Mulheres negras ainda enfrentam barreiras para iniciar e manter o pré-natal, alerta especialista da FEBRASGO
24 jul. de 2026
- 25/7 é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha
- Mulheres negras apresentam 23% menos chances de receber orientações sobre o trabalho de parto
Apesar dos avanços no acesso ao pré-natal no Brasil nas últimas décadas, mulheres negras ainda enfrentam obstáculos significativos para iniciar e dar continuidade ao acompanhamento da gestação. Diferenças no acesso aos serviços de saúde, desigualdades socioeconômicas e o racismo estrutural estão entre os principais fatores que impactam diretamente a qualidade da assistência prestada, aumentando os riscos para a saúde materna e do bebê.
Uma pesquisa publicada na revista científica International Journal for Equity in Health, analisou 2.537.511 nascimentos registrados no Brasil em 2023 com dados oficiais do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), do Ministério da Saúde. O estudo mostrou que 99,4% das gestantes realizaram pelo menos uma consulta de pré-natal, mas apenas 67,4% conseguiram completar oito ou mais consultas, número atualmente recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os resultados indicam que o maior desafio não é apenas iniciar o acompanhamento, mas garantir sua continuidade ao longo da gestação.
As desigualdades foram mais evidentes entre mulheres negras, pardas, indígenas, adolescentes, mulheres com baixa escolaridade e moradoras da Região Norte. A taxa de abandono entre a primeira consulta e a realização de oito consultas foi de 33,9% entre mulheres pretas, 35,4% entre mulheres pardas e 24,9% entre mulheres brancas. A pesquisa também constatou que quanto maior o nível de escolaridade, maior a chance de completar o pré-natal, enquanto mulheres sem escolaridade apresentaram os piores indicadores. Entre as adolescentes, a cobertura de oito consultas foi menor, possivelmente porque muitas descobrem a gravidez mais tardiamente.
Segundo a Dra. Lilian de Paiva Rodrigues Hsu, ginecologista, presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), essas diferenças refletem fatores que vão muito além da assistência médica. “As desigualdades no pré-natal são consequência de fatores sociais, econômicos e estruturais, que limitam o acesso das mulheres negras aos serviços de saúde. Cerca de 80% delas dependem exclusivamente do SUS, possuem menor escolaridade e, frequentemente, vivem em condições de maior vulnerabilidade social. Além disso, o racismo institucional ainda representa uma barreira importante para o acesso e a continuidade da assistência durante a gestação“, afirma.
A especialista destaca que as disparidades também aparecem na qualidade das orientações recebidas durante o acompanhamento pré-natal. Mulheres negras apresentam 23% menos chances de receber orientações sobre o trabalho de parto, 22% menos chances de serem informadas sobre sinais de risco obstétrico e 33% menos chances de receber orientações sobre aleitamento materno, comprometendo sua autonomia e segurança durante a gestação.
“O atendimento humanizado é uma ferramenta indispensável para reduzir essas desigualdades. A gestante precisa ser acolhida, respeitada e receber informações claras sobre sua gravidez, seus direitos, os sinais de alerta e a maternidade onde será atendida. Garantir informação de qualidade também significa promover segurança e reduzir riscos para mãe e bebê“, ressalta a médica.
Para a Dra. Lilian, a promoção da equidade na saúde materna exige ações coordenadas em diferentes níveis do sistema de saúde. Entre as medidas prioritárias estão a implementação rigorosa das diretrizes do Programa de Humanização do Pré-natal e Nascimento, a ampliação do acesso nas regiões mais vulneráveis, o fortalecimento da atenção básica, a garantia da realização de todos os exames recomendados e o enfrentamento efetivo do racismo institucional.
“Reduzir as desigualdades raciais na assistência pré-natal exige políticas públicas direcionadas, qualificação permanente das equipes de saúde e estratégias específicas para combater as iniquidades de raça e cor. Toda gestante tem o direito de receber um atendimento seguro, acolhedor, humanizado e baseado em evidências científicas, independentemente de sua cor ou condição social“, conclui.