Cuidados no Trabalho de Parto e Parto: Recomendações da OMS

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Cuidados no Trabalho de Parto e Parto: Recomendações da OMS

23 jul. de 2018

        Recentemente a OMS (Organização Mundial de Saúde) liberou uma publicação denominada Intrapartum care for a positive childbirth experience1 contendo recomendações para os cuidados durante o trabalho de parto e parto. Como metodologia, realizaram uma extensa revisão dos estudos publicados, além dos protocolos de assistência de vários países. Os dados foram trabalhados em grupos e submetidos a uma comissão externa onde a FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) também estava representada. Foram selecionados os 56 cuidados considerados mais importantes e abrangentes. Questões mais especializadas, como o manejo das distocias e das alterações de vitalidade fetal não foram incluídas.  As práticas foram classificadas como: recomendadas, não recomendadas, recomendadas apenas em contextos específicos e recomendadas apenas em protocolos de pesquisa. Os resultados diferem muito pouco da Diretriz Nacional de Assistência ao Parto, realizadas pelo CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS)2, construído com base nas diretrizes do NICE (National Institute for Healt and Care Excellence)3. Claramente o foco é no trabalho de parto espontâneo, com mãe e feto saudáveis e parto eutócico. No quadro 1, são listadas e resumidas as principais conclusões.

 

Quadro 1: Práticas recomendadas e não recomendadas, de acordo com o Modelo de cuidados intraparto da OMS, 2018. (Considerando mães e fetos/recém-natos saudáveis) 

 

Adaptado de WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience1

        Consultar no original os detalhes de cada item, as evidências consultadas e as recomendações em contextos específicos e aquelas apenas para protocolos de pesquisa.

        Os autores denominam essa nova diretriz de “Modelo de cuidados intraparto da OMS” e abordam também a importância de sua adoção para melhorar o atendimento e os resultados de nossas parturientes. Podemos fazer um paralelo com o conceito brasileiro, errôneo ao meu ver, de ”parto humanizado”.

        Vejamos um pouco nossa história. Com o advento do movimento humanista na Europa renascentista, ganhou força o racionalismo e o desenvolvimento do método científico. Como consequência ocorreu um desenvolvimento acentuado das ciências médicas. O processo de medicalização e hospitalização do nascimento foi gradativamente reduzindo os altos índices de óbitos maternos e neonatais. Mais recentemente, no final do século XX, ficou claro um “efeito colateral” desse processo. Na tentativa de melhorar ainda mais os resultados, passamos a utilizar práticas, que mais tarde se mostraram não efetivas ou não indicadas. A estrutura hospitalar (ambiência) precária, associada a uma gestão da saúde que não priorizava o processo de nascimento também contribuíram para um cenário inadequado.

        Gradativamente a medicina baseada em evidências vem demonstrando que podemos fornecer uma assistência menos intervencionista, mais respeitosa e dentro dos critérios éticos da autonomia, mantendo ou melhorando os resultados perinatais. Eu passei por esse processo e devo confessar que não foi fácil trocar uma prática que eu dominava e tinha segurança por novas posturas e atitudes. Devemos respeitar essas dificuldades e entender o processo gradativo de transformação. Quando mudamos uma prática, não significa necessariamente que estávamos errados, já que o que antes fazíamos era considerado correto. Significa que ainda temos a lucidez e a energia para nos atualizar.

        O médico obstetra é o único profissional com capacitação para atuar em todo o processo de nascimento, que vai desde a concepção até o puerpério. Portanto, não devemos temer o trabalho conjunto. Muito pelo contrário, com o trabalho interdisciplinar, ganhamos tempo para focar onde somos essenciais e ganha a paciente, que terá uma percepção de um melhor atendimento. Isso não significa que devamos nos abster da responsabilidade de acompanhar o processo de nascimento ou aceitar modelos que tentam excluir o médico de parte da atenção. Tanto a postura passiva, se isolando do processo de mudança, quanto o sectarismo, vão refletir em perda do espaço de atuação e comprometer a segurança e qualidades da assistência.

        O importante não é o título, como o equivocado “parto humanizado” ou o “modelo de cuidados intraparto da OMS”, ou como acho mais adequado, “modelo moderno de assistência ao nascimento” ou “assistência ao nascimento baseado em evidências e no respeito”. Importante é, dentro de cada realidade, implantar uma assistência com atitudes baseadas em comprovações científicas e respeito a mulher e a sua autonomia, bem como, lutar por ambientes e insumos adequados.

        A comissão nacional especializada de assistência ao parto, puerpério e abortamento da FEBRASGO está preparando recomendações, adequadas à realidade brasileira, dentro do projeto PROTOCOLOS.

 

Referências

  1. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: World Health Organization; 2018.
  2. Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal: relatório. Brasília. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, CONITEC; 2016.
  3. Intrapartum care for healthy women and babies: Clinical guideline. London. National Institute for Health and Care Excellence (NICE); 2014

Autor: 

Dr. Alberto Trapani Júnior MD-PhD (SC)

Presidente da CNE de Assistência ao Parto, Puerpério e Abortamento da FEBRASGO

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