SUMMIT FEBRASGO Inovação em GO debate tecnologia, evidência e cuidado humano
16 out. de 2026
Reunindo especialistas para debates, troca de experiências e discussão sobre os avanços e desafios da inovação aplicada à Ginecologia e Obstetrícia, o SUMMIT FEBRASGO Inovação em GO contou com a presença de representantes de 24 das 27 federadas da entidade, nas sessões de 16 de outubro
A sessão foi aberta com a Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO, com o tema “Inovação em saúde da mulher deve unir tecnologia, evidência e cuidado humano”.
Inteligência artificial, medicina de precisão, novas tecnologias e ferramentas digitais já estão transformando a assistência em saúde. Mas inovar não significa simplesmente incorporar tudo o que é novo à prática médica. “Essa transformação precisa acontecer com senso crítico, baseada em evidências científicas e sem perder de vista segurança, ética, equidade e a relação entre médico e paciente”, declara a Dra. Maria Celeste.
A fala da presidente da FEBRASGO chama atenção para um princípio que deve acompanhar a incorporação de qualquer novidade: nem toda inovação depende de tecnologia e nem toda nova tecnologia representa, necessariamente, um avanço para a paciente. A inovação também pode estar na forma de organizar o cuidado, melhorar o acesso, evitar procedimentos desnecessários e oferecer uma assistência mais segura e individualizada.
Inteligência artificial: ferramenta não substitui responsabilidade médica
A inteligência artificial já pode contribuir para análise de exames, organização de informações e apoio à decisão clínica. O potencial é grande, mas a tecnologia não transfere para o algoritmo a responsabilidade pelas decisões tomadas no cuidado. A avaliação crítica do médico permanece indispensável, assim como a proteção da privacidade das pacientes e a atenção aos possíveis erros e vieses das ferramentas utilizadas. A responsabilidade final pela interpretação das informações e pela conduta continua sendo humana.
O mesmo raciocínio vale para a medicina de precisão. Informações genômicas, marcadores e características biológicas podem permitir tratamentos cada vez mais personalizados, mas não substituem elementos básicos da medicina, como história clínica, exame físico e conhecimento da realidade de cada mulher. Individualizar o cuidado também significa compreender seu contexto familiar e social, seus objetivos, suas crenças e suas preferências, preservando sua autonomia nas decisões sobre a própria saúde.
Novidade precisa ter evidência
Outro ponto destacado foi a necessidade de diferenciar inovação científica de tratamentos que ganham espaço antes de terem eficácia e segurança adequadamente demonstradas. A FEBRASGO tem defendido uma posição crítica diante de práticas que transformem mulheres em consumidoras de tratamentos sem comprovação suficiente. A avaliação deve considerar benefícios, riscos e qualidade das evidências disponíveis, especialmente diante da rápida disseminação de novidades nas redes sociais e no mercado da saúde. Nesse contexto, a Federação também vem participando de movimentos conjuntos com outras sociedades médicas para alertar sobre terapias cuja utilização ultrapassa o respaldo científico existente (leia aqui a Carta ao Rio de Janeiro, sobre implantes hormonais manipulados).
Entretanto, não basta desenvolver recursos cada vez mais sofisticados se os benefícios permanecerem restritos a uma parcela da população. A equidade foi apontada como parte inseparável do conceito de inovação. Novas tecnologias e modelos assistenciais precisam ser avaliados também sob a perspectiva de acesso e custo-efetividade, para que possam contribuir com a assistência em diferentes regiões do país.
Essa preocupação está relacionada a outras frentes da FEBRASGO, como os pactos pela redução da mortalidade materna e pela eliminação do câncer do colo do útero. A proposta é aproximar desenvolvimento científico e tecnológico dos problemas concretos enfrentados pelas mulheres brasileiras e evitar que a inovação amplie desigualdades já existentes.
“A transformação da medicina exige ainda profissionais preparados para avaliar criticamente as novas ferramentas. Além da formação clínica, as próximas gerações de ginecologistas e obstetras precisarão desenvolver competências digitais e capacidade para compreender limites, benefícios e riscos das tecnologias incorporadas à assistência”, comenta Dra. Maria Celeste.
A educação médica continuada ganha, portanto, ainda mais importância. Não basta saber utilizar uma ferramenta: é necessário entender quando ela acrescenta valor ao cuidado e quando pode levar a exames, tratamentos ou gastos desnecessários. Paradoxalmente, a tecnologia também pode abrir espaço para uma medicina mais humana. Ao reduzir tarefas administrativas e facilitar determinadas etapas da assistência, ferramentas digitais podem devolver tempo ao médico para aquilo que nenhuma tecnologia substitui: ouvir, examinar, compreender e compartilhar decisões com a paciente.
A mensagem que encerra a reflexão é justamente essa: o futuro da Ginecologia e Obstetrícia certamente terá mais tecnologia, mas o centro do cuidado continuará sendo a mulher. Inovar significa incorporar avanços com responsabilidade, evitar intervenções desnecessárias e fazer com que os benefícios da transformação da medicina cheguem, de fato, às mulheres de todas as regiões do Brasil.