A Ginecologia, o Ginecologista, o Câncer e o Paradoxo

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A Ginecologia, o Ginecologista, o Câncer e o Paradoxo

02 jul. de 2018

        Imagine 100 mulheres com câncer.

        Trinta com câncer de mama, 8 com câncer do colo do útero, 4 com câncer do corpo do útero, 4 com câncer de ovário, 2 com câncer de vulva ou vagina e 1 com algum tumor raro no trato genital.

        Pronto, somou?

        Das 100 mulheres brasileiras com câncer, 49 têm tumor em algum órgão sob a responsabilidade do ginecologista.

        Quarenta e nove por cento de todos os cânceres da mulher estão na área de atribuições do ginecologista. Os outros 51% são de responsabilidade de todas as outras especialidades médicas somadas.

        Esta é a realidade no Brasil.

        Neste ponto você deve estar concluindo que a principal preocupação do ginecologista  brasileiro é o câncer.

        Infelizmente não é verdade.

        Em uma pesquisa recente entre os ginecologistas e obstetras brasileiros, realizada através de questionário enviado aos membros da Febrasgo, e que será publicada na íntegra oportunamente, onde se indagava qual a área da ginecologia lhe desperta maior interesse, o interesse pelo câncer foi suplantado pelos problemas do climatério, dos hormônios, da endometriose, das infecções, da contracepção, e das questões envolvendo o trato genital inferior. Mesmo entre os que demonstraram algum interesse por câncer, a maior parte desse interesse estava relacionado com as questões envolvendo o HPV.

        Qual o impacto desse desinteresse pelo câncer na saúde das nossas mulheres?  Não é possível quantificar.

        Sabemos sim que 70% dos casos de câncer do colo do útero poderiam ser evitados com vacina. No entanto 77% dos casos de câncer de colo no Brasil ainda são diagnosticados em estágios avançados, e com uma expectativa de vida em 5 anos que não ultrapassa 50% na maioria das regiões do nosso pais.

        Sabemos que a incidência de câncer do endométrio aumenta na mesma proporção do aumento da obesidade e da expectativa de vida da nossa população. Mas as pacientes de risco para câncer do endométrio em nosso meio são colocadas em filas intermináveis na espera por uma histeroscopia indisponível, quando sabemos que a partir de 6 semanas de espera já muda o prognóstico. Ginecologistas brasileiros pouco praticam a biópsia de endométrio.

        Pacientes de risco genético para câncer de ovário e endométrio, raramente são orientadas para procedimentos profiláticos. E não é incomum fazerem exames de imagens ou marcadores tumorais de rotina, orientadas por ginecologistas, quando sabemos que nenhum impacto tem estes exames, sobre a redução da mortalidade por estas doenças.

        Muitos podem argumentar que cuidar do câncer é uma atividade complexa, e deve ser atribuição de sub-especialistas. Tratar câncer é sim complexo, fazer rastreamento e diagnóstico não é. O que mais mata a nossas pacientes é o diagnóstico inadequado ou tardio.

        Não importa o que você faça dentro da ginecologia. A sua paciente é uma candidata a ter câncer, ou pode já ter um câncer sub-clinico, ou tem um câncer cujo desfecho pode piorar se não forem tomadas as atitudes adequadas.

        Nossos congressos da especialidade precisam colocar o câncer como tema de destaque, ainda que outros temas, como as vezes acontece, possam ser mais divertidos e simpáticos para a plateia.

        Nossas mulheres estão morrendo de câncer.

 

Jesus Paula Carvalho

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