Mulheres negras são as mais afetadas por eclâmpsia e mortalidade materna

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Mulheres negras são as mais afetadas por eclâmpsia e mortalidade materna

20 mar. de 2025

Ginecologistas alertam que a falta de acesso adequado aos tratamentos é uma das principais causas dessa desigualdade

 

No Dia Internacional da Luta Contra a Discriminação Racial, 21 de março, a Federação das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) reforça a importância de olhar com atenção para a saúde das mulheres negras, que ainda enfrentam desafios significativos no acesso a um atendimento de qualidade e apresentam taxas mais altas de mortalidade materna.

 

Uma pesquisa do IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e do Instituto Çarê revela que mulheres pretas e pardas são as mais afetadas por pré-eclâmpsia grave e eclâmpsia, além de liderarem as estatísticas de mortalidade materna no Brasil. Entre 2014 e 2021, a cada 1.000 mulheres em trabalho de parto, 28,4 tiveram essas complicações. Desse total, 24,9 eram mulheres brancas, 27,5 pardas e 32,8 pretas, evidenciando a desigualdade relacionada à cor da pele na saúde materna.

 

A Dra. Fernanda Surita, vice presidente da Comissão Especializada em Violência Sexual e Interrupção Gestacional Prevista em Lei da FEBRASGO, explica que diversos fatores contribuem para a maior incidência da doença entre mulheres negras. “As mulheres negras apresentam maior risco de desenvolver distúrbios hipertensivos durante a gestação e de manifestar quadros mais graves, incluindo a pré-eclâmpsia. A causa dessa disparidade nos distúrbios hipertensivos na gravidez é multifatorial. Não há razões biológicas que justifiquem esse maior risco, mas sim uma associação de diversos determinantes sociais e econômicos, como dificuldade de acesso aos serviços de saúde, menor qualidade na atenção recebida, menor nível de educação e menor renda”, afirmou.

A Dra. Amanda Dantas destaca que estudos demonstram que mulheres negras apresentam não apenas maior incidência de pré-eclâmpsia, mas também maior morbidade, mortalidade e piores desfechos decorrentes da doença. “No entanto, ainda há uma carência de pesquisas que comparem especificamente a resposta ao tratamento entre mulheres negras e não negras. Alguns estudos buscaram identificar possíveis fatores biológicos ou genéticos que justificassem esses piores resultados, mas há uma crescente evidência de que a principal causa está relacionada a um conjunto de fatores sociais complexos, incluindo a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, o que pode resultar em atrasos no início do tratamento adequado”, diz a médica.

 

As mesmas medidas de prevenção são indicadas para essa população, sem diferenças em relação à etnia. A prevenção com AAS e carbonato de cálcio segue as mesmas recomendações, baseadas nos fatores de risco, tanto para mulheres negras quanto para não negras. A cor da pele, isoladamente, não é um critério para iniciar a profilaxia. Por outro lado, é fundamental destacar que a redução das iniquidades em saúde e a garantia de acesso universal a serviços de qualidade para todas as mulheres representam a melhor forma de prevenção.

 

 

Acesso ao Pré-natal

 

A Dra. Fernanda ressalta que o acesso ao planejamento reprodutivo e à assistência pré-natal adequados é a melhor forma de prevenir a maioria das complicações obstétricas em qualquer população. Isso vale não apenas para distúrbios hipertensivos, como a pré-eclâmpsia, mas também para diabetes, infecções congênitas, anemia, entre outras condições. O objetivo do pré-natal é a prevenção e promoção da saúde, além da detecção precoce e do tratamento adequado de comorbidades para evitar complicações graves.

“As mulheres negras apresentam maior dificuldade de acesso ao pré-natal, têm mais chances de não realizá-lo ou de iniciá-lo tardiamente, fazem menos consultas e, quando as fazem, essas consultas costumam durar menos tempo. Tudo isso contribui para um maior risco de diversos problemas, inclusive a pré-eclâmpsia. O menor acesso aos serviços de saúde por esse grupo de mulheres ocorre devido a uma combinação de diversos fatores, que se interseccionam e que têm um efeito multiplicativo, como piores condições socioeconômicas e discriminação de gênero, cor de pele e classe social”, finaliza a médica.

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