Presidente da FEBRASGO participa de sessão da Academia Nacional de Medicina

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Presidente da FEBRASGO participa de sessão da Academia Nacional de Medicina

24 mar. de 2026

No dia 19/03, a Academia Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, promoveu um encontro com especialistas para celebrar o Dia Internacional da Mulher e da Cesariana Moderna. Na sessão, a Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO, ministrou a aula intitulada “Da Reprodução à Longevidade Ativa: a Nova Jornada da Mulher Contemporânea”.

O evento teve como objetivo promover uma reflexão sobre a saúde da mulher ao longo da vida e os avanços da Medicina Obstétrica. Temas como reprodução, fundamentos históricos e aspectos epidemiológicos estiveram entre os assuntos abordados na sessão.

“Tive a honra de integrar esta sessão, que abriu espaço para uma reflexão relevante sobre a jornada da mulher contemporânea e para a difusão de conhecimento em Ginecologia e Obstetrícia, essencial para aprimorar a atenção à saúde da mulher”, comentou a Dra. Maria Celeste.

Confira abaixo um resumo da fala da presidente da FEBRASGO no evento da Academia Nacional de Medicina.

Da Reprodução à Longevidade Ativa: A Nova Jornada da Mulher Contemporânea

A saúde da mulher passou por uma transformação profunda nas últimas décadas, impulsionada por mudanças demográficas, sociais e científicas. Historicamente, a medicina concentrou-se predominantemente nos aspectos reprodutivos femininos — gravidez, parto e fertilidade — como eixo central do cuidado. No entanto, o aumento expressivo da expectativa de vida feminina redefiniu esse paradigma.

Essa transição é acompanhada por uma queda significativa da fecundidade, de cerca de seis filhos por mulher na década de 1960 para aproximadamente 1,6 em 2023, além da postergação da maternidade, maior escolaridade e crescente participação feminina no mercado de trabalho. Como consequência, a trajetória da mulher contemporânea tornou-se mais complexa e diversificada, exigindo uma abordagem ampliada da Medicina, baseada no conceito de cuidado ao longo do curso de vida.

Nesse novo modelo, a saúde feminina deve ser compreendida em diferentes fases interconectadas. Na adolescência, destacam-se a educação em saúde sexual e a vacinação contra o HPV. No menacme, o planejamento reprodutivo, a contracepção eficaz e o aconselhamento centrado na mulher são fundamentais. A postergação da maternidade trouxe consigo o aumento da infertilidade relacionada à idade, maior utilização de técnicas de reprodução assistida e maior risco obstétrico tardio, evidenciando a necessidade de integração entre ginecologia, endocrinologia e medicina reprodutiva.

A transição menopausal representa um ponto crítico dessa jornada. A menopausa deixou de ser vista como o fim da vida reprodutiva para ser reconhecida como uma fase de transição para uma nova etapa de vida ativa, produtiva e com potencial de longevidade saudável. Os sintomas vasomotores, alterações do sono e do humor, além dos impactos sobre o metabolismo, sistema cardiovascular, ossos, cognição e sexualidade, demandam abordagem clínica estruturada e baseada em evidências. A terapia hormonal, quando indicada dentro da janela de oportunidade — preferencialmente antes dos 60 anos ou nos primeiros 10 anos após a menopausa — permanece uma ferramenta terapêutica relevante para melhora da qualidade de vida e prevenção de desfechos adversos.

Entretanto, novos desafios emergem nesse cenário. O uso indiscriminado de hormônios, especialmente implantes manipulados sem comprovação de eficácia e segurança, representa risco significativo à saúde das mulheres e impõe custos adicionais ao sistema de saúde. Diversas sociedades médicas brasileiras têm se posicionado de forma consistente contra essas práticas, reforçando a importância do uso racional, baseado em evidências científicas e em formulações aprovadas por órgãos regulatórios.

Paralelamente, a saúde da mulher deve incorporar temas transversais de grande relevância, como a eliminação do câncer do colo do útero — alinhada às metas globais de vacinação, rastreamento e tratamento — e o enfrentamento da violência contra a mulher, um problema de alta prevalência e impacto, frequentemente identificado no contexto da prática ginecológica. Nesse contexto, a mortalidade materna — majoritariamente evitável — deve ser compreendida como uma forma de violência estrutural contra a mulher, refletindo falhas sistêmicas no acesso, na qualidade e na equidade da atenção à saúde.

É nesse cenário que iniciativas como a campanha #EuVejoVocê ganham relevância estratégica. Mais do que uma ação de sensibilização, trata-se de um chamado à prática clínica ativa, centrada no reconhecimento da mulher em sua integralidade — biológica, psicológica e social. A campanha propõe que o profissional de saúde, especialmente o ginecologista e obstetra, reconheça sinais muitas vezes silenciosos de sofrimento, vulnerabilidade ou violência, ampliando seu papel para além do cuidado técnico. “Ver” a mulher significa escutar, acolher e agir, incorporando empatia, vigilância clínica e responsabilidade ética. Ao trazer visibilidade ao que frequentemente permanece oculto — como a violência doméstica, a negligência institucional e as desigualdades de acesso —, a campanha reforça o compromisso da medicina com uma abordagem mais humana, equitativa e transformadora.

Na perspectiva da longevidade ativa, as principais ameaças à saúde feminina após os 50 anos incluem doenças cardiovasculares, câncer, osteoporose e demência. Dessa forma, a nova agenda da medicina da mulher deve priorizar prevenção, funcionalidade, cognição e autonomia, com abordagem multidisciplinar e centrada na paciente.

Em síntese, a maior revolução na saúde feminina não se limita ao controle da reprodução, mas reside na possibilidade de garantir às mulheres décadas adicionais de vida com qualidade, independência e dignidade. A medicina contemporânea é, portanto, desafiada a acompanhar toda a jornada da mulher — da adolescência à longevidade ativa — por meio de uma abordagem integrada, preventiva e baseada em evidências.

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