Endometriose: alimentação e saúde intestinal podem atuar como aliadas no controle da inflamação e da dor

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Endometriose: alimentação e saúde intestinal podem atuar como aliadas no controle da inflamação e da dor

31 ago. de 2026

Estresse oxidativo, inflamação e disbiose intestinal ajudam a explicar a progressão da doença e reforçam a importância de uma abordagem integrada no cuidado às mulheres com endometriose

 

A endometriose é uma doença inflamatória, complexa e multifatorial, que exige cuidado individualizado. Além dos tratamentos medicamentosos e cirúrgicos, quando indicados, cresce o interesse científico sobre o papel da alimentação, dos nutrientes e da saúde intestinal na evolução da doença e no controle de sintomas, especialmente da dor.

“Entre os pontos centrais dessa discussão estão três pilares: estresse oxidativo, inflamação e disbiose intestinal. Esses fatores repercutem no ambiente peritoneal e podem participar do desenvolvimento e da progressão da endometriose”, explica a Dra. Marcia Mendonça Carneiro, ginecologista da Comissão Nacional especializada em Endometriose da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.

Ela conta que o estresse oxidativo tem papel importante nesse processo. A presença de tecido endometrial fora do útero e a menstruação retrógrada podem contribuir para uma retroalimentação inflamatória. Nesse contexto, compostos alimentares com ação antioxidante vêm sendo estudados como possíveis aliados no cuidado às pacientes.

“Metanálises recentes avaliaram a relação entre vitaminas antioxidantes, fitoquímicos e ácidos graxos com a melhora da dor em mulheres com endometriose. Embora ainda sejam necessários estudos mais robustos, parece promissora a terapia antioxidante como possibilidade de tratamento adjuvante”, revela a Dra. Márcia.

Entre os achados mais consistentes estão os relacionados às vitaminas C e E, associadas à melhora da dismenorreia (cólica menstrual) e da dor pélvica crônica. A vitamina E tem potente ação antioxidante e, em sinergia com a vitamina C, pode contribuir para reduzir a peroxidação das membranas, diminuir a formação de radicais livres e modular o processo inflamatório e doloroso.

O sistema antioxidante não depende apenas de vitaminas. Enzimas antioxidantes precisam de minerais como cobre, zinco, manganês, selênio e ferro para funcionar adequadamente. Deficiências nutricionais podem comprometer respostas fisiológicas importantes no controle do estresse oxidativo.

Outro ponto em estudo é o potencial inflamatório da dieta. Pesquisas que utilizam o índice inflamatório da dieta já relacionam padrões alimentares pró-inflamatórios a maior risco de endometriose, especialmente em mulheres acima dos 35 anos. Entre os componentes mais associados a esse perfil estão carne vermelha, gordura trans, álcool e cafeína. Por outro lado, dietas ricas em carotenoides, vitamina C, polifenóis, ômega 3 e fibras podem atuar como moduladoras da inflamação, com possível impacto na redução do risco e da incidência da doença.

A saúde intestinal também importa. A disbiose ocorre quando há desequilíbrio da microbiota, com redução de bactérias associadas à saúde e aumento de microrganismos com perfil mais patogênico. Esse desequilíbrio pode alterar a barreira intestinal e permitir a passagem de componentes bacterianos, como os lipopolissacarídeos, capazes de ativar respostas inflamatórias e imunológicas.

“Nesse cenário, as fibras alimentares merecem destaque, pois contribuem para a produção de butirato, substância importante para a saúde intestinal. No entanto, o consumo de fibras, frutas, verduras e legumes ainda está abaixo do recomendado em grande parte da população”, diz a ginecologista.

Mulheres com endometriose também apresentam, em alguns estudos, níveis séricos mais baixos de vitaminas A, D e C. Uma possível explicação é que essas pacientes tenham maior demanda desses nutrientes diante do estresse oxidativo e da inflamação associados à doença.

A nutrição não substitui o tratamento médico, mas pode ser uma ferramenta complementar dentro de um plano terapêutico individualizado. A endometriose exige cuidado baseado em evidências, com atenção à dor, à qualidade de vida, ao padrão alimentar, à saúde intestinal e ao contexto clínico de cada paciente.

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