Quando o cuidado não chega, a violência também acontece: mulheres de regiões remotas seguem expostas à falta de assistência
09 out. de 2026
- Longas distâncias, ausência de pré-natal, falhas no rastreamento do câncer do colo do útero e dificuldade de acesso à contracepção ampliam desigualdades e podem transformar a falta de cuidado em violação de direitos
- 10 de outubro é o Dia Nacional de Luta contra violência à Mulher
Para milhares de mulheres que vivem longe dos grandes centros, especialmente na Região Norte, chegar a um serviço de saúde pode significar enfrentar horas de barco ou estrada, depender do nível dos rios e arcar com custos de transporte, alimentação e hospedagem. Quando esse acesso falha, as consequências podem ir de um diagnóstico tardio até complicações graves na gestação e no parto.
Para a Dra. Hilka Flavia Barra do Espírito Santo Alves Pereira, vice-presidente da Região Norte da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), a discussão sobre violência contra a mulher também precisa incluir situações em que o cuidado básico não chega. “Quando a mulher não tem acesso a aquilo de que precisa para cuidar da própria saúde, há uma violação de direitos. Essa falta de acesso interfere diretamente na cadeia de cuidado e pode determinar um prognóstico pior”, afirma.
Um dos exemplos mais claros, segundo a ginecologista, é o câncer do colo do útero. Trata-se de uma doença que pode ser amplamente prevenida por vacinação contra o HPV e rastreamento adequado. Quando essas duas frentes não chegam às mulheres, sobretudo por falhas na atenção primária, aumenta o risco de diagnóstico tardio. “Se essa mulher não tem acesso à vacinação e ao rastreamento, e por consequência desenvolve uma doença que poderia ter sido evitada ou diagnosticada precocemente, ela sofreu uma violência institucional”, diz.
Distância também adoece – Na Região Norte, a geografia impõe desafios adicionais. Há cidades sem acesso por estrada e comunidades em que o deslocamento depende exclusivamente dos rios. Em períodos de cheia ou vazante, o acesso pode se tornar ainda mais difícil. “Temos municípios em que a mulher está a 10 ou 12 dias de barco para um centro de referência. Se ela entra em trabalho de parto ou tem uma complicação, esse tempo pode fazer diferença para a vida dela e do bebê”, explica Dra. Hilka.
A escassez de profissionais também agrava o problema. Em muitas localidades, faltam médicos, enfermeiros e serviços estruturados para atendimento ginecológico e obstétrico. Como consequência, algumas mulheres acabam parindo em casa, com parteiras ou até sozinhas, sem assistência obstétrica adequada. Para a especialista, essa dificuldade de acesso tem relação direta com a mortalidade materna e neonatal e não pode ser tratada apenas como uma limitação logística.
Pré-natal, contracepção e atendimento após violência sexual também são direitos
A ausência de pré-natal adequado, rastreamento do câncer, métodos contraceptivos e atendimento após violência sexual também pode produzir danos evitáveis. “Quando o Estado não oferece essas condições, cria-se uma lacuna de assistência. A mulher pode perder a chance de diagnosticar doenças maternas ou fetais, de prevenir uma gravidez não planejada ou de receber a profilaxia necessária após uma violência sexual”, afirma.
No caso das vítimas de violência sexual, o atraso ou a ausência de atendimento pode aumentar o risco de gravidez indesejada e de infecções sexualmente transmissíveis, além de aprofundar o sofrimento físico e emocional.
Para mulheres que vivem em áreas remotas, buscar assistência muitas vezes exige abandonar temporariamente a própria rotina e a rede familiar. Há gastos com transporte, alimentação e hospedagem, além da necessidade de encontrar quem cuide dos filhos durante a ausência. “O correto seria que essa mulher pudesse receber atendimento digno e adequado onde vive. Isso é um princípio do SUS”, afirma Dra. Hilka.
Segundo ela, reduzir essa desigualdade exige investimento em infraestrutura, serviços locais e condições capazes de atrair e manter profissionais qualificados no interior. “Não basta existir um serviço no papel. É preciso haver estrutura física, equipe capacitada e condições para que esses profissionais permaneçam nesses municípios”, destaca.
FEBRASGO reforça pactos contra mortalidade materna e câncer do colo do útero
A discussão também se conecta a duas frentes prioritárias da FEBRASGO: a redução da mortalidade materna e a eliminação do câncer do colo do útero. A entidade vem trabalhando em pactos específicos sobre esses temas, com ações de orientação aos profissionais e articulação junto ao Ministério da Saúde.
“São duas situações que atingem mulheres todos os dias e que podem ser reduzidas com acesso, prevenção e assistência adequada. O papel da FEBRASGO é contribuir para que esse cuidado chegue de forma mais igualitária às mulheres em todo o Brasil”, finaliza Dra. Hilka.