SUMMIT FEBRASGO Inovação em GO traz, pela primeira vez, a sessão meio-ambiente e saúde feminina
16 out. de 2026
O Summit FEBRASGO incluiu, de forma inédita, uma sessão dedicada à relação entre o meio-ambiente e a saúde da mulher. A Dra. Maria Celeste Osório Wender, presidente da FEBRASGO, abriu a sessão comentando que a decisão de incluir essa pauta no SUMMIT FEBRASGO Inovação em GO de 2026 foi inspirada no comitê de preocupação ambiental e modificações climáticas e a sua relação com a saúde da mulher da FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia).
O Dr. Paulo Hilário Nascimento Saldiva – médico patologista, professor e pesquisador brasileiro sobre impactos da poluição do ar e das mudanças climáticas na saúde humana – foi convidado para o evento e trouxe reflexões importantes aos Ginecologistas e Obstetras presentes.
Para ele, o pré-natal e a gestação são períodos fundamentais para a programação biológica, comportamental e neurológica do indivíduo. O desenvolvimento humano é modulado tanto pela genômica herdada quanto pelos estímulos e pela organização do ambiente em que a pessoa se desenvolve.
O genoma humano evolui em um ritmo lento, enquanto o epigenoma responde e se adapta de forma muito mais rápida às transformações do meio ambiente. Como o ambiente urbano e climático muda em velocidade superior à nossa capacidade de adaptação genética, gera-se uma constante tensão evolutiva.
Dr. Saldiva comentou sobre os estudos com inalação de ar poluído versus ar filtrado mostram que a exposição materna e paterna a poluentes reduz a receptividade endometrial, aumenta o risco de perdas intrauterinas e abortos, reduz o peso do bebê ao nascer e altera a proporção de nascimentos entre machos e fêmeas.
Filhotes gerados em ambientes com alta poluição apresentam queda na reserva folicular (menor quantidade de óvulos) e alterações na periodicidade do ciclo reprodutivo. Em dados de fertilização humana, observou-se maior taxa de perda embrionária quando a coleta de gametas (óvulos ou sêmen) ocorreu em dias de maior poluição. Além disso, a qualidade do sêmen vem caindo ao longo de séries históricas por conta da poluição e do uso de pesticidas.
O patologista também comentou sobre: (1) pesquisas monitorando a exposição diária de trabalhadores urbanos (como taxistas), que demonstraram aumento rápido de marcadores inflamatórios e elevação da pressão arterial cerca de duas horas após picos de poluição; (2) análises teciduais em autópsias, que revelam a presença de compostos de plásticos (como o policloreto de vinil – PVC) impregnados em estruturas como a placenta e o bulbo olfatório; (3) um vazamento químico histórico em Seveso (Itália), que resultou em um período de quase dois anos em que nasceram predominantemente mulheres, e; (4) o exemplo das Olimpíadas de Pequim, cuja interrupção temporária das atividades industriais e do tráfego durante os Jogos Olímpicos de Pequim levou a um aumento comprovado do peso dos bebês ao nascer. Em contrapartida, cenários de queimadas e incêndios florestais estão diretamente associados a taxas mais altas de aborto espontâneo.
A “Síndrome Metabólica Urbana”
Para o Dr. Saldiva, quando a regulação urbana falha, a cidade desenvolve quadros comparáveis a distúrbios metabólicos: “diabetes” pelo consumo desenfreado de energia, “aterosclerose” por congestionamentos veiculares, “desidratação” durante secas prolongadas e “edemas/derrames” em episódios de enchentes.
Para ele, cabe aos profissionais de saúde expandir a prática clínica tradicional para uma “puericultura planetária”, promovendo a conscientização ambiental, a educação em saúde e a defesa de cidades mais sustentáveis.
Eventos extremos e resultados maternos e perinatais
Com participação da Dra. Mayara Floss, médica de família e comunidade em Santa Catarina, foram destacados eventos extremos que acabam por impactar de maneira severa a saude da mulher, principalmente, as gestantes.
Para Mayara, as mudanças climáticas representam o desafio sanitário central do século XXI. Eventos climáticos extremos afetam desproporcionalmente as mulheres em situação de vulnerabilidade, registrando-se um aumento expressivo de episódios de violência doméstica e contatos limitados com redes de proteção durante desastres.
Impactos do Calor Extremo – O Brasil registrou um aumento na média de dias quentes consecutivos (de 3 para 7 dias). Nas gestantes, o estresse térmico eleva o risco de distúrbios hipertensivos, pré-eclâmpsia, parto prematuro, restrição de crescimento fetal (PIG), natimortilidade e necessidade de cesarianas. Nas secas do Norte, a interrupção das hidrovias inviabiliza o transporte de gestantes de alto risco. Ademais, o calor compromete a estabilidade da rede elétrica e a cadeia de frio para armazenamento de vacinas.
O fenômeno El Niño intensifica secas no Norte e tempestades no Sul. Durante enchentes severas (como as ocorridas no Rio Grande do Sul), o alagamento de hospitais exige a busca por alternativas para partos seguros. A perda de medicações contínuas em evacuações apressadas agrava quadros crônicos, e a água contaminada eleva os casos de gastroenterite, leptospirose e hepatite E.
Dra. Mayara chama atenção para criação de planos de contingência nos serviços de saúde para secas e enchentes e a redução da pegada de carbono do próprio setor hospitalar — que representaria o 5º maior emissor global de gases de efeito estufa se fosse um país. No atendimento clínico, recomenda-se orientar gestantes sobre hidratação, abrigo e sinais de alerta no calor, aliando o cuidado à promoção de iniciativas socioambientais no SUS e ações comunitárias.
A Dra. Rívia Mara Lamaita, da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Assistida da FEBRASGO, deu aula sobre “Poluição, fertilidade e disruptores endócrinos: o que é evidência?”. Ela explicou que a exposição a substâncias químicas presentes no dia a dia e à poluição ambiental pode estar associada a alterações na saúde reprodutiva de homens e mulheres. Os possíveis efeitos incluem mudanças na qualidade dos espermatozoides e na função ovariana. No entanto, ainda não há evidências suficientes para atribuir todos esses problemas diretamente a essas exposições. “A gente não pode confundir exposição com causalidade”, alerta.
Os chamados disruptores endócrinos são substâncias químicas capazes de interferir na ação dos hormônios. Esses compostos podem estar presentes em produtos de higiene pessoal, cosméticos, embalagens, alimentos e no ambiente. A exposição pode ocorrer pela ingestão, pela inalação ou pelo contato com a pele.
A interferência hormonal pode afetar diferentes etapas da reprodução. Nas mulheres, os estudos investigam possíveis relações com alterações no ciclo menstrual, na ovulação e na reserva ovariana, que corresponde ao conjunto de óvulos disponíveis nos ovários. Nos homens, as pesquisas avaliam possíveis impactos na função testicular e na qualidade do sêmen, incluindo a concentração, a mobilidade e a forma dos espermatozoides.
Apesar dos sinais observados em pesquisas, a força das evidências varia conforme a substância, a dose, o tempo de exposição e o resultado avaliado. Muitos estudos são observacionais, ou seja, acompanham grupos de pessoas e identificam possíveis relações entre fatores ambientais e condições de saúde, mas não conseguem, por si só, comprovar que uma exposição causou determinado problema.
A médica também chamou a atenção para os limites dos exames disponíveis. Alterações em indicadores da reserva ovariana, por exemplo, nem sempre correspondem aos resultados de outros métodos de avaliação. Da mesma forma, a presença de determinadas substâncias no organismo não permite concluir, isoladamente, que elas sejam a causa da dificuldade para engravidar.
Na prática clínica, a orientação é investigar possíveis exposições ambientais e ocupacionais e recomendar a redução daquelas que podem ser evitadas. Essas medidas, porém, não devem gerar medo nem criar a expectativa de que a retirada de uma substância específica seja suficiente para recuperar a fertilidade. “Não há como prometer que a redução da exposição vai reverter uma queda da reserva ovariana ou uma insuficiência ovariana prematura”, destaca Dra. Rívia. Segundo ela, também não há base suficiente para recomendar exames de rastreamento de disruptores endócrinos para todas as pacientes ou tratamentos de desintoxicação com a promessa de aumentar as chances de gravidez.
A redução de exposições evitáveis pode fazer parte dos cuidados com a saúde, mas não deve substituir a investigação adequada da infertilidade nem atrasar o tratamento indicado. A avaliação médica precisa considerar fatores como idade, estilo de vida, histórico de saúde e condições reprodutivas de cada pessoa.
A principal mensagem do debate é que a relação entre ambiente e fertilidade exige pesquisa e orientação clínica baseadas em evidências. Conhecer os riscos possíveis é importante, mas distinguir associação de causa comprovada é essencial para evitar alarmismo, exames desnecessários e promessas sem respaldo científico.
Dados: Os estudos epidemiológicos de 2025 e 2026 apresentados pela médica investigaram a relação entre a poluição do ar e a infertilidade humana. Em 2025, um estudo realizado em uma cidade da China identificou associações entre a exposição a poluentes atmosféricos, incluindo o material particulado fino (PM2,5), e o aumento da infertilidade primária e secundária. O estudo avaliou períodos de até seis meses, com associação entre o PM2,5 e a infertilidade secundária observada em três meses.
Em 2026, um estudo longitudinal, ecológico e populacional relatou uma estimativa de aumento de quase 30% na prevalência de infertilidade associada à exposição ao PM2,5 e de quase 20% associada ao ozônio.
Debate final
Ao final da sessão, o debate entre os palestrantes e a moderadora da mesa, a presidente da FEBRASGO, Dra. Maria Celeste, evidenciou a urgência em integrar a saúde materna e o planejamento climático nas políticas públicas e na prática médica diante dos eventos extremos e do aquecimento global. Para os especialistas, embora o Brasil possua dados avançados de saúde e meteorologia, falta utilizá-los de forma prática para proteger populações vulneráveis, comparando a atenção dada a setores produtivos com a negligência em relação às gestantes.
Como soluções imediatas, propõe-se a criação de ferramentas simples e de alto impacto, como mnemônicos de calor e frio nas cadernetas de pré-natal, o uso estratégico de atestados médicos para afastar trabalhadoras de horários críticos e a preparação para desastres naturais por meio de rotas de fuga e abrigos equipados. Por fim, foi enfatizada a necessidade de pressionar o governo e atualizar diretrizes oficiais, garantindo que o planejamento reprodutivo e as especificidades da saúde da mulher sejam incluídos nos planos de emergência climática.