Sífilis na gestação: tratamento do parceiro é essencial para evitar reinfecção e proteger o bebê
16 out. de 2026
- Especialista da FEBRASGO alerta que cuidar apenas da gestante não é suficiente para interromper a cadeia de transmissão da doença
- 19 de outubro: Dia Nacional de Combate à Sífilis
Uma gestante recebe o diagnóstico de sífilis, faz o tratamento correto e segue o pré-natal. Mas e se o parceiro estiver infectado e não souber? “Se ele não for testado e tratado a gestante pode ser reinfectada e transmitir a sífilis ao bebê. Por isso, o cuidado deve envolver também o parceiro”, explica Dr. Regis Kreitchmann, ginecologista e obstetra, presidente da Comissão Nacional Especializada em Doenças Infectocontagiosas da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. O alerta ganha extrema importância no Dia Nacional de Combate à Sífilis, lembrado em 19 de outubro.
A sífilis é uma infecção causada pela bactéria Treponema pallidum. Embora tenha diagnóstico acessível e tratamento eficaz, a doença ainda representa um importante problema de saúde pública no país. De acordo com o Boletim Epidemiológico de Sífilis 2025, foram registrados 256.830 casos da doença adquirida no Brasil em 2024. No mesmo ano, foram notificadas 89.724 gestantes com sífilis e 24.443 casos de sífilis congênita.
O cenário é ainda mais preocupante quando se olha para o impacto sobre os bebês. A taxa de sífilis congênita chegou a 9,6 casos por mil nascidos vivos em 2024, enquanto o parâmetro usado para a eliminação da doença é de 0,5 caso por mil nascidos vivos. No mesmo ano, foram registrados 2.496 desfechos desfavoráveis associados à sífilis congênita, incluindo abortos e natimortos.
Para o médico da FEBRASGO, uma das medidas mais importantes para mudar esse cenário é evitar que a gestante seja novamente exposta à bactéria depois de tratada. “Temos que acessar o parceiro e fazer um bom tratamento para além do tratamento da gestante, pois ele pode ter sífilis, mesmo sem saber”, explica Kreitchmann.
Um dos desafios para interromper a transmissão é que a sífilis pode não apresentar sintomas. A doença pode causar uma ferida nos órgãos genitais, no ânus ou em outras partes do corpo. Em geral, essa lesão não dói e pode desaparecer sozinha, mesmo sem tratamento. Em outras fases, podem surgir manchas pelo corpo, inclusive nas palmas das mãos e plantas dos pés, além de queda de cabelo. Depois, a infecção pode entrar em um período sem sintomas. Mesmo assim, a bactéria continua presente no organismo.
“A doença tem um período de latência em que o treponema não dá sintomas e o diagnóstico é feito pelo exame de sangue. Por isso, não podemos depender apenas da presença de sinais para identificar a sífilis”, ressalta o especialista. O teste é rápido e simples. Basta uma gota de sangue e o resultado sai em poucos minutos. Na gestação, o exame deve ser realizado no início do pré-natal e repetido ao longo da gravidez, já que a mulher pode se infectar depois de um primeiro resultado negativo.
A sífilis passa da gestante para o bebê pela placenta em qualquer fase da gravidez. Sem tratamento ou quando ele é feito de forma inadequada ou tardia, a infecção pode causar aborto, morte fetal e sífilis congênita. O bebê pode precisar de internação e tratamento e, em alguns casos, ficar com sequelas.
Os dados do Boletim Epidemiológico mostram também que ainda existem falhas no diagnóstico durante o pré-natal. Em 2024, cerca de 82,8% das mães de crianças com sífilis congênita fizeram pré-natal. No entanto, apenas 58,1% receberam o diagnóstico durante a gestação. Em 31,8% dos casos, a doença só foi identificada no parto ou na curetagem, e em 6,1%, após o parto.
O tratamento correto é fundamental para reduzir o risco de transmissão para o bebê e deve ser iniciado até 30 dias antes do parto. A recomendação é utilizar a medicação penicilina G benzatina, conhecida como Benzetacil, conforme o estágio da doença, com o esquema completo e os intervalos corretos entre as doses. “Se o intervalo da medicação não for respeitado, pode ser necessário reiniciar o tratamento”, explica Dr. Regis. Ainda assim, em 2024, em torno de 85,7% das mães de crianças com sífilis congênita tiveram tratamento inadequado ou não receberam tratamento.
Em caso de infecção, o ginecologista recomenda evitar relações sexuais ou usar preservativo durante todo o tratamento, conforme orientação profissional. A testagem deve fazer parte do planejamento da gravidez e do pré-natal. O exame é indicado na primeira consulta e deve ser repetido ao longo da gestação. “Muitas vezes a mulher não tem sífilis, mas o parceiro tem, por isso o teste deve ser oferecido a ele também. Testar e tratar corretamente é uma forma de evitar que a mulher se infecte e de proteger também o bebê”, conclui o médico.