Setembro Amarelo: prevenção, assistência e o desafio de cuidar e ser cuidado

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Setembro Amarelo: prevenção, assistência e o desafio de cuidar e ser cuidado

01 set. de 2020

São Paulo, setembro de 2020. Em escala crescente, o suicídio tem se consolidado como um problema de saúde pública, no Brasil. A cada ano, mais de 12 mil pessoas decidem tirar a própria vida. Trata-se de uma perda a cada 45 minutos. Diante deste cenário, a Febrasgo aponta para necessidade de atenção à saúde mental da população, em especial das mulheres e dos profissionais de saúde. Dados do Ministério da Saúde apontam que, de 2009 a 2018, os suicídios femininos aumentaram 45,7% – enquanto a média geral foi de 35,8%. Paralelamente, estatísticas internacionais apontam que médicos apresentam maior risco de tomarem essa medida extrema, em comparação à população não médica.
 
O suicídio pode ser compreendido como um fenômeno multicausal gerado por um severo estado de sofrimento psíquico, comumente associado a quadros de depressão. A psicologia, psiquiatria e assistência social são as principais especialidades ligadas ao tratamento de pessoas com pensamentos suicidas. Contudo a ginecologia e obstetrícia pode desempenhar importante papel no auxílio à identificação de sinais ligados às doenças mentais ou dores de impacto psicológico.
 
Psicólogos e psiquiatras destacam que entre os sinais de alerta potencialmente associados à tendências suicidas figuram a diminuição do autocuidado; isolamento social; mudança repentina de humor; abuso de álcool, cigarro e outras drogas; e automutilação. Muitas vezes, esta última característica pode não estar ligada à ideias para tirar a própria vida, mas indicam um quadro de sofrimento psíquico.
 
Em meio a esses fatores, carecem ainda mais atenção às pessoas entre 14 e 24 anos, que integram algum grupo ou situação de vulnerabilidade ou que apresentem desesperança e falta de perspectivas de futuro.
 
Cuidar de quem cuida
Profissionais de saúde não estão isentos da necessidade de apoio à saúde mental. Fatores como depressão, síndrome de burnout (esgotamento decorrente do trabalho), baixa qualidade de vida, lazer e convívio social reduzidos, diminuição da atividade física tem levado médicos e médicas a decisões extremas contra si.
 
A ginecologista Dra Maria Celeste Wender, Diretora de Defesa e Valorização Profissional, comenta que “não basta apenas orientarmos que pacientes tenham hábitos de vida saudáveis, pratiquem exercícios, tenham dieta boa. É importante nos darmos conta de que estamos incluídos na população. São recomendações que temos de fazer a nós mesmos. É importante também nos atentarmos ao colega do nosso lado para verificar se as coisas estão em ordem. Devemos auxiliar sempre que necessário”.
 
O psiquiatra Dr. Leonardo Sérvio Luz, docente da Universidade Federal do Piauí, observa que alguns profissionais apresentam bastante dificuldade de pedir ajuda. “Essa dificuldade é, muitas vezes, por vergonha, por receio de serem estigmatizados, de passarem por alguma situação constrangedora no trabalho, perder posição ou cargo. Assim, escondem o fato de terem alguma patologia”.
 
O especialista cita também o consumo de álcool e drogas como elementos agravantes. “Não se sabe se as taxas de uso dessas substâncias são diferentes em relação à população geral. Contudo, alguns estudos mostraram que, quando o médico se propõe a um tratamento, tem mais chances de sucesso e cura, no tocante às dependências químicas em relação à população geral. Tudo passa no quanto essas pessoas estão implicadas numa busca por ajuda”.
 
 
Incidência e prevenção
Segundo o Dr. Sérvio Luz, ainda há pouca literatura sobre a incidência de suicídio entre profissionais de saúde. Contudo, ele aponta que estudos americanos e europeus indicam risco 1,4 vezes maior entre profissionais homens e 2,3 vezes mais elevadas entre as colegas mulheres, em comparação à população geral.
 
“Além do esgotamento por questões profissionais e o estresse inerente ao exercício da medicina, devemos lembrar que as mulheres têm uma sobrecarga por jornadas múltiplas de trabalho. Principalmente, as que têm filhos hoje dentro de casa, sem poder ir à escola, em função da pandemia. Além das elevadas cargas conhecidas, sobrepõem-se as oriundas desse atual momento de saúde”, destaca a Dra. Celeste Wender.
 
O especialista em psiquiatria sugere que a prevenção entre profissionais de saúde inicie-se por evitar o surgimento dos principais diagnósticos ligados ao suicídio, como a depressão e o burnout. De acordo com ele, essas medidas podem ocorrer por meio da promoção de jornadas de trabalho condizentes com a faixa salarial e adequadas às expectativas e realidades de vida, incentivando instituições a terem programas de prevenção que ofereçam ajuda multiprofissional e transdisciplinares para profissionais em sofrimento. “Profissionais que sabem de grupos de apoio a outros profissionais tendem a se abrir com mais facilidade”, complementa.
 
Dr. Sérvio Luz indica ainda o incentivo à presença de lideranças que impactem positivamente a carreira dos médicos, cujos comportamentos possam servir de exemplos a serem seguidos. Aponta também o fortalecimento de programas de educação médica continuada dentro e fora das instituições de trabalho, implementação de ferramentas de identificação de colegas que estejam em risco de adoecimento psíquico e implementação de programas de bem-estar.
 
Nesse último item, o psiquiatra orienta a busca de um estado de bem-estar médico, incentivando os profissionais num compromisso com seu autocuidado, rompendo as barreiras e estigmas sobre a saúde mental, utilização de ferramentas da saúde cognitivo comportamental no sentido psicoeducacional, prática regular de exercício físico e práticas mais recentes de promoção de autoconsciência.
 
“São estratégias relativamente simples de incentivar que as pessoas partam para uma autoconscientização na busca por esse autocuidado e no desenvolvimento e reflexão do sentido da vida. O médico, na função de cuidador, está sempre no limite entre o cuidar e ser cuidado. O médico precisa ser conscientizado de que quando ele se sentir vulnerável, ele tem que admitir essa situação de vulnerabilidade porque só assim, ele vai permitir a abertura de um horizonte em que, de fato, ele poderá ser cuidado por um outro”.

 

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