Choque Anafilático em Obstetrícia
14 maio. de 2018
A anafilaxia é evento grave em qualquer pessoa, sendo indubitável a necessidade do treinamento das equipes de saúde a fim de que os seus sinais sejam rapidamente reconhecidos e que o evento seja imediatamente tratado. Os sintomas e sinais de anafilaxia podem ser classificados como a seguir:
Classificação das Reações Alérgicas Imediatas (Escala de Ring e Messmer)
Grau I: Sintomas cutâneos e/ou muco cutâneos generalizados (urticária, angioedema, prurido)
Grau II: Sintomas sistêmicos leves: rinorreia, disfonia, dispneia, vertigens, náuseas, dor abdominal, taquicardia, hipotensão, arritmia. Pode ter sintomas do grau precedente
Grau III: Reações sistêmicas graves: dispneia, sibilância, estridor, edema laríngeo, disfagia, disartria, vômitos, diarreia, confusão, sensação de morte eminente. Pode ter sintomas do grau precedente
Grau IV: Falência cardiorrespiratória: choque, alteração do estado de consciência, perda de continência de esfíncteres, cianose, parada cardiorrespiratória. Pode ter sintomas do grau precedente
O choque anafilático é a forma mais grave de anafilaxia. Deve ser tratado de forma emergencial e com aplicação de todos os recursos disponíveis, especialmente quando ocorre no terceiro trimestre de gestação. Nesta fase, há diminuição do retorno venoso devido à compressão da veia cava pelo útero gravídico, o que pode agravar os eventos cardiovasculares inerentes à anafilaxia.
Durante a gestação, os alérgenos mais comuns são os mesmos da população não-grávida: medicamentos (antibióticos, antiinflamatórios não-esteroidais), ácaros, pólen, alimentos (leite, soja, amendoim, nozes, peixes, mariscos, etc), insetos (abelhas, vespas, formigas), mofo, látex, cosméticos e níquel. Durante o trabalho de parto e parto, a causa mais comum é a administração de penicilina ou cefalosporina para prevenção de infecção neonatal por estreptococo do grupo B ou para profilaxia cirúrgica em cesarianas. Choque anafilático intraparto é evento raro, com incidência aproximada de 3 a cada 100.000 partos.
Quando o choque anafilático ocorre durante a gestação, o feto/neonato tem risco de graves sequelas neurológicas e morte, mesmo quando a evolução materna é favorável. A oferta de oxigênio na circulação uteroplacentária se reduz em função da queda do gradiente de pressão de oxigênio (PO2) entre a circulação materna e a fetal. Neste momento, para maximizar o fluxo de sangue e oxigênio para o feto, há dilatação da artéria uterina. Desta forma, o feto consegue compensar essa queda do aporte de oxigênio redistribuindo o fluxo para os órgãos vitais (cérebro, coração, adrenais e placenta) e diminuindo seus movimentos (para diminuir o consumo de oxigênio pelos demais tecidos). Todavia, todas essas compensações se exaurem e o feto entra em hipoxemia e acidose.
A anafilaxia materna afeta o feto de várias maneiras:
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Hipoxemia materna reduz diretamente a oferta de oxigênio para o feto;
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Hipotensão materna reduz a perfusão uterina, que reduz a oferta de oxigênio para o feto;
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Alcalose materna diminui fluxo sanguíneo uterino devido a vasoconstrição e aumenta a afinidade da hemoglobina materna pelo oxigênio, o que reduz a oferta de oxigênio para o feto;
O manejo de uma gestante com quadro de choque anafilático inclui administração imediata de epinefrina, oferta de oxigênio, deslocamento lateral esquerdo do útero (para facilitar o retorno venoso), uso de medicações vasotônicas para manutenção de pressão arterial sistólica mínima de 90mmHg (para assegurar fluxo placentário adequado) e monitorização contínua da frequência cardíaca fetal (cardiotocografia). Manobras de ressuscitação cardiopulmonar e cesárea devem ser realizadas quando indicadas.
Revisão de literatura com 22 casos de anafilaxia na gestação (sendo 13 deles durante o trabalho de parto), evidenciou que os casos nos quais os bebês nasceram vivos e sem sequelas neurológicas foram aqueles onde houve administração imediata de epinefrina em dose apropriada e a cesariana foi realizada entre 10 e 15 minutos da instalação da anafilaxia. O mesmo achado foi evidenciado em outra revisão, na qual houve mais mortes perinatais ou alterações neurológicas nos recém-nascidos de gestantes que não foram tratadas com epinefrina.
A conclusão advinda dessas evidências mostra que se corrige as alterações na frequência cardíaca fetal corrigindo a hipotensão e hipóxia maternas, através do tratamento agressivo para resolver o choque anafilático da mãe. Ou seja, assim como em outras situações semelhantes de urgências e emergências obstétricas, o tratamento adequado e oportuno do quadro materno é a melhor conduta para recuperação hemodinâmica de ambos, mãe e feto, sendo essa a prioridade.
Todavia, apesar de a realização cesárea de urgência ser fator determinante de melhor prognóstico neonatal em casos de alterações persistentes na frequência cardíaca fetal (pela retirada do feto de ambiente adverso), a cirurgia deve ser avaliada com cautela em relação aos riscos cirúrgicos para a mulher que persiste com hipóxia, hipotensão e instabilidade hemodinâmica. Desta forma, a cesariana deve ser realizada desde que os riscos maternos sejam considerados pequenos e seu status geral permita o procedimento cirúrgico.
Andréa Vieira Carreiro
Obstetra, mestre em ciências médicas, especialista em sexualidade
Samira El M T Haddad
Obstetra, doutora em ciências médicas, especialista em terapia intensiva, presidente da CNE de urgências obstétricas
Bibliografia consultada
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