Comunicação de Desfecho Grave

Comunicação de desfecho grave

PROTOCOLO P.A.C.I.E.N.T.E

P

Prepare

Preparo do profissional

• Lide com sua própria ansiedade/angústia. Prepare-se para questionamentos técnicos.
• Considere a possibilidade de ir acompanhado de outros membros da equipe de atendimento
• Verifique sua aparência (jaleco e vestimenta apropriada em ambiente profissional, sem manchas de sangue ou similar).
• Conheça o interlocutor:
• Quem é? (nome dos envolvidos: paciente, familiar, acompanhante)
• Que termos usar? (individualizar para o contexto com termos já reconhecidos pelo interlocutor)
• Como a pessoa está? (reconheça sinais físicos de ansiedade, faça contato visual direto)
• Ela tem uma rede de apoio? Pergunte sobre o desejo da presença de algum acompanhante (e/ou certifique-se de quem a está acompanhando, se a rede está acessível imediatamente após a abordagem atual)

• Conheça os fatos: Saiba o que aconteceu, o que foi feito, equipe de assistência, detalhes envolvendo a sequência de eventos que culminou no desfecho grave a ser comunicado.

Preparo do ambiente

• Privacidade: mesmo no caso de não haver ambiente privativo, certifique-se de que não serão interrompidos durante a conversa. Desligue celulares, evite proximidade com telefones e lugares de alto fluxo de pessoas. Fale em tom de voz baixo. Tenha à disposição caixas de lenços.
• Conforto: certifique-se de que não haja barreiras físicas entre você e o interlocutor. Evite mesas e escrivaninhas, prefira poltronas confortáveis e sente-se ao lado ou em frente à pessoa, para permitir contato olho-a-olho e proximidade física.
• Segurança: avalie as possibilidades de chamar ajuda e de se colocar em segurança se necessário.
• No caso de perdas gestacionais e óbitos perinatais, evite ambientes com choros de bebês, mães com bebês saudáveis sempre que possível.

A

Acesse o quanto o paciente sabe e quanto quer saber

• Apresente-se, estabeleça um vínculo. Diga seu nome, sua função na equipe.
• Quanto ela sabe do diagnóstico/Situação? Ouça antes de começar a falar.
• O que ela acha que está acontecendo?

Exemplos de frases facilitadoras

“Sabe por que razão veio a esta consulta?”
“O que entende da sua doença até agora?”
“Quando notou pela primeira vez esse sintoma o que pensou?”
“Sabe porque foi fazer este exame?”

• O quanto o paciente quer saber?

Exemplos de frases facilitadoras

"Prefere que lhe dê a informação detalhada acerca do resultado do exame ou que passemos mais tempo discutindo o plano de tratamento?"
"É o tipo de pessoa que gosta de saber todos os pormenores acerca da sua condição?"
"Como gostaria que eu lhe transmitisse a informação? (acompanhado, carta para o médico de família)?"
"Se a sua doença se tornar mais grave no futuro, gostaria de saber?"

C

Convite à realidade

• Convide-a para escutar o fato que precisa ser comunicado

Exemplos de frases iniciais

"Lamento, mas tenho más notícias".
"Sinto muito, eu gostaria que os fatos fossem diferentes"
"Como os primeiros exames tinham mostrado..."
"Como já teria consciência..."

• Dê espaço (tempo) para que ela lide com o que virá a seguir.
• Será que ela quer ouvir naquele momento? Gostaria de esperar a
presença de um acompanhante específico? Gostaria de estar um pouco a sós?

O protocolo não precisa ser concluído em um mesmo momento. Todos os próximos passos podem ser realizados em intervalos subsequentes. Retome a conversa mais tarde, se for o caso. Lembre-se, no entanto, de não evitar a comunicação ou "passar para o próximo colega".

I

Informe

• Faça a comunicação de forma clara.
• Use linguagem compreensível, informações sucintas e precisas, sem termos técnicos, usando palavras que ela possa entender.
• Evite o uso de diminutivos ou outras formas de minimizar o problema.
• Evite informações em excesso neste momento (a não ser que detalhes sejam solicitados).

E

Emoções

• Depois da comunicação, fique em silêncio por um tempo.
• Permita que a paciente expresse suas emoções.
• Ofereça contato físico, individualizando essa oferta de acordo com a receptividade (percepção subjetiva).
Expressar emoções ao receber um diagnóstico/ notícia difícil é saudável e deve ser incentivado.
• Valide/ nomeie/ apoie emoções que surgirem.

Exemplos de frases facilitadoras

"Percebo o quão angustiante isto é para você" "Compreendo que essa é uma notícia inesperada" "É normal reagir assim neste tipo de situações"

Esteja preparado para elementos de negação da gravidade e de raiva com a situação.

• Procure não debater, apenas acolher.

Exemplos de frases facilitadoras

"O que você está pensando/sentindo neste momento?"
"O que quer dizer com: já não aguento mais?"
"Pode explicar-me o que a preocupa mais?"

No caso de perda gestacional, evite desvalorizar a experiência da maternidade/paternidade, evite falar sobre possíveis futuras gestações (a menos que seja questionado pela mulher/casal), ou frases e atitudes que desvalidem a gestação que resultou na perda.

N

Não abandone

• Garanta continuidade de cuidado, incluindo apoio emocional.
Mesmo em grandes instituições, é importante que a paciente/ familiar sinta que seu caso importa.
• Ofereça telefone de contato com a equipe para complementar informações, ou local de referência para posterior seguimento, ou apresente a próxima equipe a assumir o caso.
• Esteja realmente disponível para esse contato posterior e a possibilidade de repetir as mesmas informações várias vezes.

Exemplos de frases facilitadoras

"Nossa equipe está disponível caso tenha outras dúvidas".
"Estamos disponíveis para lhe apoiar no que for possível".

TE

Trace uma Estratégia

• Explique detalhadamente os procedimentos que serão realizados a seguir, se possível, permita que a mulher faça escolhas informadas.

Exemplos de frases facilitadoras

"Os tratamentos e cuidados disponíveis no seu caso são..."
"Os objetivos do seu tratamento serão..."

• Certifique-se de que ela entendeu a notícia.

Exemplos de frases facilitadoras

"Você tem alguma dúvida sobre o que conversamos?"

• Ajude a planejar e lidar com os próximos passos, respeitando autonomia e escolhas informadas.
• Assegurar a continuidade dos cuidados; agendar contacto seguinte; transmitir disponibilidade e apoio.

Pereira CR, Calônego MAM, Lemonica L, Barros GAM de, Pereira CR, Calônego MAM, et al. The P-A-C-I-E-N-T-E Protocol: An instrument for breaking bad news adapted to the Brazilian medical reality. Rev Assoc Med Bras. 2017 Jan;63(1):43–9.
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