LGBTQIA+: Fertilidade ainda é discutida tarde demais e pode ser comprometida por hormônios e cirurgias

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LGBTQIA+: Fertilidade ainda é discutida tarde demais e pode ser comprometida por hormônios e cirurgias

15 maio. de 2026

  • FEBRASGO alerta que orientação sobre preservação reprodutiva deve ocorrer antes da transição hormonal ou de procedimentos afirmativos de gênero
  • 17 de maio é o Dia Internacional contra a Homofobia

 

A possibilidade de ter filhos biológicos ainda chega tarde à conversa com muitos pacientes LGBTIQA+. Quando o tema só aparece após o início da terapia hormonal, do bloqueio puberal ou de cirurgias afirmativas de gênero, a fertilidade já pode estar parcial ou definitivamente comprometida. O alerta é da Dra. Marta Franco Finotti, ginecologista da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Assistida da FEBRASGO, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, que defende a orientação precoce e contínua sobre reprodução e preservação de gametas.

A discussão ganha ainda mais relevância em maio, quando se celebra, no dia 17, o Dia Internacional contra a Homofobia, data que reforça a necessidade de ampliar o acesso dessa população a um atendimento mais completo, acolhedor e livre de preconceitos.

“Falar sobre fertilidade em pacientes LGBTQIA+ permite escolhas reais antes que tratamentos afetem de forma importante a capacidade reprodutiva. Essa orientação reduz sofrimento, melhora a saúde mental e garante que o cuidado em sexualidade e gênero também inclua projetos de parentalidade”, afirma a Dra. Marta, cuja aula “Orientação sobre percepção da fertilidade para transexuais e homossexuais”, será dada durante o 63º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, entre 27 e 30 de maio, no Minascentro, em Belo Horizonte.

Segundo a especialista, o aconselhamento deve abordar, de forma clara, os riscos de infertilidade e as opções de preservação da fertilidade antes de intervenções médicas que possam comprometer o potencial reprodutivo. Entre elas estão a terapia hormonal, o bloqueio da puberdade e cirurgias com retirada de gônadas.

Estudos já mostram o impacto da falta de informação. “A maioria das pessoas transgênero relata desejo de ter filhos e valorizaria ter tido a chance de preservar gametas antes do tratamento. Em estudos, 50% das mulheres trans e 37,5% dos homens trans teriam congelado gametas caso tivessem recebido orientação em tempo”, destaca Dra. Marta.

Nos homens trans que usam testosterona, pode haver supressão da ovulação e alterações na função ovariana. Ainda assim, há evidências de atividade folicular preservada e possibilidade de gestação após a interrupção do hormônio, embora o grau de reversibilidade ainda não seja totalmente conhecido. Já nas mulheres trans em uso de estrogênio e antiandrógenos, podem ocorrer atrofia testicular, redução importante ou ausência de espermatogênese e piora do espermograma, com recuperação apenas parcial em alguns casos.

Em crianças e adolescentes, a atenção deve ser ainda maior. O bloqueio puberal pode interferir na maturação das células germinativas e afetar o potencial de fertilidade, enquanto a retirada de gônadas elimina essa possibilidade. Nessas situações, a janela de decisão costuma ser mais delicada e exige participação da família e de equipe especializada.

Hoje, as principais estratégias de preservação da fertilidade são a criopreservação de sêmen para mulheres trans e o congelamento de óvulos ou embriões para homens trans. Em pacientes pré-púberes, existe a possibilidade experimental de criopreservação de tecido ovariano ou testicular, ainda sem garantia de uso futuro.

Para a médica, uma das responsabilidades centrais dos profissionais envolvidos no cuidado dessa população é garantir consentimento informado completo, incluindo os efeitos da transição sobre a fertilidade, as possibilidades de reprodução futura e as alternativas disponíveis para preservação. No caso de adolescentes, os responsáveis legais também devem participar dessa decisão.

Além do desafio clínico, o acolhimento ainda esbarra em barreiras como desconhecimento dos profissionais, custo dos procedimentos, medo de discriminação e desconforto dos próprios pacientes ao tratar de temas ligados à genitalidade. “Linguagem inclusiva, ambiente acolhedor, materiais padronizados de informação e envolvimento de equipe multiprofissional são estratégias importantes para qualificar esse aconselhamento”, pontua a ginecologista.

Ela também reforça que o cuidado integral inclui orientação sobre contracepção, quando necessária, e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, sem pressupostos baseados na orientação sexual ou na identidade de gênero do paciente.

 

63º CBGO

Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia

https://febrasgo.iweventos.com.br/cbgo2026

#CBGO2026

Data: 27 a 30 de maio de 2026

Local: Minascentro – Belo Horizonte – Minas Gerais

Credenciamento para imprensa: imprensa@gengibrecomunicacao.com.br

 

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