Escore de alerta precoce em obstetrícia

Compartilhe a publicação
Escore de alerta precoce em obstetrícia

17 maio. de 2018

        A morbidade materna grave é o estágio final de um contínuo de múltiplos eventos que se iniciam com alterações sutis de parâmetros vitais elementares, como frequência respiratória, frequência cardíaca, pressão arterial e temperatura. As complicações graves são relativamente raras em obstetrícia e podem incidir em qualquer paciente obstétrica, não sendo exclusivas de mulheres portadoras de fatores de risco.

        Embora as avaliações subjetivas e não padronizadas possam identificar condições graves com relativa facilidade, essas avaliações podem falhar em identificar pacientes em estágios iniciais de condições clínicas com potencial de deterioração, retardando o início das intervenções. Existe grande preocupação em abordar as complicações obstétricas em estágio inicial, pois a deterioração progressiva pode levar a quadros irreversíveis, como choque refratário e coagulação intravascular disseminada. Estudos mostram que em 70% das mortes diretas e 55% das mortes indiretas os primeiros sinais de deterioração materna não foram reconhecidos pelos profissionais de saúde.

        O escore de alerta precoce em obstetrícia é um instrumento de rastreio da morbidade materna grave que se fundamenta em monitorar rigorosamente os parâmetros vitais. As observações são registradas em gráfico padronizado e recebem uma pontuação proporcional à sua variação em relação à normalidade e ao nível de alerta que se pretende gerar na equipe de saúde (figura 1). Com isso, é possível classificar o risco em níveis de gravidade e seguir um plano de ações previamente elaborado. Essas ações incluem intensificar a frequência de observações, solicitar exames, equipamentos e leitos ou pedir auxílio a profissionais de maior competência. O objetivo geral dos escores de alerta precoce ou da sigla em inglês MEOWS (Maternal Early Obstetric Warning System) é reconhecer e tratar a morbidade materna de maneira oportuna e efetiva, possibilitando a interrupção da cascata de complicações que levam à morbidade grave e a mortalidade materna.

        Cada vez que um conjunto de observações é realizado em mulheres ante ou pós-natal, o escore deve ser calculado e registrado em formulário padrão ou em tabela de observação conforme aplicável. Cada escore registrado deve gerar uma conduta segundo protocolo estabelecido, que deve ser anotada em prontuário.  Cada novo profissional acionado deve realizar nova avaliação completa e estabelecer novo escore e consequente nova conduta (figura 2).

        Outra vantagem do uso do Escore de Alerta Precoce é a possibilidade de padronizar a abordagem inicial às urgências obstétricas. A abordagem proposta é um plano geral a ser utilizado independente do quadro clínico apresentado e da etiologia da condição patológica.  Cabe aqui destacar que ela pode ser particularizada para cada paciente.

        Todos os esforços para a implantação e utilização desses protocolos estão focados no pronto reconhecimento de alterações da normalidade no ciclo gravídico puerperal e a sistematização de ações de prevenção e manejo de complicações em seus estágios iniciais. Desta forma, acredita-se que a cadeia de agravamentos que levam ao óbito possa ser bloqueada, com redução de desfechos graves maternos, fetais e neonatais e melhoria da atenção global à saúde dessa população.


 

 

Humberto Sadanobu Hirakawa

Mestre e Doutor em Ginecologia, Obstetrícia e Mastologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

Professor adjunto do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos.

Coordenador médico da Maternidade Dona Francisca Cintra Silva em São Carlos-SP.

 

Marcos Masaru Okido

Mestre e Doutor pela Universidade de São Paulo.

Professor Adjunto do Departamento de Medicina Universidade Federal de São Carlos,

Médico assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP

Bibliografia consultada

 

  1. Cantwell R, Clutton-Brock T, Cooper G, Dawson A, Drife J, Garrod D, et al. Saving Mothers’ Lives: Reviewing maternal deaths to make motherhood safer: 2006-2008. The Eighth Report of the Confidential Enquiries into Maternal Deaths in the United Kingdom. BJOG. 2011;118 Suppl 1:1-203.
  2. Cole MF. A modified early obstetric warning system. British Journal of Midwifery. v. 22, n.12, 2014. 862-868.
  3. Nirmal D, Goodsell R. Trust guideline for the use of the Modified Early Obstetric Warning Score (MEOWS) in detecting the seriously ill and deteriorating woman. Available in  http://www.nnuh.nhs.uk/publication/download/modified-early-obstetric-warning-score-meows-mid33-ao13-v4-2/. 2016. 9p

 

 

Veja mais conteúdos

Dor pélvica por mais de três meses? É crucial investigar

21 maio. de 2026

Pré-eclâmpsia: condição exige atenção e acompanhamento pré-natal rigoroso para proteger mãe e bebê

21 maio. de 2026

Teste genético que identifica mutações hereditárias para câncer de mama fará parte do SUS

20 maio. de 2026

Leite materno: verdadeira vacina natural contra infecções, alergias e diversas doenças

19 maio. de 2026

FEBRASGO alerta: implantes hormonais manipulados não têm comprovação de segurança e eficácia

18 maio. de 2026

Comissão aprova audiência pública sobre má prática obstétrica com participação da FEBRASGO

15 maio. de 2026

LGBTQIA+: Fertilidade ainda é discutida tarde demais e pode ser comprometida por hormônios e cirurgias

15 maio. de 2026

Violência sexual: avanço em medicação profilática esbarra no acesso e na adesão, alerta ginecologista da FEBRASGO

15 maio. de 2026

Nota FEBRASGO – CADERNETA BRASILEIRA DA GESTANTE

14 maio. de 2026

Dia das Mães: FEBRASGO destaca a importância do cuidado obstétrico seguro e contínuo

08 maio. de 2026

Endometriose exige atenção e acompanhamento para evitar impactos na saúde feminina

07 maio. de 2026

Audiência pública no Senado debate avanços no enfrentamento aos cânceres de ovário e do colo do útero

06 maio. de 2026