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Anticoncepção de emergência em adolescentes

Sexta, 16 Fevereiro 2018 11:29

        A anticoncepção hormonal de emergência (AHE) é definida pela Organização Mundial da Saúde como o método contraceptivo que pode prevenir a gravidez após uma relação sexual desprotegida ou após violência sexual.1

        A adolescente necessita mais atenção no que diz respeito à educação sexual. Habitualmente, a iniciação sexual ocorre na adolescência quando a contracepção não é utilizada de forma regular, apresentando elevada taxa de descontinuidade, falhas e gestação não planejada. O uso da AHE entre adolescentes varia com a forma de acesso, disponibilidade e políticas de saúde do país ou região.2

        A gravidez na adolescência permanece como objeto de preocupação pelas modificações na vida da jovem mãe, especialmente nos aspectos psicossociais, acarretando desorganização da harmonia do desenvolvimento pessoal, educacional, econômico e familiar.3-5     

        Em todo o mundo, aproximadamente 16 milhões de meninas entre 15 e 19 anos e 1 milhão com menos de 15 anos têm filhos a cada ano, com maior frequência nos países em desenvolvimento. Na África, mais da metade das mulheres e cerca de um terço na América Latina e Caribe dão à luz antes de 20 anos.5

        No Brasil, ocorreu queda do percentual de nascidos-vivos (NV) de mães adolescentes (10 a 19 anos) de 23,5% em 2000 para 19,2% em 2011. Essa redução foi notada em todas as regiões brasileiras na parcela de mães entre 15 e 19 anos. No entanto, o número de NV aumentou 5,0% entre as mães de 10 a 14 anos com incremento nas regiões Norte e Nordeste e redução nas demais regiões do país.6

        Para tentar reduzir a taxa de gravidez inoportuna é necessário que as adolescentes recebam educação sexual e reprodutiva, ressaltando a importância de uma vida sexual saudável.7 A anticoncepção de emergência representa uma ferramenta essencial nesta redução.

        Em 1993, foi publicado o primeiro estudo randomizado controlado, com uso de duas doses de 0,75 mg de levonorgestrel tomadas com um intervalo de 12 horas e até 48 horas após a relação sexual desprotegida.8

        No final dos anos 70, o dispositivo intrauterino com cobre aparece como opção de contracepção de emergência, com a vantagem de ser método não hormonal, com uso até o quinto dia após a relação sexual desprotegida. É também o método mais eficaz, com taxa de gravidez menor do que 0,1%.9

        É amplamente demonstrado que o mecanismo de ação da AHE é baseado no bloqueio da fecundação, afetando a migração e redução da capacidade fecundante dos espermatozóides e impedindo a ovulação.10 Equívocos e mitos representam obstáculos para o uso correto do AHE.

        Existem várias possibilidades de AHE como o método de Yuzpe, pílulas contendo apenas levonorgestrel, acetato de ulipristal e mifepristona. No Brasil, os dois últimos não estão disponíveis. O método de Yuzpe usando 200 mcg de etinilestradiol e 1 mg de levonorgestrel foi o método mais popular. Sua eficácia varia de 56-86%, sendo mais eficaz nas primeiras 72 horas, embora ainda possa ser usado até 120 horas após a relação sexual. Seu principal mecanismo de ação é impedir a ovulação, embora, em teoria, possa afetar também a implantação. Por este motivo não é um método considerado abortivo, pois não age sobre o óvulo fecundado nidado. Os principais efeitos colaterais são as náuseas e vómitos, o que pode ser evitado com o uso prévio de antieméticos.10O uso de progestagênio isolado como contracepção de emergência, é hoje representado por uma única dose de levonorgestrel 1,5 mg ou duas doses de 0,75 mg com intervalo de 12 horas, igualmente utilizado nas primeiras 72 horas após a relação sexual desprotegida. No entanto, pode ser eficaz por pelo menos quatro dias e, potencialmente, até cinco dias.
        Eficácia de 45 a 79% é dependente do momento em que é utilizada. Quanto mais cedo, mais eficaz.11 Este AHE é um contraceptivo de emergência e não deve ser usado como contraceptivo regular, pois sua eficácia é menor. Além disso, não protege para risco de gravidez em relações sexuais sem proteção anticoncepcional que tenham ocorrido antes ou depois do período para o qual foi indicado.No Chile, foi aplicado um questionário para 143 adolescentes com idade média de 16 anos. Verificou-se que 37,6% responderam que a AHE impede a ovulação e 36,9% a consideravam abortiva. A principal razão para usar AHE seria em caso de estupro (91,3%). Concluíram que a maioria dos adolescentes não sabe o mecanismo de ação da AHE.12O denominador comum em todos os estudos revisados ​​é o baixo conhecimento da AHE entre os adolescentes e jovens adultos que foram entrevistados, incluindo falsas crenças, como acontece com outros contraceptivos mais utilizados. O mecanismo de ação do método e a posologia são importantes falhas observadas na maioria dos inquiridos.Por estes motivos, a Federación Latinoamericana de Sociedades de Obstetricia y Ginecología (FLASOG), iniciou em janeiro de 2016 um grande estudo internacional para pesquisar o conhecimento das adolescentes de países da América Latina e Caribe sobre a contracepção de emergência, usando um questionário contendo questões sobre sexualidade e uso de AHE. Regiões e países participantes:

  1. Região Centroamericana, México e Caribe: Cuba, Costa Rica, México, Panamá.

  2. Região Andina: Venezuela, Equador, Colombia, Perú.

  3. Região do Cone Sul: Argentina, Chile, Brasil, Paraguai e Uruguai.

No Brasil, a pesquisa ficou a cargo de duas representantes da Associação Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia da Infância e Adolescência (SOGIA-BR), Dra. Denise Monteiro do Rio de Janeiro e Dra. Liliane Herter do Rio Grande do Sul.

Os resultados preliminares desta pesquisa com 148 adolescentes entrevistadas, metade delas com escolaridade de nível médio, mostraram que 8% desconheciam a AHE e que 56,7% usaram a AHE pelo menos uma vez. A informação sobre a AHE foi a partir dos professores e pais entre as mais jovens, enquanto a chance de obter informação com amigos triplica entre as de 15-19 anos [p=0,04; OR=3,18 (1,08-10,53)].

 O conhecimento sobre o mecanismo de ação foi verificado em somente 41,2% das de 10-14 anos e em 82,4% das com 15-19 anos. Quanto aos efeitos colaterais, 58,8% das adolescentes de 10-14 anos e 17,6% das ≥15 anos não souberam responder, mas 60,5% entre 15-19 anos citaram náuseas e vômitos. Importante parcela (40%) acredita que a AHE causa aborto, câncer, infertilidade e malformações fetais. Mais de 80% reconhece que pode causar irregularidade menstrual.

 Concluímos que o conhecimento em relação a AHE não é satisfatório, independentemente da idade e escolaridade dos grupos avaliados e que a melhora do conhecimento pode proporcionar maior adesão.

Os resultados obtidos no braço brasileiro deste estudo poderão ser utilizados como importante estratégia de delineamento de políticas públicas de saúde, colaborando na prevenção da gravidez não planejada na adolescência.

 

 Referências:

  1. World Health Organization [Internet]. Emergency contraception: fact sheet. Disponível em: http: www.who.int/mediacentre/factsheets/fs244/en/index.html. Acesso em 08Jan2017.

  2. Almeida MCC, Aquino EML. The role of education level in the intergenerational pattern of adolescente pregnancy in Brazil. Int Perspect Sex Reprod Health. 2009; 35(3): 139-46. doi: 10.1363/ifpp.35.139.09.

  3. Martinez EZ, Rosa DL, Caccia-Baya MC, Achcar JA, Dal-Fabbro AL. Teenage pregnancy rates and socioeconomic characteristics of municipalities in São Paulo State, Southeast Brazil: a spatial analysis. Cad Saude Publica. 2011; 27(5): 855-67. doi: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2011000500004.

  4. World Health Organization [Internet]. Adolescent pregnancy: fact sheet. Disponível em: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs364/en/index.htlm. Acesso em 08Jan2017.

  5. Vaz RF, Monteiro DL, Rodrigues NC. Trends of teenage pregnancy in Brazil, 2000-2011. Rev Assoc Med Bras. 2016; 62(4): 330-5. doi: 10.1590/1806-9282.62.04.330.

  6. SantosNL, Costa MC, Amaral MT, Vieira GO, Bacelar EB, de Almeida AH.Teenage pregnancy: analysis of risk factors for low birth weight, prematurity and cesarean delivery. Cien Saude Colet. 2014;19(3):719-26. doi: 1590/1413-81232014193.18352013.

  7. Li RHW, Lo SST. Evolutionary voyage of modern birth control methods.Hong Kong J Gynecol Obstet Midwifery 2005; 5(1): 40-5.

  8. Cleland K, Zhu H, Goldstuck N, et al. Theefficacy of intrauterine devices for emergency contraception: a systematic review of 35 years of experience. Human Reprod. 2012; 27:1994–2000.

  9. Croxatto, H.B., Fuentealba, B., Brache, V., Salvatierra, A.M., Alvarez, F., Massai, R., Cochon, L. y Faundes, A. “Effects of the Yuzpe regimen, given during the follicular phase, upon ovarian function”. 2002; 65:121-8.

  10. Emergency Contraceptive Pills Medical and Service Delivery Guidelines. International Federation of Gynecology & Obstetrics (FIGO).Third Edition, 2012.

  11. Leal I, Montero A, González E, Sandoval J, Peralta E. Adolescentes chilenos consultantes en un centro de salud sexual y reproductiva (2008-2009): conocimientos sobre anticoncepción de emergencia y sexualidad (http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo? codigo=4899546) Localización: Matronas profesión, ISSN 1578-0740, Nº. 3, 2014, págs. 110-111.


Autores:

   Denise L. M. Monteiro

   Liliane D. Herter  

   Maria Fernanda V. R. Pereira

   Renata Ávila


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