Muito além da cólica: por que o tratamento da endometriose precisa cuidar também das emoções
16 out. de 2026
- Dor crônica pode mudar a forma como o organismo responde aos estímulos e afetar relacionamentos, trabalho, vida sexual e saúde mental; especialista da FEBRASGO explica por que o cuidado precisa ir além das lesões
- 17 de outubro: Dia Mundial de Conscientização da Dor
Não é só a cólica. Para mulheres com endometriose, a dor pode ocupar espaços que vão muito além do período menstrual: interfere no trabalho, na vida sexual, nos relacionamentos, no lazer e até na forma como o corpo passa a perceber novos estímulos dolorosos. Quando esse quadro se prolonga por anos, cuidar apenas das lesões da doença pode não ser suficiente. No Dia Mundial de Conscientização da Dor, a FEBRASGO propõe uma discussão sobre um aspecto ainda pouco compreendido da endometriose: os efeitos da dor crônica sobre as emoções e como esses fatores podem se relacionar ao longo do tempo na vida da mulher.
“A dor crônica tem uma influência muito negativa levando à incapacidade física e psicológica, e comprometendo o desempenho das mulheres no trabalho, na vida pessoal e sexual”, diz a Dra. Márcia Mendonça Carneiro, ginecologista e vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.
A endometriose é uma doença inflamatória crônica que pode afetar até 10% das mulheres em idade reprodutiva. A dor é um de seus principais sintomas, mas sua intensidade nem sempre corresponde à extensão das lesões. Isso ocorre porque a dor é uma experiência individual e, quando persiste por muito tempo, pode envolver mudanças na maneira como o sistema nervoso responde aos estímulos e exercer uma profunda influência negativa na vida das mulheres.
O impacto emocional não deve ser confundido com a ideia de que a dor seria “psicológica”. Anos convivendo com sintomas, limitações e incertezas podem favorecer ansiedade, tristeza, frustração e afastamento de atividades. Ao mesmo tempo, esses fatores podem influenciar a percepção da dor.
“É comum que essas mulheres limitem suas atividades em função dos sintomas dolorosos. Muitas vezes, há um descompasso entre a intensidade da dor e a gravidade da doença, mas é preciso lembrar que a dor é um sintoma individual”, afirma a médica.
Segundo a especialista, 61% das mulheres com endometriose já ouviram de um médico que “não há nada de errado” e que “sentir dor é normal”. Além disso, 47% passaram por cinco ou mais médicos até obter um diagnóstico ou tratamento adequado. Reconhecer a dor e entender seus efeitos deve fazer parte da consulta. A chamada “normalização da dor” pode atrasar o diagnóstico e fazer com que a mulher passe anos acreditando que cólicas incapacitantes fazem parte da menstruação.
Dra. Márcia explica que dificuldades de acesso aos serviços de saúde, automedicação, falta de informação, vergonha e constrangimento, além da falta de apoio familiar, podem levar as mulheres a adiar ou até mesmo não buscar o tratamento adequado. “Conscientizar as mulheres e suas famílias sobre a validação da dor deixada como sequela da endometriose pode ajudar a combater essa realidade”, enfatiza.
Como a dor pode ter diferentes causas, nem sempre um único tratamento é suficiente para proporcionar alívio completo. Por isso, o cuidado deve ser individualizado e, quando necessário, envolver uma equipe multidisciplinar, com especialistas em dor, ginecologistas, fisioterapeutas do assoalho pélvico e psicólogos, além de recursos como medicamentos, acupuntura, atividade física e hábitos saudáveis de alimentação e estilo de vida.
A necessidade de compreender os impactos da dor de uma forma mais ampla está no centro de uma pesquisa da qual a ginecologista participa atualmente. O estudo, realizado em parceria com pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, da Unicamp e da Unesp de Botucatu, busca traduzir e validar para o português do Brasil, o Endometriosis Impact Questionnaire (EIQ). O questionário tem 63 perguntas e avalia seis áreas da vida das pacientes: aspectos físicos, psicológicos, sexuais, reprodutivos, educacionais e profissionais.
“A proposta é entender como a endometriose interfere em diferentes fases da vida das mulheres e, a partir desses dados, contribuir para estratégias que reduzam seus impactos”, ressalta. A pesquisa reforça uma mudança importante na forma de olhar para a doença: além de identificar e tratar as lesões, é preciso entender o que a endometriose representa na vida de cada paciente.
“Sentir dor não é normal. Há métodos eficazes e seguros que podem ser realizados e, embora não haja tratamento que resolva a dor por completo, é possível obter alívio e melhorar significativamente a qualidade de vida das mulheres”, conclui a médica.