Coalescência de Pequenos Lábios
08 maio. de 2018
Márcia Sacramento Cunha Machado
Professora Adjunta no Departamento de Ginecologia, Obstetrícia e Reprodução Humana da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Professora Adjunta de Ginecologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP)
Membro e Delegada Regional na Bahia da Sociedade Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia da Infância e Adolescência (SOGIA-Br)
Membro da Comissão Nacional de Ginecologia e Obstetrícia Infanto Puberal – CNE FEBRASGO
INTRODUÇÃO
A coalescência de pequenos lábios consiste na aderência das bordas internas dos pequenos lábios sobre o intróito vaginal, onde se forma uma linha translúcida mediana que obstrui total ou parcialmente o canal vaginal.
Pode também ser chamada de adesão, convalescência, aglutinação de pequenos lábios, fusão vulvar ou ainda sinéquias.
Esta condição clínica atinge 0,6 a 5% das meninas pré-púberes, apresentando pico de incidência nos dois primeiros anos de vida e ocorrendo até os 6 anos de idade. A maioria dos casos é assintomática, podendo passar desapercebidos, o que parece contribuir para um grande número de casos não relatados. A verdadeira prevalência na população pode ser estimada em 38,9% das meninas pré-puberes segundo literatura.
A etiologia não é totalmente conhecida, mas parece estar relacionada ao hipoestrogenismo e a algum processo inflamatório vulvovaginal localizado. A inflamação local da mucosa e pele vulvares contribuem para a perda do epitélio escamoso superficial e o processo de reepitelização resulta na formação de aderências fibrosas na linha média que aderem os pequenos lábios. Por outro lado a má higiene, o contato com agentes irritantes e muda pouco freqüente de fraldas também podem contribuir para a coalescência dos lábios internos.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
Podem acontecer casos de vulvovaginites, disúria, distorção do jato urinário, gotejamento após a micção, bacteriúria assintomática (20% dos casos), infecções urinárias (20 a 40% dos casos) e, mais raramente, obstrução do jato urinário, distensão vesical e hidronefrose.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
A coalescência de pequenos lábios geralmente não apresenta dificuldade no diagnóstico. Uma história clínica criteriosa associada a exame físico avaliando-se a região da vulva e vagina fecham o diagnóstico. Outras patologias como hímen imperfurado, trauma com formação de sinéquias e líquen escleroso podem ser consideradas em casos específicos e investigadas adequadamente. Outros diagnósticos diferencias incluem malformações vaginais (agenesia vaginal) e ambigüidade sexual.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
A terapia abrange orientação higiênica adequada e regular da criança e um aconselhamento em relação a patologia e de casos de recidiva em crianças menores. A elevada taxa de cura espontânea, que varia entre 80% dentro de um ano e 100% até 18 meses justifica, para alguns autores, a conduta expectante. Nos casos sintomáticos, nas recidivas e coalescência após conduta expectante indicariam tratamento medicamentoso ou até mesmo cirúrgico.
O tratamento medicamentoso baseia-se na aplicação tópica de cremes de estrogênios (Estriol 1mg/g ou Promestrieno 10mg/g). Deve ser aplicado delicadamente sobre a membrana, durante 2 a 4 semanas, uma ou duas vezes por dia. Importante o uso de um centímetro aproximadamente de creme e realização de pequena pressão sobre a membrana aderente no momento da aplicação. Deve-se evitar trações intempestivas com a finalidade de realizar separação manual das aderências pela experiência dolorosa e traumática que acarretam. Alguns autores recomendam um tratamento mais prolongado, entre 4 a 12 semanas, exceto se a separação ocorrer antes desse período.
Diversos autores recomendam manter a aplicação de estrogênios após a resolução do caso de aderência, uma vez por dia, à noite, por pelo menos duas semanas, exceto se surgirem efeitos secundários. Outros recomendam manter aplicação de substâncias emolientes como vaselina, duas vezes por dia. Ambos os casos apresentam bons resultados, com diminuição das recidivas.
Para consolidar o tratamento e também evitar recorrências, recomenda-se orientações de boa higiene genital utilizando-se produtos saponáceos neutros e líquidos, roupas íntimas de algodão, trocas mais freqüentes nas usuárias de fraldas evitando-se contato prolongado com resíduos de urina e fezes. Nas crianças maiores deve-se orientar limpeza das pregas vaginais e da vulva após micção, de frente para trás, e secar de forma suave com toalha de algodão. Assim, removem-se agentes irritantes e faz-se o hábito de práticas saudáveis de higiene ao longo da vida, evitando-se processos infecciosos e inflamatórios futuros.
Nos casos de inflamação local da mucosa e pele vulvar alguns autores têm indicado o uso tópico de corticosteróides. A eficácia e a segurança da utilização de creme de betametasona a 0,05% na fimose fisiológica sugeriu a sua utilização na coalescência das ninfas. A aplicação deve ser sobre a membrana formada, em camada fina, duas vezes por dia, durante 4 a 6 semanas. Tem taxa de 70% de eficácia, particularmente nas crianças já tratadas anteriormente com estrogênios tópicos ou mesmo cirurgicamente. A betametasona deverá ser evitada na idade das fraldas. Os eventuais efeitos colaterais são eritema, prurido, foliculite, formação de vesículas na pele e atrofia.
Para os casos de recidiva no tratamento tópico ou de aderências densas resistentes, alguns autores recomendam lise cirúrgica das aderências, através de separação manual sob anestesia local com Lidocaína 2% ou 5% (Xilocaina®) ou associação de lidocaína 2,5% com Prilocaina 2,5% (EMLA®). Após a lise cirúrgica seria recomendável o uso de creme tópico de estrogênios para evitar recidivas. Contudo, pelas potenciais repercussões dolorosas e psico-emocionais, seria recomendável a realização do procedimento sob anestesia geral. A separação manual das aderências sem qualquer tipo de anestesia estaria desaconselhada porque além de ser dolorosa e traumática poderá provocar novas aderências, fibrose e cicatriz local de difícil tratamento.
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
-
CEMEK F et al. Personal Hygiene and Vulvovaginitis in Prepubertal Children. J Pediatr Adolesc Gynecol. 2016; 29(3):223-7.
-
FERREIRA V et al. Labial Fusion in childhood- literature review. Acta Obstet Ginecol Port, 2012;6(4):193-198.
-
GARDEN AS. Vulvovaginitis and other common childhood gynaecological conditions. Arch Dis Child Educ Pract Ed. 2011; 96(2):73-8.
-
MACHADO MSC. Vulvovaginites na infância. In: Matos, MS et al. Manual de Ginecologia. Salvador: EBMSP/FBDC: autores, 2017. p. 69-75.
-
MAGALHÃES MLC, BEZINA M, et al. Uso del promestrieno en el tratamento de la coalescencia de lábios menores. Rev SOGIA 2003; 10(2):74-78.
-
MAYOGLOU L et al. Success of treatment modalities for labial fusion: a retrospective evaluation of topical and surgical treatments. J Pediatr Adolesc Gynecol 2009;22:247-250.
-
MYERS J et al. Betametasone cream for the treatment of pre-pubertal labial adhesions. J Pediatr Adolesc Gynecol 2006; 19:407-11.
-
SOYER T. Topical estrogen therapy in labial adhesions in children: therapeutic or prophylactic? J Pediatr Adolesc Gynecol 2007;20:241-4.
-
TEBRUEGGE, M.; MISRA, I.; NERMINATHAN, V. – Is the topical application of estrogen cream an effective intervation in girls suffering from labial adhesions? Arch. Dis. Child., v. 92, n. 3, p. 268-270, 2007.
-
ZUCKERMAN A et al. Clinical Recommendation: Vulvovaginitis. Pediatr Adolesc Gyneco. 2016;29(6):673-679.