Primeira menstruação e saúde ginecológica: o que toda adolescente precisa saber

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Primeira menstruação e saúde ginecológica: o que toda adolescente precisa saber

18 set. de 2025

  • Ginecologista da FEBRASGO alerta sobre cuidados na adolescência
  • 22 de setembro é o Dia Nacional da Saúde de Adolescentes e Jovens

 

Primeira menstruação, irregularidade menstrual, cólicas e outras situações inerentes à fase que precede a vida adulta podem causar muitas dúvidas. A Dra. Marta Rehme, ginecologista, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada de Ginecologia da Infância e Adolescência da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia da (FEBRASGO), responde às dúvidas mais frequentes sobre o assunto.

1. Em que idade deve ocorrer a primeira consulta ginecológica?

O ideal é que seja no início da puberdade, quando surgem os primeiros sinais como botão mamário e pelos pubianos, geralmente entre 9 e 10 anos. Nessa fase, o objetivo é um primeiro contato com ginecologista que vai orientar sobre as mudanças do corpo e estabelecer a relação médico paciente adolescente.

  1. O que é avaliado nessa primeira consulta?

São abordados temas de acordo com a idade e grau de discernimento da menina como menstruação, higiene íntima, alimentação, sexualidade e contracepção. O exame clínico geral inclui peso, estatura e avaliação do desenvolvimento puberal. O exame ginecológico é apenas externo (vulva, entrada da vagina, abertura do hímen), sem uso de instrumentos.

3. Quais sinais justificam avaliação ainda na infância?

O aparecimento de mamas ou pelos pubianos antes dos 8 anos, sinais sugestivos de puberdade precoce; corrimento persistente acompanhado de prurido ou odor forte, irritação vulvovaginal ou sangramento genital também são sinais que justificam uma avaliação ginecológica na infância. Casos de suspeita de abuso, malformações genitais ou traumatismo genital devem ser avaliados.

4. O que a menina que menstrua pela primeira vez (menarca) deve saber?

Nós devemos reforçar para esta menina que a menstruação é um evento positivo, que reflete a normalidade do aparelho reprodutor feminino. Incentivamos que a menina anote os dias dos ciclos menstruais subsequentes para avaliação do intervalo, duração e intensidade da menstruação. Ela deve ser orientada que, nos primeiros 2 anos pós menarca, os ciclos podem ser irregulares quanto ao intervalo ou duração, e isso acontece por causa da imaturidade do eixo hormonal; ou seja, não necessita de intervenção médica na maioria das vezes. A regularidade do ciclo se resolve espontaneamente para a maioria das meninas a partir de 2 anos pós menarca.

5. Quando a irregularidade menstrual deixa de ser normal e requer investigação?

O ciclo menstrual normal apresenta intervalo que varia entre 24 a 38 dias; duração de até 8 dias e fluxo percebido pela paciente pelo número de absorventes necessários sendo referido como normal ou intenso.

Qualquer alteração da frequência, duração ou quantidade de fluxo na adolescente que já tem mais de 2 anos da menarca merece atenção. Situações que requerem uma investigação:  

  • Ausência de menarca e de caracteres sexuais secundários (mamas, pilificação pubiana) aos 14 anos;
  • Ausência de menarca aos 15 anos, mas com desenvolvimento puberal normal há mais de 2 anos.
  • Menina que não menstrua por mais de 3 meses (sem estar grávida).
  • Intervalos menstruais maiores de 45 dias ou menores 21 dias após 2 a 3 anos da menarca.
  • Ciclos menstruais irregulares acompanhados de aumento de pilificação (hirsutismo).

6. Cólicas intensas são “normais”?

A cólica menstrual (dismenorreia) é uma situação frequente na adolescência decorrente da liberação de substâncias inflamatórias. É chamada de dismenorreia primária e pode ser leve, moderada e intensa. Em situações nas quais a cólica não melhora com os medicamentos disponíveis (anti-inflamatório e/ou contraceptivos), é preciso afastar causas secundárias como malformações genitais obstrutivas e endometriose.

7. Quais problemas ginecológicos podem surgir antes da vida adulta?

Síndromes que podem impedir ou atrasar o desenvolvimento da puberdade como síndrome de Turner, síndrome de Kallmann. Hímen imperfurado e malformações vaginais obstrutivas (como septo vaginal transverso) são situações que cursam com ausência de menarca e dor pélvica em meninas na faixa de 11 a 13 anos. Outras malformações uterinas como agenesia uterovaginal também são identificadas antes da vida adulta. A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é suspeitada naquela menina que apresenta ciclo irregulares há mais de 2 anos da menarca.

8. Corrimentos vaginais em meninas sempre são sinais de doença?

Meninas que nunca tiveram relação sexual podem apresentar uma secreção vaginal de aspecto leitoso, sem sintomas de prurido ou ardência, que se constitui na leucorreia fisiológica. Em outras situações, como durante uso de antibióticos, elas também podem desenvolver a candidíase vulvovaginal. Quando a adolescente é sexualmente ativa e não faz uso de preservativos na relação, ela corre o risco de apresentar corrimentos decorrente de infecção de transmissão sexual (tricomoníase, clamídia, gonorreia) e vaginose bacteriana.

9. Além da vacina contra HPV na adolescência, existem outras vacinas relevantes para a saúde ginecológica?

Sim, existe a vacina contra hepatite B, que é uma infecção de transmissão sexual. Além disso é importante que durante a consulta ginecológica seja abordado sobre o calendário de vacinação da adolescente, uma vez que adolescentes muitas vezes não são levados a serviços de saúde para receber vacinas como é feito em crianças.

10. Como a pressão estética e a ansiedade podem afetar a saúde ginecológica das adolescentes?

Conceitos equivocados sobre padrão corporal podem levar adolescentes a desenvolverem distúrbios alimentares como anorexia – que leva a amenorreia – ou solicitarem cirurgias estéticas como lipoaspiração, mastoplastias sem estarem totalmente desenvolvidas. Outra situação: relacionamentos sexuais em idade precoce podem trazer como consequências a gravidez não planejada, infecções de transmissão sexual como infecção por clamídia, cuja complicação é a salpingite, que pode causar infertilidade.

11. Alguma mensagem final para pais e adolescentes sobre a importância da ginecologia nessa fase da vida?

Os pais devem incentivar suas filhas adolescentes a terem uma consulta com ginecologista mesmo que não haja queixa, pois é importante que sejam orientadas sob vários aspectos da vida da mulher: menstruação, cuidados de higiene, sexualidade e contracepção. Para que haja uma boa relação médico-paciente é importante que a privacidade e autonomia destas adolescentes seja respeitada. Os pais devem saber que o sigilo na consulta será mantido conforme o código de ética médica. Nas situações que justificar a quebra do sigilo, a adolescente será comunicada previamente sobre essa necessidade.

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