CBGO 2026 debate hormoniologia, terapias alternativas e avanços no tratamento da obesidade feminina

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CBGO 2026 debate hormoniologia, terapias alternativas e avanços no tratamento da obesidade feminina

01 jun. de 2026

A FEBRASGO reforça a importância da formação médica baseada em evidências e alerta para práticas que não possuem reconhecimento científico. O tema foi destaque durante uma aula ministrada pelo Dr. Marcelo Luis Steiner, ginecologista e diretor Financeiro da FEBRASGO, intitulada “O que rola nas redes: hormoniologia e terapias alternativas”.

Um dos pontos de atenção levantados pelo especialista é o uso do termo “hormonologia”. Segundo o Dr. Marcelo, a nomenclatura é incorreta e não constitui uma especialidade médica. “Em geral, trata-se de cursos de fim de semana, sem aprofundamento científico adequado. Já para se tornar especialista e obter habilitação reconhecida, é necessário fazer cursos de longa duração, com carga horária obrigatória definida pela Associação Médica Brasileira (AMB). Ou seja, é um contexto completamente diferente entre o que é um especialista e quem eventualmente se atrai por praticar a chamada hormonologia”, destaca o diretor.

O especialista também abordou a difusão do chamado “chip da beleza”, termo cunhado para estratégias de marketing. Sobre a gestrinona, frequentemente utilizada nesses dispositivos, o Dr. Marcelo explica que, embora seja uma molécula conhecida e com características próprias, o seu uso em implantes ainda carece de validação científica. “Atualmente, o uso da gestrinona em implantes não possui evidências suficientes para sabermos, com segurança, se é realmente eficaz e segura. É complicado comercializar ou oferecer esse tratamento sem dados consistentes”, afirma.

Efeitos adversos e a importância da informação – Para ilustrar a necessidade de cautela, o diretor da FEBRASGO citou o estudo GLADE, que avaliou mulheres usando implante de gestrinona associado a DIU hormonal em comparação ao uso isolado do DIU. Embora não tenham ocorrido eventos adversos graves, o grupo que utilizou a gestrinona apresentou estatisticamente mais efeitos colaterais de caráter androgênico, com destaque significativo para a alopecia (queda de cabelo).

“Imagine conversar com a paciente e dizer: ‘Pode ser uma estratégia terapêutica interessante, mas existe risco de queda de cabelo’. A decisão final é da paciente, claro, mas ela precisa estar plenamente informada”, pontua o Dr. Marcelo.

O estudo também apontou que a diferença de satisfação entre os grupos após 24 semanas foi de apenas 9% (80% nas usuárias do implante contra 71% no grupo controle). Para o médico, esse ganho não é expressivo o suficiente para que questões de segurança sejam ignoradas. “A fake news é justamente dizer que ‘é ótimo’, ‘só traz benefícios’ ou ‘vai mudar sua vida’. Isso não é verdade”, alerta.

A prescrição de testosterona para mulheres também foi alvo de esclarecimentos durante a aula. O Dr. Marcelo rebateu desinformações disseminadas nas redes sociais que estabelecem parâmetros irreais para os níveis séricos ideais. Ele explica que a testosterona feminina cai naturalmente entre os 30 e 60 anos, mas permanece baixa por ser um hormônio predominantemente masculino.

Buscar níveis elevados, segundo o médico, pode expor as pacientes a doses suprafisiológicas. Além disso, a relação entre testosterona baixa e sintomas não é linear. O diretor também classificou como inadequada a tentativa de justificar o uso em mulheres cisgênero comparando-o ao tratamento de homens trans. “Homens trans em uso de testosterona apresentam, sim, riscos aumentados, inclusive de mortalidade, infarto agudo do miocárdio e AVC. A diferença é que, nesse contexto, existe uma questão de identidade de gênero envolvida, o que torna a comparação inadequada e desonesta”, esclarece.

Por fim, o Dr. Marcelo Steiner ressaltou que o único implante hormonal com aprovação comercial regular atualmente é o de etonogestrel (Implanon). Dispositivos contendo testosterona, estradiol ou gestrinona são manipulados, sem segurança científica. É preciso ter muito cuidado com o que se vê nas redes.

 

SBEM traz SOP ao debate e a importância das ‘canetas’ para perda de peso

E falando em hormônios, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia esteve representada pelo Dr. Clayton Macedo, diretor da entidade. Ele participou de debate sobre a Síndrome dos Ovários Policísticos, conhecida como SOP, que tem sido cada vez mais compreendida a partir de seu componente metabólico, tanto que agora se chama SOMP: síndrome ovariana metabólica poliendócrina.

A mudança no olhar ocorre porque, na base da SOMP, existem rotas geneticamente alteradas que podem favorecer obesidade, resistência à insulina, maior risco de diabetes e aumento do risco cardiovascular. Esse entendimento reforça que a síndrome não deve ser observada apenas pelo aspecto ovariano, até porque nem todas as pacientes apresentam cistos nos ovários.

O tratamento da obesidade em mulheres – Dr. Clayton também deu uma conferência sobre sobre novos medicamentos para tratar a obesidade, as chamadas ‘canetas’. Essas medicações são derivadas de hormônios intestinais, como o GLP-1 e o GIP, liberados pelo organismo após a alimentação. Eles atuam aumentando a saciedade, reduzindo o apetite e melhorando aspectos do metabolismo, inclusive relacionados à gordura corporal. Por isso, vêm revolucionando o tratamento do diabetes, da obesidade e de doenças metabólicas.

“Nas mulheres, a resposta a esses medicamentos pode ser ainda mais favorável por diferentes mecanismos. O estrogênio parece interagir com esses agonistas, potencializando alguns efeitos. Além disso, como as mulheres geralmente têm menor compleição física, a mesma dose utilizada em homens pode ter um efeito proporcionalmente maior. Outro ponto é que, em geral, as mulheres apresentam maior percentual de tecido adiposo, e essas medicações promovem uma perda mais seletiva de gordura, ainda que também possa haver perda de massa magra”, explica Dr. Clayton.

Segundo ele, os dados disponíveis apontam um cenário bastante promissor. Para a saúde da mulher, esse avanço representa uma oportunidade importante de ampliar o cuidado, especialmente em pacientes com alterações metabólicas. O tratamento, no entanto, deve sempre ser individualizado, com avaliação médica adequada, considerando riscos, benefícios e o contexto clínico de cada paciente.

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