Antes do primeiro choro: nascimento seguro começa muito antes da sala de parto

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Antes do primeiro choro: nascimento seguro começa muito antes da sala de parto

25 set. de 2026

FEBRASGO destaca importância da perinatologia para prevenir a asfixia e proteger a vida e o desenvolvimento do bebê

Pela primeira vez, o Brasil celebra oficialmente, em 25 de setembro, o Dia Nacional de Prevenção da Asfixia Perinatal. A data chama atenção para um problema que pode ter consequências graves para o recém-nascido, mas que pode ser evitado em muitos casos com a identificação de riscos, o preparo das equipes e o atendimento rápido no momento do nascimento.

A prevenção da asfixia perinatal envolve toda a trajetória da gestação – daí a importância de um bom pré-natal – e começa antes mesmo da sala de parto. Passa pelo acompanhamento pré-natal, pela identificação de fatores de risco, pela avaliação do bebê durante o trabalho de parto e pela preparação das equipes que estarão presentes no nascimento. É nesse contexto que a Perinatologia tem um papel importante: aproximar obstetras, neonatologistas e pediatras para que as decisões sejam tomadas de forma integrada, e a assistência esteja preparada para situações em que cada segundo conta.

“A privação de oxigênio no final da gestação, no trabalho de parto ou nos primeiros minutos de vida pode ser devastadora. A encefalopatia hipóxico-isquêmica e suas consequências mais graves, como a paralisia cerebral e a morte, podem ter impactos permanentes na vida desses bebês. E, na grande maioria das vezes, são preveníveis”, afirma o Dr. Sergio Hofmeister de Almeida Martins Costa, membro da CNE de Valorização Profissional da FEBRASGO.

O alerta foi feito durante o webinar “A importância da Perinatologia para a Prevenção da Asfixia Perinatal”, realizado no âmbito do Setembro Verde Esperança, campanha nacional de conscientização sobre o tema. O encontro reuniu especialistas das áreas de obstetrícia e neonatologia para discutir medidas de prevenção, atendimento ao recém-nascido e reanimação neonatal. A iniciativa contou com a parceria do Instituto Salvando Futuros, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Programa Brasileiro de Reanimação Neonatal e da FEBRASGO.

A asfixia perinatal ocorre quando o bebê não recebe oxigênio suficiente próximo ao nascimento. Em situações mais graves, essa falta de oxigênio pode provocar a encefalopatia hipóxico-isquêmica, uma lesão cerebral causada pela redução do oxigênio e do fluxo de sangue para o cérebro. O quadro pode levar a danos neurológicos permanentes, paralisia cerebral e morte.

A Perinatologia parte justamente dessa visão integrada. Obstetras e neonatologistas precisam compartilhar informações antes do nascimento e conhecer os possíveis riscos de cada caso. A preparação inclui discutir a história clínica, definir condutas, conferir os equipamentos e estabelecer o papel de cada profissional.

O Dr. Sérgio explica que “muitos casos de encefalopatia hipóxico-isquêmica estão relacionados a eventos agudos no trabalho de parto. Ao mesmo tempo, algumas condições presentes durante a gestação podem aumentar a vulnerabilidade do bebê. Entre elas estão a pré-eclâmpsia, restrição do crescimento fetal, diabetes, infecções e alterações da placenta”.

Na maioria das situações, um bebê saudável consegue tolerar o trabalho de parto, mas essa capacidade pode ser menor quando existem fatores que aumentam o risco de falta de oxigênio. Por isso, reconhecer esses casos e acompanhar o bebê de forma adequada são etapas importantes da assistência. A cardiotocografia é um dos recursos utilizados para acompanhar os batimentos cardíacos fetais e as contrações uterinas durante o trabalho de parto. Em gestantes com maior risco, o monitoramento contínuo e a análise correta do exame podem ajudar a identificar alterações que indiquem dificuldade do bebê em tolerar o parto.

Também é preciso atenção à hiperestimulação uterina, situação em que as contrações se tornam muito frequentes e intensas. O problema pode estar relacionado ao uso de medicamentos para induzir ou estimular o trabalho de parto, como a ocitocina (que inicia as contrações) ou o misoprostol (para indução do parto). Quando há sinais de que o bebê não está tolerando o trabalho de parto, a equipe precisa avaliar rapidamente a melhor conduta. Se for necessário antecipar o nascimento, o recém-nascido deve contar, no momento do parto, com profissionais preparados para avaliar sua condição e iniciar a reanimação.

“É preciso reconhecer rapidamente os eventos que podem levar à asfixia e ter um obstetra treinado para interpretar a cardiotocografia. Quando há sinais de sofrimento fetal, é preciso realizar o parto pela via mais rápida e segura”, ressalta o especialista.

Minuto de Ouro: quando cada segundo importa

O nascimento marca o início de uma nova etapa, mas nem todo bebê faz essa transição da mesma maneira. Segundo dados apresentados no webinar, dois em cada dez recém-nascidos não choram ou não respiram ao nascer, e cerca de um em cada dez precisa de ventilação assistida. Quando isso acontece, a resposta precisa ser rápida. A ventilação com pressão positiva, realizada com máscara e equipamento adequado, é a principal medida de reanimação para o bebê que não consegue respirar de forma eficaz.

É nesse contexto que surge o conceito de Minuto de Ouro: os primeiros 60 segundos após o nascimento são decisivos para reconhecer a necessidade de intervenção e iniciar a ventilação quando indicada. Dados apresentados pelos especialistas mostraram que o risco de morte ou de complicações aumenta em 16% a cada 30 segundos de atraso para iniciar a ventilação com pressão positiva, independentemente do peso do bebê, da idade gestacional ou de complicações da gestação ou do parto.

Os primeiros minutos de vida também exigem atenção à forma como o recém-nascido é avaliado. Em meio à necessidade de agir rapidamente, um dos instrumentos mais conhecidos é o Apgar. A avaliação ajuda a descrever as condições do bebê logo após o nascimento, mas não deve ser confundida com um diagnóstico de asfixia nem usada, sozinha, para decidir se é preciso iniciar a reanimação. Isso ocorre porque o bebê pode ter recebido uma intervenção antes da avaliação.

Um recém-nascido que precisava de ventilação, por exemplo, pode apresentar melhora após o atendimento e receber uma nota diferente daquela que teria sem a intervenção. Na sala de parto, a prioridade é avaliar a condição clínica do bebê e, principalmente, verificar se ele está respirando adequadamente. Quando há necessidade de reanimação, a equipe deve agir de acordo com os sinais apresentados naquele momento.

A importância de uma equipe preparada também aparece nos indicadores de mortalidade neonatal. Segundo os médicos do webinar, no Brasil, as mortes na primeira semana de vida associadas à asfixia perinatal caíram de quase 7 mil, em 2000, para cerca de 3 mil, em 2024. Apesar do avanço, entre 2000 e 2020 foram registrados cerca de 35 mil óbitos na primeira semana de vida entre bebês com 37 semanas ou mais de gestação e sem anomalias congênitas, com causas associadas à asfixia. As taxas também são mais altas nas regiões Norte e Nordeste.

A capacitação dos profissionais é uma das medidas que podem contribuir para melhorar esse cenário. O Programa Brasileiro de Reanimação Neonatal já capacitou mais de 200 mil profissionais. Os números revelados mostraram ainda que municípios paulistas com pelo menos sete profissionais treinados registraram, por exemplo, 12% menos mortalidade neonatal associada à asfixia.

“Esse é talvez um dos diagnósticos mais difíceis da obstetrícia, porque os exames podem gerar muitos falsos positivos. Por isso, é fundamental que o obstetra saiba reconhecer os casos em que há, de fato, sinais de falta de oxigênio para o bebê e possa agir precocemente”, conclui o Dr. Sérgio.

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