Quando um coágulo é um alerta: trombose pode revelar doenças ainda não diagnosticadas

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Quando um coágulo é um alerta: trombose pode revelar doenças ainda não diagnosticadas

09 out. de 2026

No Dia Mundial de Combate ao Tromboembolismo Venoso, especialista da FEBRASGO explica quando é preciso investigar outras doenças

Uma trombose pode parecer um problema isolado, mas, em alguns casos, o coágulo pode ser a primeira pista de que existe outra condição de saúde ainda não identificada. A ausência de um fator de risco conhecido, a ocorrência de novos episódios de trombose ou o aparecimento do coágulo em locais menos comuns estão entre as situações que podem levar o médico a ampliar uma investigação. Entre as possibilidades estão as trombofilias, as doenças autoimunes e até o câncer.

“Uma boa conversa com o paciente, considerando a história pessoal e familiar, junto com um exame físico bem feito, já orienta muito a investigação. Existem famílias, por exemplo, com vários casos de trombose, o que pode indicar uma alteração da coagulação que merece ser pesquisada”, explica Dra. Venina Isabel Poco Viana Leme De Barros, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada de Tromboembolismo Venoso e Hemorragia na Mulher da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.

O tema ganha destaque no Dia Mundial de Combate ao Tromboembolismo Venoso, celebrado em 13 de outubro, em um momento em que a prevenção também se fortalece no Brasil. Em junho deste ano, foi sancionada a Lei nº 15.448/2026, que determina que hospitais públicos, privados e unidades de saúde com internação mantenham uma estrutura destinada a promover ações de prevenção do tromboembolismo venoso. A medida entra em vigor em dezembro.

Dra. Venina conta que, desde 2014, um hospital de referência em São Paulo utiliza um questionário de avaliação de risco para identificar gestantes hospitalizadas com maior probabilidade de desenvolver trombose. A estratégia foi estudada em 10.694 avaliações e esteve associada a uma redução de 87% no risco de TEV.

O resultado também se refletiu na assistência. Segundo a especialista, desde a adoção do protocolo no referido hospital, não foram registradas mortes maternas por embolia pulmonar durante a internação ou nos três meses seguintes à alta. A própria FEBRASGO traz um protocolo para a prevenção da trombose na gestação e no puerpério.

“Cerca de 60% das tromboses estão relacionadas a uma hospitalização ocorrida nos 90 dias anteriores. Por isso, a internação é uma oportunidade importante para identificar os pacientes de maior risco e iniciar medidas de prevenção”, conta Dra. Venina.

Quando investigar

Nem todo episódio de trombose exige uma investigação extensa. Hospitalização, cirurgia, imobilização, gravidez, pós-parto e uso de determinados hormônios são fatores que podem explicar a formação do coágulo. Nesses casos, o contexto clínico ajuda a identificar o motivo. A situação muda quando a trombose aparece sem um desencadeante conhecido. Tromboses recorrentes, histórico familiar importante e coágulos em locais considerados atípicos, como vasos do abdome, membros superiores ou cérebro, podem indicar a necessidade de uma avaliação mais detalhada.

“É importante não olhar apenas para o coágulo. A idade, os medicamentos utilizados, outras doenças, a história obstétrica e até casos de trombose na família podem dar pistas sobre o que levou aquela paciente a desenvolver o evento”, informa a médica.

Entre as condições que podem ser investigadas estão as trombofilias e algumas doenças autoimunes, como a síndrome antifosfolípide, que pode aumentar a formação de coágulos nos vasos sanguíneos. Alguns tipos de câncer, como os de pulmão, estômago e pâncreas, também estão associados ao tromboembolismo, assim como certos tratamentos contra a doença. Isso, porém, não significa que uma trombose sem causa aparente seja, por si só, um sinal de câncer.

“Uma trombose espontânea pode chamar a atenção para uma investigação, mas a probabilidade de encontrar um tumor nesses pacientes é muito baixa. Não se trata de sair procurando câncer em todos os casos, e sim de avaliar o conjunto de sinais e a história clínica para decidir quando essa investigação faz sentido”, esclarece.

Ao longo da vida da mulher, fatores como uso de hormônios, gestação e pós-parto podem aumentar o risco de trombose e devem ser considerados na avaliação médica. “O uso de determinados métodos hormonais pode aumentar o risco de TEV, enquanto a gravidez eleva esse risco em cerca de quatro a cinco vezes”, ressalta a ginecologista. O histórico obstétrico também pode trazer pistas: duas ou mais perdas gestacionais, óbitos fetais ou casos de pré-eclâmpsia grave e precoce podem indicar a necessidade de investigar trombofilias, especialmente a síndrome antifosfolípide.

Essas informações ajudam o médico a entender a causa da trombose e a definir a conduta em cada caso. “A avaliação deve considerar o conjunto de fatores de risco e a forma como o evento aconteceu, para identificar os casos em que o coágulo pode ser um sinal de que algo mais precisa ser investigado”, conclui.

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