IMSRIO2026 – Presidente da FEBRASGO debate a saúde cardiovascular da mulher na menopausa e a THM
30 set. de 2026
#imsrio2026
O 20º Congresso Internacional de Menopausa começa hoje e se estende até o dia 3 de outubro, no Rio de Janeiro. Serão quatro dias em que os mais renomados especialistas de todo o mundo estarão reunidos para apresentar o que há de mais atual sobre a especialidade.
A Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO, conduzirá duas aulas: “Saúde cardiovascular da mulher: a menopausa como janela de oportunidade para prevenção” e “Indicações atuais e personalização da terapia hormonal na menopausa”.
Abaixo, segue uma breve sinopse das aulas.
Saúde cardiovascular – A saúde cardiovascular não deve ser entendida apenas como ausência de doença, mas como um estado construído ao longo de toda a vida por meio de hábitos saudáveis e do adequado controle dos fatores de risco. Nesse contexto, alimentação, atividade física, ausência de exposição à nicotina, sono adequado, peso saudável e controle da glicemia, dos lipídios e da pressão arterial — os Life’s Essential 8 — constituem os pilares da prevenção cardiovascular.
Nas mulheres, essa abordagem deve considerar as particularidades de sua trajetória reprodutiva. Complicações da gestação, como hipertensão e diabetes gestacional, síndrome dos ovários policísticos, insuficiência ovariana prematura e menopausa precoce podem sinalizar maior risco cardiovascular futuro. A transição menopausal representa um período particularmente importante, associado a mudanças desfavoráveis na composição corporal e no metabolismo, incluindo aumento da gordura visceral, alterações lipídicas, resistência à insulina, disfunção endotelial e progressão da aterosclerose subclínica. Assim, a menopausa não deve ser vista como o início da doença cardiovascular, mas como um momento privilegiado para reconhecer riscos e intensificar a prevenção.
A consulta ginecológica no climatério torna-se, portanto, uma oportunidade estratégica para avaliar pressão arterial, circunferência abdominal e composição corporal, perfil lipídico, glicemia, tabagismo, alimentação e atividade física, além de incorporar fatores de risco específicos da mulher à avaliação convencional. A prevenção deve começar antes do aparecimento da doença clínica e acompanhar a mulher ao longo da vida.
A terapia hormonal da menopausa, quando indicada para tratamento dos sintomas, apresenta perfil benefício-risco mais favorável quando iniciada em mulheres com menos de 60 anos ou até 10 anos após o início da menopausa, desde que consideradas as características individuais e o risco cardiovascular. Não deve, entretanto, ser prescrita com o objetivo exclusivo de prevenir doença cardiovascular.
A principal mensagem é clara: grande parte da doença cardiovascular nas mulheres pode ser prevenida, e o ginecologista ocupa uma posição privilegiada para transformar a consulta da meia-idade em uma oportunidade de promoção da saúde cardiovascular e do envelhecimento saudável.
Terapia hormonal (TH) – A TH permanece como o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores da menopausa e tem papel importante no manejo da síndrome geniturinária e na prevenção da perda óssea. Após décadas marcadas pela interpretação inicial dos resultados do WHI e pelo consequente receio em relação à TH, as evidências atuais permitem uma avaliação mais adequada dos benefícios e riscos, com uma mudança fundamental de paradigma: a prescrição deve ser individualizada.
Para mulheres saudáveis, sintomáticas, com menos de 60 anos ou nos primeiros 10 anos após a menopausa, a relação benefício-risco da TH é, em geral, favorável na ausência de contraindicações. Entretanto, idade e tempo desde a menopausa são apenas parte da decisão. Devem ser considerados sintomas, comorbidades, fatores de risco cardiovascular e tromboembólico, presença ou ausência de útero, risco mamário, preferências da paciente e objetivos do tratamento.
Não existe, portanto, “uma” terapia hormonal. A escolha deve contemplar o tipo de estrogênio, a via de administração, a dose e, quando necessário, o progestogênio. A via transdérmica pode ser particularmente apropriada na presença de obesidade, hipertensão, tabagismo ou outros fatores de risco cardiovascular, enquanto o estrogênio vaginal em baixa dose é a opção para muitas mulheres com síndrome geniturinária isolada. Em mulheres com útero, o estrogênio sistêmico requer proteção endometrial adequada com progestogênio.
Situações como perimenopausa, insuficiência ovariana prematura, menopausa precoce e histórico de câncer de mama exigem estratégias específicas. Também não há atualmente um limite arbitrário para a duração da TH: sua continuidade deve ser baseada na persistência das indicações, no perfil individual de risco e em reavaliações periódicas e decisão compartilhada.
A principal mensagem para a prática clínica é que personalizar a terapia — para a mulher certa, no momento adequado, com a formulação, via e dose apropriadas — é o caminho para maximizar benefícios e minimizar riscos.