Mamografia a partir dos 40 anos amplia acesso ao rastreamento, mas desigualdade regional ainda limita diagnóstico precoce

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Mamografia a partir dos 40 anos amplia acesso ao rastreamento, mas desigualdade regional ainda limita diagnóstico precoce

07 abr. de 2026

Especialista da FEBRASGO alerta: Norte e Nordeste ainda enfrentam carência de mamógrafos e barreiras geográficas dificultam a prevenção

 

A possibilidade de realizar mamografia a partir dos 40 anos sem necessidade de justificativa médica representa um avanço importante no rastreamento do câncer de mama no Brasil. A mudança amplia o acesso ao exame, reduz barreiras burocráticas e abre caminho para uma abordagem mais individualizada, capaz de considerar o risco de cada mulher. Ainda assim, o benefício não chega da mesma forma a todo o país: a distribuição desigual de mamógrafos e as dificuldades de acesso em regiões mais remotas seguem como entraves para o diagnóstico precoce.

Segundo a ginecologista Dra. Hilka Flavia Barra do Espirito Santo Alves Pereira, vice-presidente da Região Norte da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a ampliação da faixa etária traz um ganho relevante para a assistência. “A paciente, ao completar 40 anos, pode fazer a mamografia sem nenhuma justificativa. No passado, o médico que solicitava o exame precisava justificar a indicação e isso acabava sendo um fator limitador. Com essa ampliação conseguimos também personalizar melhor esse atendimento e esse rastreio”, afirma.

Ela ressalta que quando as mulheres faziam mamografia apenas a partir dos 50 anos, cerca de 30% a 40% de tumores eram deixados de ser diagnosticados na faixa etária entre 40 a 50 anos. “Ao revisarmos a mamografia a partir dos 40, poderemos diminuir, ou pelo menos fazer o diagnóstico mais precoce, em mulheres entre 40 e 50 anos que ficavam num vácuo, sem o rastreio, apesar de ter uma incidência elevada dessa população, nessa faixa etária”.

A mamografia segue sendo o padrão-ouro para o rastreamento do câncer de mama. No entanto, a especialista ressalta que o método não deve ser visto de forma isolada em todas as situações. Em mulheres com mamas densas, por exemplo, a ultrassonografia pode ser associada para aumentar a sensibilidade da avaliação. Em alguns casos, a ressonância magnética também pode ser indicada, especialmente quando há necessidade de investigação complementar ou rastreamento diferenciado.

A discussão sobre rastreamento, porém, esbarra em um problema estrutural: a concentração dos equipamentos nas regiões Sul e Sudeste. No Norte e no Nordeste, os mamógrafos são menos numerosos e costumam ficar restritos a áreas estratégicas, o que dificulta o acesso de muitas pacientes. No Amazonas, por exemplo, a escassez é ainda mais evidente no interior. A geografia da região agrava esse cenário, já que grande parte dos deslocamentos depende de rios, e não de estradas, tornando o rastreamento mais difícil para mulheres que vivem longe dos centros urbanos. Na avaliação da médica, esse contexto cria um vazio assistencial para parte da população feminina, justamente em uma etapa decisiva para o controle da doença.

“O que há de novo no rastreamento do câncer de mama no Brasil?” será tema de aula da Dra. Hilka durante o 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, que acontece em maio, em Belo Horizonte (MG). Na ocasião, ela vai abordar que além de ampliar o acesso ao exame, é fundamental avançar na personalização do rastreamento. A proposta é identificar quais mulheres se enquadram em risco habitual e quais têm alto risco para câncer de mama, permitindo definir frequência e método mais adequados para cada caso.

Para as pacientes de alto risco, ela propõe que o acompanhamento deva ser diferenciado e mais rigoroso. Isso inclui definir não apenas quando iniciar o rastreamento, mas também quais exames devem ser utilizados e com que periodicidade. A personalização, segundo a especialista, é um passo importante para tornar a prevenção mais efetiva e compatível com a realidade clínica de cada mulher.

Outro desafio a ser discutido é a necessidade de o Brasil avançar de um modelo de rastreamento oportunístico — quando o exame depende da iniciativa individual ou da consulta médica eventual — para um modelo organizado. Nesse formato, o próprio sistema de saúde assume a responsabilidade de convocar as pacientes, acompanhar resultados, fazer o recall quando necessário e monitorar todo o processo de rastreamento.

“Precisamos caminhar para um modelo de rastreamento organizado, em que o Estado assuma a responsabilidade pelo chamamento, pelo controle e pelo acompanhamento dessas pacientes. Esse é um passo fundamental para tornar a prevenção mais eficiente e mais justa”, destaca a Dra. Hilka.

A expectativa, de acordo com a especialista, é que esse modelo mais estruturado possa se tornar realidade em breve. Enquanto isso, a ampliação da mamografia a partir dos 40 anos já representa um avanço importante, desde que venha acompanhada de políticas capazes de reduzir desigualdades regionais e garantir acesso real ao diagnóstico precoce.

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