Terapia hormonal no centro das aulas do Congresso SOGESP 2026
21 ago. de 2026
O primeiro dia do Congresso SOGESP 2026 foi marcado pelo intenso fluxo de congressistas e muita interação dos palestrantes com a plateia. “Congressos como este têm um significado especial. Em um momento em que a medicina avança tão rapidamente, reunir colegas para compartilhar conhecimento, discutir evidências e refletir sobre a nossa prática é essencial. Mas também é uma oportunidade de encontro, de troca de experiências e de fortalecimento da nossa especialidade”, discursou na cerimônia oficial de abertura a Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO.
E a terapia de reposição hormonal diante de diversos cenários da saúde da mulher foi um dos pontos altos do dia 20/08 no Transamerica Expo Center.
O Dr. Luciano de Melo Pompei, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada (CEN) em Climatério, trouxe dados sobre a Terapia Hormonal (TH) e o Risco de Câncer de Mama (CA). Ele ressaltou que o único estudo randomizado grande que avaliou o impacto da TH no risco de CA de mama foi o WHI. “É importante dizer que a obesidade traz maior risco para câncer de mama do que a terapia com estrogênio isolado”, afirmou o ginecologista.
Ainda durante a sessão – coordenada pelo Dr. Nilson Roberto de Melo, membro da CNE em Osteoporose – o Dr. Luciano elencou alguns estudos com diferentes progestagênios e trouxe uma pergunta cuja resposta ainda é repleta de desafios: afinal, é possível fazer terapia de reposição hormonal pós CA de mama sem receptor hormonal? “Esse é um tema ainda muito em discussão”, diz Dr. Luciano. Embora possa parecer – e aqui ele fez questão de frisar – possa parecer – que a TH seja de menor risco para essa paciente, não há segurança comprovada, portanto, permanece a contraindicação total de TH para mulheres com histórico de câncer de mama.
Durante a mesma sessão, o Dr. Marcelo Steiner, diretor financeiro da FEBRASGO, deu a aula intitulada “Terapia Hormonal e o Risco Cardiovascular”. Alguns dados chamam atenção: 30% das causas de morte de mulheres menopausadas são originadas por doença cardiovascular. Mulheres menopausadas têm 14 vezes mais risco de serem acometidas por doença cardiovascular, por ano, do que pelo câncer de mama.
“Embora a primeira indicação da TH não seja para proteção cardiovascular, ela deve ser pensada nesse sentido”, diz Dr. Marcelo. Entre outros dados, o ginecologista abordou que a TH pode reduzir em cerca de 30% (alguns estudos chegam a 48%) a mortalidade das mulheres por doença cardiovascular durante a janela de oportunidade – período que compreende as mulheres com menos 60 anos de idade ou nos primeiros 10 anos após a menopausa. Durante a aula também foi lembrado que a terapia de reposição hormonal traz muitos benefícios metabólicos e representa um fator anti-inflamatório na aterosclerose inicial.
Consenso da SOBRAC (Associação Brasileira de Climatério) indica que a TH em mulheres abaixo dos 60 anos e com menos de 10 anos de pós-menopausa é o tratamento mais efetivo para sintomas vasomotores e geniturinários, pode prevenir e tratar a osteoporose e fraturas por fragilidade, pode melhorar o sono em mulheres com fogachos noturnos e ainda traz benefícios em dores e rigidez articulares, alterações cutâneas, dislipidemia, sintomas emocionais (depressão) e sexualidade.
Por sua vez, a Dra. Eliana Aguiar Petri Nahas, da CNE em Climatério, trouxe dados sobre a TH pós câncer ginecológico, especialmente pós CAs de endométrio, ovário e colo do útero, destacando o estudo “Terapia hormonal da menopausa e cuidado integral pós-menopausa em sobreviventes de câncer ginecológico: posicionamento do Comitê da FIGO sobre Mulheres em Idade Menopausal”, que traz o Dr. Agnaldo Lopes da Silva-Filho como 1º autor.
Esse posicionamento da FIGO discute as considerações clínicas para o uso da terapia hormonal da menopausa em mulheres com histórico de câncer ginecológico, revisando evidências sobre segurança após cânceres de vulva, vagina, colo do útero, útero e ovário. O documento leva em conta fatores como histologia tumoral, estágio da doença e sensibilidade hormonal.
As evidências atuais sugerem que a terapia hormonal sistêmica pode ser considerada para sobreviventes cuidadosamente selecionadas de cânceres ginecológicos não hormônio-dependentes, incluindo a maioria dos cânceres de vulva, vagina, colo do útero e ovário epitelial. Já pacientes com tumores sensíveis a hormônios, em geral, devem evitar a terapia hormonal sistêmica. Nesses casos, opções hormonais locais vaginais e alternativas não hormonais seguem sendo recursos importantes.
A TH pode trazer uma série de benefícios a estas pacientes, porém, “é ainda muito pouco prescrita”, segundo a Dra. Eliana. Para ela, a TH após o tratamento de câncer ginecológico deve ser discutida com a paciente, considerando seus sintomas e suas preferências e, sempre que possível, compartilhada entre o ginecologista e o oncologista.
Por fim, o Dr. Luiz Francisco Cintra Baccaro, também membro da CNE de Climatério, falou sobre TH pós endometriose, trazendo a análise de uma série de estudos e as Sugestões de Conduta da SOGESP, entre elas:
- Mulheres com histórico de endometriose que entraram na menopausa precocemente devem receber terapia hormonal, pelo menos, até a idade esperada para a menopausa natural.
- A terapia hormonal pode ser iniciada após o tratamento cirúrgico da endometriose, sem necessidade de adiamento.
- Mulheres com antecedente de endometriose, que chegaram à menopausa na idade habitual e apresentam sintomas climatéricos moderados ou intensos, também podem ser candidatas à terapia hormonal.
- Mesmo em pacientes histerectomizadas, os esquemas preferenciais são a tibolona ou a terapia combinada contínua, com estrogênio e progestagênio em baixa dose.
- Em mulheres com grande volume de doença residual após a cirurgia, devem ser avaliadas alternativas terapêuticas com eficácia comprovada para o controle dos sintomas vasomotores.