FEBRASGO esclarece: Câncer de mama e terapia hormonal

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FEBRASGO esclarece: Câncer de mama e terapia hormonal

28 abr. de 2025

A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) vem a público esclarecer a recente divulgação nas mídias sociais, que sugeria que mulheres que já foram diagnosticadas com câncer de mama poderiam receber terapia de reposição hormonal (TH) para o tratamento dos sintomas da menopausa.
 
Essa informação se baseia no artigo “Hormone Replacement Therapy After Breast CancerIt Is Time”, de Avrum Zvi Bluming, de único autor, publicado em 2022, que fez um levantamento e análise de 25 estudos sobre os efeitos da TH em sobreviventes de câncer de mama.
 
O artigo é revisão narrativa avaliando os benefícios da terapia hormonal (TH) para controle dos sintomas da menopausa, saúde cardiovascular, prevenção de fraturas de quadril, redução do declínio cognitivo e aumento da longevidade em pacientes sobreviventes de câncer de mama.
 
Os estudos incluídos nessa revisão foram publicados ao longo de mais de três décadas (1980 a 2021) e faziam referência à administração de estrogênio isolado ou combinado com progestagênio (TH) em mulheres tratadas previamente para câncer de mama.
 
A conclusão do estudo foi que o uso de TH em sobreviventes de câncer de mama não está associado, de forma consistente, ao aumento de mortalidade ou recorrência distante.
 
Pontos que merecem atenção na avaliação desse estudo:
 
  1. O artigo caracteriza-se como uma revisão narrativa, sem a aplicação de critérios rigorosos de seleção sistemática da literatura, como preconizado pelas diretrizes PRISMA para revisões sistemáticas. A ausência de um protocolo pré-registrado (ex. PROSPERO) limita a transparência do processo de seleção e inclusão dos estudos.
 
  1. Heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos: Os 25 estudos analisados apresentam ampla variação em seus desenhos metodológicos (ensaios clínicos randomizados, coortes retrospectivas, estudos de caso-controle, séries de casos), o que dificulta a comparação direta dos resultados. Não há aplicação de técnicas de metanálise para integrar os resultados quantitativamente, o que reduz a robustez estatística da conclusão geral.
 
  1. Curto tempo de seguimento dos estudos primários: A mediana de seguimento dos estudos revisados é de aproximadamente 5 anos, o que é insuficiente para avaliar efeitos tardios relevantes, como recorrência metastática ou mortalidade específica por câncer de mama, especialmente considerando que o câncer de mama pode ter recidiva tardia.
 
  1. Falta de estratificação adequada por subtipo tumoral e terapia adjuvante. O artigo não realiza uma análise aprofundada por status de receptor hormonal (ER+, PR+, HER2+), grau histológico ou uso concomitante de terapias como tamoxifeno, inibidores da aromatase, quimioterapia ou radioterapia. Esta limitação é crítica, pois o risco de recorrência e o impacto da TH podem variar significativamente de acordo com essas características tumorais e terapêuticas.
 
  1. Desconsideração de vieses inerentes a estudos observacionais. A revisão confere grande peso a estudos observacionais (retrospectivos e prospectivos não randomizados), os quais estão sujeitos a viés de seleção, viés de confusão e viés de sobrevivente saudável. Muitos estudos não ajustaram adequadamente para fatores prognósticos conhecidos (ex.: idade, comorbidades, estágio do câncer).
 
  1. Dependência excessiva da crítica ao estudo HABITS: O autor estrutura grande parte de seu argumento em refutar os achados do estudo HABITS, que de fato demonstrou aumento na recorrência local. Entretanto, a crítica, embora válida em certos aspectos, não anula a necessidade de cautela, especialmente, na ausência de evidência robusta de segurança a longo prazo.
 
  1. Falta de análise de risco-benefício Embora o autor defenda uma abordagem mais permissiva ao uso da TH, o artigo não oferece critérios objetivos ou algoritmos clínicos para estratificação de risco e tomada de decisão personalizada. Há ausência de propostas claras para monitoramento e seguimento clínico rigoroso em pacientes que eventualmente iniciem a TH.

As Comissões Especializadas de Climatério (CNE de Climatério) e de Mastologia (CNE de Mastologia) esclarecem que, atualmente, não existem dados suficientes que comprovem a segurança do uso de terapia hormonal (TH) em mulheres que foram diagnosticadas com câncer de mama.

Dessa forma, consideram inoportuna e prematura a divulgação nas mídias sociais, para o público em geral, da possibilidade de utilizar esse tratamento sem os devidos esclarecimentos sobre a interpretação dos dados científicos, que ainda são limitados. A FEBRASGO reafirma para as mulheres e para os médicos que o câncer de mama continua sendo uma contraindicação para o uso de TH. No entanto, essas mulheres devem receber cuidados especializados e terapias não hormonais que aliviem os sintomas e melhorem a qualidade de vida durante o climatério.

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