Diabetes gestacional: condição afeta cerca de 14% das gestações e sintomas nem sempre são evidentes
26 jun. de 2026
- 26 de junho é o Dia Nacional do Diabetes
- Orientação nutricional individualizada associada à atividade física representa a principal estratégia de controle
O diabetes gestacional é uma das complicações clínicas mais frequentes durante a gravidez e exige atenção especial das gestantes e das equipes de saúde. Caracterizada pelo aumento dos níveis de glicose no sangue identificado pela primeira vez durante a gestação, a condição pode trazer riscos importantes para a mãe e para o bebê quando não é diagnosticada e tratada adequadamente.
Segundo a ginecologista e obstetra Dra. Elaine Christine Dantas Moisés, presidente da Comissão Nacional Especializada (CNE) em Hiperglicemia e Gestação da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, o diabetes gestacional ocorre quando o organismo da gestante não consegue produzir ou utilizar adequadamente a insulina necessária para acompanhar as mudanças metabólicas próprias da gravidez.
” Durante a gravidez, o organismo da mulher passa por importantes adaptações hormonais e metabólicas. Quando a produção ou a ação da insulina não é suficiente para acompanhar essas mudanças, ocorre o diabetes mellitus gestacional. Trata-se de uma das complicações mais frequentes da gravidez, afetando aproximadamente 14% das gestações em todo o mundo, de acordo com as pesquisas mais recentes, embora essa frequência varie conforme a população estudada e os critérios diagnósticos utilizados.”, explica a especialista.
Algumas mulheres apresentam maior probabilidade de desenvolver diabetes gestacional devido à presença de fatores de risco clínicos e metabólicos , entre eles sobrepeso ou obesidade antes da gravidez, histórico prévio de diabetes gestacional, pré-diabetes, síndrome dos ovários policísticos, idade materna avançada, histórico familiar de diabetes, hipertensão arterial, alterações do colesterol e antecedentes obstétricos específicos, como bebês com peso elevado ao nascer.
Diagnóstico precoce é fundamental
Uma das principais dificuldades relacionadas ao diabetes gestacional é que, na maioria dos casos, a doença não apresenta sintomas evidentes. Por isso, o acompanhamento pré-natal e a realização dos exames recomendados são fundamentais para identificar o problema precocemente.
“O diabetes gestacional frequentemente evolui de forma silenciosa, sem sintomas evidentes. Além disso, uma parcela significativa das mulheres diagnosticadas não apresenta fatores de risco clássicos para a doença. Por essa razão, o rastreamento universal durante o pré-natal é considerado uma estratégia essencial para identificar precocemente os casos e garantir o tratamento adequado, contribuindo para uma gestação mais segura e melhores desfechos maternos e neonatais”, ressalta Dra. Elaine.
No Brasil, recomenda-se que todas as gestantes sejam avaliadas para diabetes desde o início do pré-natal por meio da glicemia de jejum. Quando o resultado é normal, deve-se realizar entre a 24ª e a 28ª semana de gestação o Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG) com 75 gramas de glicose, exame fundamental para o diagnóstico do diabetes gestacional. Esse exame é fundamental para identificar casos de diabetes gestacional que podem se desenvolver ao longo da gravidez. Quando não diagnosticado ou tratado adequadamente, o diabetes gestacional pode aumentar significativamente o risco de complicações para a mãe e para o bebê, tanto durante a gestação quanto após o nascimento. Entre as possíveis consequências para a mãe estão hipertensão arterial, pré-eclâmpsia, parto prematuro, excesso de líquido amniótico, maior necessidade de cesariana e aumento do risco de desenvolver diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares futuramente.
Já para o bebê, os riscos incluem crescimento excessivo dentro do útero, dificuldades no parto, hipoglicemia neonatal, desconforto respiratório, icterícia e necessidade de internação em unidade neonatal.
“Diversos estudos demonstram também que a exposição do bebê à hiperglicemia durante a gestação pode aumentar o risco de obesidade, diabetes tipo 2 e outras doenças cardiometabólicas ao longo da vida. Esse fenômeno contribui para um aumento do risco transgeracional associado ao diabetes gestacional, com potenciais repercussões para a saúde das futuras gerações”, destaca Dra. Elaine.
Apesar dos riscos, especialistas reforçam que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado permitem que a grande maioria das mulheres tenha uma gestação saudável.
O tratamento do diabetes gestacional tem como base a adoção de hábitos de vida saudáveis, incluindo alimentação equilibrada, prática regular de atividade física quando não houver contraindicação obstétrica, monitorização da glicemia e acompanhamento multiprofissional. Quando essas medidas não são suficientes para atingir as metas glicêmicas recomendadas, pode ser necessário o uso de medicamentos, sendo a insulina considerada a terapia de primeira escolha durante a gestação.
“A orientação nutricional individualizada e prática de atividade física, quando não houver contraindicação clínica ou obstétrica, representam a principal estratégia de tratamento do diabetes gestacional. O acompanhamento contínuo da gestante, com monitorização dos níveis glicêmicos e vigilância do bem-estar materno e fetal, permite avaliar a resposta ao tratamento e realizar os ajustes necessários ao longo da gravidez. Quando as metas glicêmicas não são alcançadas apenas com o tratamento não farmacológico que inclui mudanças no estilo de vida, o tratamento medicamentoso deve ser indicado para reduzir os riscos de complicações e promover melhores desfechos para a mãe e o bebê””, explica a especialista.
A médica ressalta que o diabetes gestacional não deve ser encarado apenas como uma condição temporária da gravidez. “Além dos cuidados durante a gestação, o acompanhamento após o parto é fundamental. Essa condição representa uma importante oportunidade para identificar mulheres com maior risco cardiometabólico e implementar estratégias de prevenção ao longo da vida. Com diagnóstico precoce, tratamento adequado e seguimento contínuo, é possível promover benefícios duradouros para a saúde da mãe e também para a saúde futura da criança”, conclui a obstetra.