Embora apresentem características distintas, tanto o aborto espontâneo quanto a morte fetal representam perdas que merecem igual respeito. No aborto espontâneo, principalmente nas primeiras semanas de gravidez, muitas mulheres enfrentam o chamado “luto não reconhecido”. Como a gestação ainda não era visível ou sequer havia sido anunciada, a dor muitas vezes não é reconhecida, dificultando a compreensão por parte das pessoas ao redor.
Já na morte fetal, geralmente após a 20ª semana de gestação, além da perda do bebê, a mulher enfrenta desafios físicos e emocionais ainda mais delicados, como passar pelo parto, vivenciar o puerpério sem o recém-nascido, lidar com a descida do leite materno e retornar para casa sem o filho esperado.
“O sofrimento não deve ser medido apenas pela idade gestacional. Cada mulher vive essa experiência de forma única, influenciada por sua história, suas expectativas, seu contexto familiar e pela maneira como a perda aconteceu”, reforça o médico.
Recuperação exige cuidado multiprofissional
A assistência após uma perda gestacional vai além da recuperação física. O acompanhamento multiprofissional é considerado fundamental para favorecer a reconstrução emocional e oferecer segurança em futuras gestações.
Enquanto o ginecologista acompanha a recuperação clínica e orienta sobre o planejamento reprodutivo, o psicólogo auxilia na elaboração do luto e no desenvolvimento de estratégias para enfrentar a dor. Quando necessário, o psiquiatra pode diagnosticar e tratar transtornos como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Dependendo da situação, outros especialistas, como enfermeiros, assistentes sociais, geneticistas e profissionais da medicina fetal e da reprodução humana, também podem integrar esse cuidado.
“O acompanhamento multiprofissional fortalece a recuperação da mulher e do casal, reduz o risco de complicações emocionais e permite que futuras gestações sejam vividas com mais segurança e confiança”, conclui Dr. Romulo.