SUMMIT FEBRASGO inovação em GO aborda wearables, modelos assistenciais e robótica

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SUMMIT FEBRASGO inovação em GO aborda wearables, modelos assistenciais e robótica

16 out. de 2026

A sessão “GO da próxima década” apresentada durante o SUMMIT trouxe uma visão do que já existe e do que será possível dentro da especialidade em termos de avanço de tecnologia, sobretudo as IAs.

 

Wearables, sensores e saúde contínua da mulher – Relógios inteligentes, aplicativos de ciclo menstrual, monitores de glicose, rastreadores de sono e outros dispositivos já fazem parte da rotina de muitas mulheres. Na Ginecologia, essas ferramentas podem ajudar a acompanhar mudanças que acontecem entre uma consulta e outra, mas também levantam uma questão importante: quando o monitoramento realmente melhora o cuidado e quando passa a gerar apenas excesso de vigilância?

Esse foi um dos pontos discutidos pela ginecologista e obstetra Dra. Aline Marques de Souza na aula “Wearables, sensores e saúde contínua da mulher”, que trouxe uma série de exemplos de dispositivos vestíveis (wearables). Segundo a especialista, pacientes chegam cada vez mais ao consultório com dados produzidos por relógios, celulares e sensores, muitas vezes acompanhados de interpretações automáticas feitas por algoritmos.

Na Ginecologia, que acompanha ciclos, transições e diferentes fases da vida, esse tipo de informação pode ser útil, especialmente em situações como fertilidade, investigação de ciclos anovulatórios e acompanhamento de sintomas ao longo do tempo. Mas é fundamental diferenciar aquilo que o dispositivo realmente mede daquilo que o algoritmo interpreta.

Temperatura, frequência cardíaca, movimento e glicose, em determinados aparelhos, são dados mensuráveis. Já informações como ovulação, estresse ou recuperação física podem ser estimativas. A avaliação clínica, o diagnóstico e a decisão sobre tratamento continuam sendo responsabilidade do médico.

Antes de incorporar um dado produzido por wearable, é preciso avaliar se o equipamento mede corretamente, se foi utilizado de forma adequada, se aquela informação tem validade clínica e, principalmente, se vai mudar alguma conduta ou melhorar algum desfecho.

Outro ponto de atenção é que nem todo aplicativo pode ser considerado um dispositivo médico. Aplicativos de ciclo menstrual, por exemplo, não são automaticamente métodos contraceptivos. Isso vale também para tecnologias que prometem diagnosticar menopausa, medir glicose diretamente pelo relógio ou avaliar bem-estar fetal em casa. Alguns dispositivos podem ser úteis como apoio, mas não substituem exames e métodos já validados.

Por outro lado, algumas tecnologias já têm aplicações mais consolidadas em grupos específicos. O monitoramento contínuo da glicose, por exemplo, pode trazer benefícios para determinadas pacientes, como gestantes com diabetes tipo 1. O cuidado está em não extrapolar esses resultados para mulheres saudáveis sem indicação clínica.

A fertilidade também é uma das áreas em que sensores e testes domiciliares podem facilitar o acompanhamento. Já existem dispositivos capazes de monitorar hormônios relacionados ao ciclo e reduzir a necessidade de deslocamentos frequentes para coleta laboratorial em algumas situações.

Apesar do potencial dessas ferramentas, o excesso de dados pode aumentar ansiedade e transformar pequenas variações fisiológicas em alertas constantes. Por isso, a indicação deve ter objetivo claro, prazo definido e acompanhamento profissional.

A mensagem final da aula foi direta: mais dados não significam, necessariamente, melhor cuidado. O desafio para o ginecologista será saber o que merece ser monitorado, como interpretar essas informações e quando a tecnologia realmente acrescenta valor à assistência. “O futuro pertence ao ginecologista que sabe o que merece ser monitorado. Muito do que a gente faz é conversar com a paciente. Isso vale muito. Podemos ter acesso a dados melhores, dados contínuos, mas temos que saber colocar o freio” alerta a médica.

 

Do hospital às plataformas de cuidado: novos modelos assistenciais – O psiquiatra da Escola Paulista de Medicina, Dr. Luiz Henrique Junqueira Dieckmann, falou sobre como telessaúde, monitoramento remoto, inteligência artificial e dispositivos conectados já permitem acompanhar pacientes fora do ambiente hospitalar em diversas situações. Mas a ampliação desse cuidado exige critérios claros, equipamentos validados e definição de quem será responsável por interpretar os dados e agir diante de um alerta.

Na Ginecologia e Obstetrícia, esse modelo pode ter aplicação em situações como hipertensão gestacional estável, diabetes gestacional e acompanhamento do puerpério. Há estudos mostrando, por exemplo, aumento importante na frequência de aferições de pressão arterial após a alta hospitalar quando o acompanhamento é feito por mensagens e monitoramento remoto. Ainda assim, mais dados não significam necessariamente melhores desfechos clínicos.

O mesmo cuidado vale para dispositivos usados em casa. Smartwatches e outros wearables podem oferecer informações úteis, mas não substituem equipamentos médicos validados. Uma balança de bioimpedância doméstica, por exemplo, pode ajudar a acompanhar tendências ao longo do tempo, mas não tem a mesma precisão de métodos considerados padrão de referência.

O pré-natal híbrido também aparece como possibilidade. Estudos com consultas por telessaúde não mostraram piora importante em alguns desfechos obstétricos, mas a avaliação presencial continua necessária em diferentes momentos, especialmente para exame físico, queixas agudas e situações de maior risco.

Outro desafio é organizar o fluxo de informação. Se uma paciente envia uma pressão alterada durante a madrugada, é preciso saber quem recebe o alerta, em quanto tempo deve responder e qual conduta será tomada. Sem essa estrutura, o excesso de dados pode gerar mais problemas do que soluções.

A inteligência artificial pode ajudar a documentar, organizar, resumir e triar informações, reduzindo parte da carga burocrática sobre o médico. Mas todo conteúdo gerado precisa ser revisado e validado pelo profissional. “Não se pode simplesmente aceitar cegamente”, diz Dr. Luiz.  A tecnologia pode economizar tempo e apoiar o cuidado, mas não substitui formação médica, avaliação clínica e decisão individualizada.

 

Cirurgia inteligente: robótica e IA avançam, mas decisão continua nas mãos do cirurgião – Robótica, automação e análise de vídeo já estão transformando a cirurgia ginecológica, mas a incorporação dessas tecnologias precisa estar sempre ligada à segurança, ao benefício clínico e à experiência da equipe. Esse foi o assunto da aula sobre o futuro da cirurgia inteligente, ministrada pelo Dr. Mariano Tamura Vieira Gomes, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endoscopia Ginecológica da FEBRASGO.

Segundo o especialista, a tecnologia pode ajudar no mapeamento anatômico, na identificação de estruturas e no envio de alertas ao cirurgião, aumentando a precisão em determinadas tarefas. A inteligência artificial aplicada à análise de vídeos cirúrgicos, por exemplo, já demonstrou capacidade de reconhecer etapas de procedimentos e melhorar a detecção de estruturas como bexiga e ureter, sobretudo entre profissionais menos experientes.

O avanço da automação também ocorre em níveis. Hoje, a maior parte dos sistemas robóticos funciona como ferramenta comandada pelo médico, mas já existem aplicações em que a máquina executa tarefas mais padronizadas com grande precisão. Níveis mais altos de autonomia ainda pertencem ao futuro e, para o Dr. Mariano, a substituição completa do cirurgião é pouco provável.

“A relação humano-máquina tem que ser uma relação harmônica”, afirmou. Para ele, o papel do cirurgião não desaparece: passa também a incluir a avaliação crítica das informações produzidas pelos sistemas, a supervisão da tecnologia e a decisão sobre quando ela realmente agrega valor ao cuidado.

O especialista reforçou ainda que experiência e volume cirúrgico continuam sendo determinantes para melhores resultados, mesmo em um cenário de alta tecnologia. “A segurança não se abre mão”, destacou. A incorporação de novas ferramentas, portanto, deve considerar desempenho do algoritmo, interação com o cirurgião, custo-efetividade e, acima de tudo, benefício real para a paciente.

 

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