Reposição de cálcio em gestantes para a prevenção de pré-eclâmpsia

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06 abr. de 2026

Após a publicação da Cochrane Database of Systematic Reviews (DOI: 10.1002/14651858.CD001059.pub6), metanálise sobre uso de cálcio na prevenção da pré-eclâmpsia [Cluver et al., 2025], que de certo modo, se sobrepõe à metanálise anterior de Hofmeyr et al. [2018] (DOI: 10.1002/14651858.CD001059.pub5) e da recomendação publicada pela Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG) em parceria com a Comissão Nacional de Hipertensão na Gestação da FEBRASGO (CNE-HGFEBRASGO) em dezembro de 2025, resolvemos reavaliar o posicionamento do uso do cálcio para a prevenção da Pré-Eclâmpsia.

A publicação de Hofmeyr et al. [2018], versão amplamente citada, concluiu que suplementação com cálcio (≥1 g/dia) reduz o risco de pré-eclâmpsia, especialmente em mulheres com ingestão dietética baixa de cálcio. Também apontou redução de parto pré-termo e de complicações maternas graves em algumas análises. Além disso, ressaltou o efeito protetor em populações de comprovada baixa ingesta de cálcio. Estes dados serviram de base para a recomendação da Organização Mundial de Saúde [OMS] e para as recomendações do Ministério da Saúde [MS] do Brasil.

A nova análise de Cluver et al. [2025] incorpora ensaios com maior rigor estatístico e avaliações de qualidade adicionais, concluindo que, após excluir estudos considerados não confiáveis (com alto risco de viés, como estudos com baixo número de casos ou sem aprovação de protocolo de pesquisa em plataforma oficial para Ensaio Clínico Randomizado), o efeito protetor da prescrição de cálcio inexiste — isto é, a evidência passa a não suportar de forma robusta a prevenção da pré- eclâmpsia por suplementação rotineira de cálcio.

Assim, comparando as duas análises podemos afirmar que: Hofmeyr et al. sintetizaram o corpo de evidência disponível até ~2014/2018, que incluía muitos estudos com baixa casuística e alguns cluster-ECRs e Cluver et al. [2025] atualizaram a metanálise com ensaios recentes, incluindo estudos multicêntricos com grande casuística, realizando uma avaliação de risco de viés / sensibilidade. A diferença crítica é que Cluver et al. [2025] realizaram análises de sensibilidade que excluíram estudos com risco de viés sérios ou considerados “não confiáveis”, o que mudou substancialmente o efeito global. Hofmeyr et al. [2018] discutiram possíveis vieses (pequeno-estudo/viés de publicação) mas mantiveram o efeito ao combinar os estudos então disponíveis. Estes autores destacaram efeito mais forte com doses ≥1 g/dia e em populações com baixa ingestão dietética de cálcio. Cluver et al. [2025] também examinam dose e subgrupos, mas o resultado geral enfraqueceu quando estudos de baixa confiança foram excluídos. Ambas as revisões não mostram efeitos adversos robustos. Hofmeyr et al. [2018] observaram pequeno aumento de síndrome HELLP em números absolutos (efeito raro), que não anulou benefícios percebidos — mas Cluver et al. [2025] chamam atenção para incerteza sobre segurança quando o benefício é incerto.
Com o tempo necessário, foram realizadas várias análises e discussões por grupos de especialistas em Hipertensão Arterial na Gestação e Epidemiologia para tentar compreender os resultados desta nova metanálise. Assim, a RBEHG e a CNE sobre Hipertensão na Gestação da Febrasgo modificam o seu entendimento e passam a não recomendar o uso de cálcio para a prevenção da Pré-eclâmpsia à luz das evidências atuais.
Ponderamos que a prescrição de cálcio na gestação possa ser feita por outras indicações e que a prescrição do cálcio poderá ser de uma escolha do próprio médico. Consideramos que essa linha de pesquisa ainda possa ser estudada e estamos atentos para o resultado de novas metanálises que estão em andamento, bem como do posicionamento futuro de entidades importantes como a Sociedade Internacional para Estudos da Hipertensão na Gestação (ISSHP), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde do Brasil.

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