Outubro Rosa: o que muda na saúde sexual da mulher após o câncer de mama

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Outubro Rosa: o que muda na saúde sexual da mulher após o câncer de mama

01 out. de 2026

Especialistas da FEBRASGO destacam impactos dos tratamentos contra o câncer na sexualidade e na qualidade de vida das mulheres

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Quando se fala em câncer de mama, o Outubro Rosa costuma destacar a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento do câncer de mama. Mas existe uma parte dessa história que começa justamente quando essa fase termina: como fica a vida da mulher depois do câncer? Para muitas pacientes, o tratamento pode trazer mudanças que ultrapassam o controle da doença e chegam a áreas íntimas da vida, como a sexualidade, a autoestima e a relação com o próprio corpo e com o parceiro.

“A sexualidade pode ser afetada por alterações hormonais que provocam ondas de calor, suor noturno, alterações do sono, cansaço, mudanças de humor, secura vaginal, dor durante a relação, redução da lubrificação e dificuldade de excitação, além de mudanças na forma como a mulher percebe o próprio corpo”, explica Dra. Sandra Cristina Poerner Scalco, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Sexologia da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.

O tema ganha relevância diante do número de mulheres que passam pelo diagnóstico no país. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil tem cerca de 74 mil novos casos de câncer de mama por ano, tornando a doença a mais frequente entre as mulheres brasileiras. No Outubro Rosa, ampliar esse olhar significa também discutir como ajudar as pacientes a retomarem sua qualidade de vida depois do tratamento.

Segundo a especialista, um estudo brasileiro publicado em 2026 na revista Scientific Reports ajuda a dimensionar esse panorama. A pesquisa acompanhou 774 mulheres com câncer de mama sem metástase e que faziam tratamento com medicamentos para bloquear a ação dos hormônios. Das participantes, 346 haviam tido relação sexual nas quatro semanas anteriores à avaliação. Entre elas, 79,8% apresentaram disfunção sexual, segundo um questionário que avaliou desejo, excitação, lubrificação, orgasmo, satisfação e dor.

O trabalho também encontrou maior frequência de disfunção entre as mulheres que usavam inibidores da aromatase (que diminuem a produção de estrogênio pelo organismo), em comparação às que utilizavam o tamoxifeno, uma medicação que impede que o estrogênio exerça sua ação sobre as células do câncer.

Os tratamentos podem interferir na sexualidade por diferentes caminhos. A quimioterapia, por exemplo, pode comprometer a função dos ovários e provocar uma redução temporária ou permanente da produção hormonal. Já medicamentos utilizados no tratamento de tumores sensíveis aos hormônios podem bloquear a ação do estrogênio ou reduzir sua produção. O resultado pode ser uma menopausa induzida, que acontece de forma mais abrupta e pode provocar sintomas intensos.

Por outro lado, cirurgias, reconstruções mamárias e radioterapia podem modificar a aparência e a sensibilidade das mamas, o que, em alguns casos, pode interferir diretamente na resposta sexual. “Uma paciente pode perder a sensibilidade do mamilo depois de uma reconstrução e só descobrir essa mudança após o tratamento,” conta Dra. Sandra, que também é sexologista.

“Uma dificuldade pode acabar alimentando a outra: o medo de sentir dor leva à interrupção ou à redução das relações sexuais, o que pode diminuir a excitação e a lubrificação e tornar a experiência sexual ainda mais desconfortável”, explica.

Para Dra. Andrea Pires Souto Damin, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Mastologia da FEBRASGO, “esses sintomas não necessariamente desaparecem quando termina o tratamento. Algumas mulheres continuam convivendo com eles por anos e precisam de acompanhamento para recuperar a qualidade de vida”, relata.

Mas como falar sobre sexualidade em meio a um tratamento contra o câncer? Para muitas mulheres, esse ainda é um tema difícil de ser abordado durante a consulta. Vergonha, medo e a própria percepção de que o assunto seria secundário diante do câncer de mama podem fazer com que a paciente permaneça em silêncio.

Para a Dra. Andrea, criar espaço para que a paciente fale abertamente sobre sua vida sexual pode ajudar a identificar dificuldades que nem sempre são relatadas espontaneamente durante o acompanhamento. Entre as dúvidas mais comuns estão questões sobre a retomada das relações, a falta de desejo, a dor durante o sexo, a aparência e sensibilidade da mama reconstruída e o uso de produtos ou tratamentos para aliviar os sintomas. A especialista defende que esse diálogo também seja iniciado pelos profissionais de saúde. “É preciso que os profissionais perguntem sobre sexualidade, como perguntam sobre dor, sono ou alimentação”, complementa.

Lidar com os sintomas exige diferentes estratégias, que podem incluir lubrificantes e hidratantes vaginais, fisioterapia do assoalho pélvico, acompanhamento psicológico ou terapia sexual e, em situações específicas, tratamentos individualizados discutidos com a equipe responsável pelo acompanhamento oncológico. As médicas ressaltam ainda que não é recomendado que os pacientes interrompam o uso dos medicamentos do tratamento por conta própria.

Falar sobre os efeitos do tratamento na sexualidade significa mostrar que as mudanças não precisam representar o fim da intimidade. Para a Dra. Sandra, as pacientes precisam descobrir novas formas de se relacionar com o próprio corpo, com o prazer e com o parceiro. “É importante dizer para essas mulheres que a vida sexual não acaba. Ela pode mudar depois do tratamento, mas é possível construir uma nova forma de viver a sexualidade”, conclui.

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