Rastreamento para câncer de colo uterino em homens transgênero

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Rastreamento para câncer de colo uterino em homens transgênero

15 maio. de 2018

Raquel Autran Coelho

Profa Adjunta da Universidade Federal do Ceará/UFC

 

        Transgênero masculino ou MPH (“mulher para homem”) são indivíduos concebidos como mulher ao nascimento, porém se identificam ou se expressam como homens ou espectro masculino. Eles crescem com a sensação de ter nascido com um sexo errado, o que pode levar a disforia, estresse e outras mudanças psicológicas.Considerando que eles representam variações de gênero e sexualidade dentro de uma sociedade, indivíduos transgêneros são comumente incluídos na comunidade designada LGBT (lésbica-gay-bissexual-transgênero). No entanto, deve-se notar que, enquanto LGB se refere à opção de relações sexuais de um indivíduo para outro, transgênero refere-se à identidade de gênero do indivíduo, independentemente de sua orientação sexual.São poucas as informações estatísticas sobre o número de indivíduos transgêneros em um determinado local, assim como sobre suas necessidades de saúde. Existem estimativas globais baseadas no número de indivíduos submetidos à cirurgia de redesignação sexual, que são de 1 a 11.900 para mulheres transexuais (“homem para mulher“) e de 1 para 30.400 para MPH 7.

        Os MPH correm risco de contrair HPV e outras infecções sexualmente transmissíveis, mas enfrentam barreiras ao exame pélvico e ao rastreamento do câncer do colo do útero, entre os serviços de saúde. Tanto pacientes como profissionais de saúde demonstram percepções errôneas sobre o risco de câncer nesse grupo. Embora raras, neoplasias em pacientes masculinos transexuais são possíveis e podem ter impactos sociais e psicológicos significativos.

        Protocolos para o rastreio do câncer de colo evoluíram nos últimos anos, incluindo novas opções de rastreio, como o teste do DNA-HPV isoladamente ou em combinação com a citopatologia (co-teste). No entanto, essas recomendações não incluem considerações específicas para o grupo masculino transgênero. Tanto pacientes como profissionais de saúde demonstram percepções errôneas sobre o risco de câncer nesse grupo. Estudos indicam que a população transgênero não atingiu níveis satisfatórios de adesão ao rastreamento do câncer do colo do útero em comparação com a população cisgênero. Há uma falta de informação sobre as recomendações do exame ginecológico para este grupo e sobre o efeito da terapia hormonal nos testes realizados. Alterações celulares atróficas secundárias ao efeito androgênico hormonal podem ser interpretadas como lesão intraepitelial escamosa cervical. Há um aumento de cerca de dez vezes no risco de amostras insatisfatórias de citologia cervical em MPH, comparado ao de mulheres cisgêneras. O procedimento deve ser feito com cautela, pois o tratamento com testosterona pode também induzir a atrofia vaginal, tornando o exame ainda mais desconfortável. Isso pode ser minimizado com o uso de lubrificantes à base de água. Outro aspecto significante é a importância de registrar o uso de testosterona pelo paciente a pedido do exame preventivo. Não apenas os obstáculos intrínsecos ao exame ginecológico, que levam a um importante conflito emocional entre sua anatomia e sua autopercepção, contribuem para a marginalização dessa população. Há ainda vários outros, como até mesmo o desconforto em revelar a identidade de gênero aos profissionais de saúde. Os próprios médicos não se sentem aptos ou confortáveis ​​durante o exame.Existe uma preferência do grupo MPH para triagem primária de HPV com swab vaginal em vez de uso de espéculo, mas faltam dados de segurança e eficácia para tal substituição nesse grupo de pacientes. A auto-coleta poderia ser oferecida, no entanto, como uma opção para aqueles que se recusam a exame especular.As recomendações para a triagem de rotina do câncer do colo do útero e infecções sexualmente transmissíveis para indivíduos MPH são idênticas às de mulheres cisgêneras. Profissionais de saúde que avaliam citologias devem estar cientes de algumas alterações causadas pelo uso de hormônios nesses pacientes. Tendo em vista a maior taxa de exames citológicos insatisfatórios nessa população, esforços devem ser feitos para melhorar a qualidade dos espécimes, evitando repetições desconfortáveis de amostragem para o diagnóstico. 

 

 

Referências consultadas:

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists. Committee Opinion: Health Care for Transgender Individuals. Obstet Gynecol. 2011;118(6):1454.
  2. Arbyn M, Verdoodt F, Snijders PJ, Verhoef VM, Suonio E, Dillner L, et al. Accuracy of human papillomavirus testing on self-collected versus clinician-collected samples: a meta-analysis. Lancet Oncol. 2014;15(2):172–183.
  3. Coleman E, Bockting W, Botzer M, Cohen-Kettenis P, DeCuypere G, Feldman J, et al. Standards of care for the health of transsexual, transgender, and gender-nonconforming people, version 7. Int J Transgend. 2012;13(4):165–232.
  4. Cox JT, Castle PE, Behrens CM, Sharma A, Wright Jr TC, Cuzick J. Comparison of cervical cancer screening strategies incorporating different combinations of cytology, HPV testing, and genotyping for HPV 16/18: results from the ATHENA HPV study. Am J Obstet Gynecol. 2013;208(3):184.e181-184.e111.
  5. Driak D, Samudovsky M. Could a man be affected with carcinoma of cervix? (The first case of cervical carcinoma in trans-sexual person (FtM)—case report). Acta Med (Hradec Kralove). 2005;48:53–55.
  6. Dutton L, Koenig K, Kristopher F. Gynecologic Care of the Female-to-Male Transgender Man. J Midwifery Womens Health. 2008; 53(4): 331–337. doi:10.1016/j.jmwh.2008.02.003. 
  7. Feldman J, Bockting W. Transgender health. Minn Med. 2003; 86:25–32. [PubMed: 12921373] 
  8. Griffith WF, Stuart GS, Gluck KL, Heartwell SF. Vaginal speculum lubrication and its effects on cervical cytology and microbiology. Contraception. 2005;72(1):60–64.
  9. Miller N, Bédard YC, Cooter NB and Shaul DL. Histological changes in the genital tract in transsexual women following androgen therapy. Histopathology. 1986; 10: 661–669.
  10. Peitzmeier SM, Khullar K, Reisner SL, Potter J. Pap test use is lower among female-to-male patients than non-transgender women. Am J Prev Med. 2014;47(6):808–812.
  11. Potter J, Peitzmeier SM, Bernstein I, Reisner SL, Alizaga NM, Agénor M, Pardee DJ. Cervical Cancer Screening for Patients on the Female-to-Male Spectrum: a Narrative Review and Guide for Clinicians. J Gen Intern Med. 2015; 30 (12): 1857–64.
  12. Unger CA. Care of the transgender patient: a survey of gynecologists’current knowledge and practice. J Womens Health (Larchmt). Epub 2014 Dec 19.
  13. Urban RR, Teng NNH, Kapp DS. Gynecologic malignancies in female-to-male transgender patients: The need of original gender surveillance. American Journal of Obstetrics and Gynecology. 2011; 204(5).

 

 

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