Mulheres pretas com câncer do colo do útero têm mortalidade maior

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Mulheres pretas com câncer do colo do útero têm mortalidade maior

16 nov. de 2023

De 2010 a 2019, 53,66% dos óbitos foram dessa população

 

No Dia da Consciência Negra, lembrado em 20 de novembro, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) faz um alerta sobre o alto índice de mortalidade por câncer do colo do útero em mulheres pretas. De acordo com a pesquisa “Distribuição de óbitos por câncer de colo do útero no Brasil”, publicada em 2021, que analisou dados de 2010 a 2019, 53,66% dos óbitos foram de mulheres negras, de 40 a 59 anos.

 

Dr. Jesus Paula Carvalho, membro da Comissão Nacional Especializada de Ginecologia Oncológica da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), sinaliza que é importante um olhar para as questões de políticas públicas no que se refere ao acesso de mulheres pretas à saúde porque existe uma maior taxa de mortalidade por câncer do colo do útero nessa população. “O alto índice de mortalidade pela doença em mulheres pretas não é somente atribuído à biologia dos tumores, mas também a disparidades no acesso ao diagnóstico e ao tratamento. No Brasil, apesar das reivindicações e reclamações por organizações do movimento negro, discussão das diferenças raciais na saúde ainda é incipiente”, explica o especialista.

 

O estudo “Desigualdades raciais no acesso à saúde da mulher no sul do Brasil”, publicado em 2011, entrevistou mais de 2 mil mulheres para entender essa disparidade. Os resultados apontam que as mulheres negras haviam feito menos exames de Papanicolaou e mamografias quando comparadas com as mulheres brancas.

 

Outra pesquisa publicada em 2020, “Atrás das grades: o peso de ser mulher nas prisões brasileiras”, avaliou as condições da população feminina carcerária no Brasil. A maioria dessas prisioneiras tem menos de 40 anos e 65% delas são pretas ou pardas, 9% dessas mulheres nunca fizeram uma consulta ginecológica e 55,3% nunca fizeram um exame de Papanicolaou. “Com a exposição desses dados, podemos dizer que mulheres pretas são mais vulneráveis ao câncer do colo do útero e, portanto, merecem atenção especial, com políticas públicas focadas e específicas”, reforça Carvalho.

 

No Congresso Nacional do Brasil tramita o Projeto de Lei 2952/22 que institui a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC) no âmbito do SUS. “Além de ser aprovado, é fundamental que este plano seja de fato implementado. Uma revisão global de 153 PNPCC em diferentes países demonstrou que apenas 6% desses planos contém estratégias e prioridades realísticas estabelecidas no que concerne a estratégias para gestão, alocação de recursos, e monitoramento dos resultados e sistemas de informação. Mais importante do que fazer leis é garantir que sejam implementadas, promovidas e monitoradas”, reforça o especialista.

 

HPV e o câncer do colo do útero

 

O papilomavirus humano (HPV) é um fator necessário para o desenvolvimento do câncer do colo do útero. Vários outros fatores contribuem para a infecção pelo HPV, com ênfase na idade precoce do início da atividade sexual, múltiplos parceiros, uso prolongado de contraceptivos orais, deficiências em medidas higiênicas, baixo nível socioeconômico, alta paridade, tabagismo e a condição de ser negra.

 

Para o médico, a prevenção primária através da vacinação contra o HPV é fundamental para reduzir os casos. “A detecção precoce, seja pelo exame de Papanicolau, no Brasil, ou pelo teste de HPV, em outros países, é crucial para evitar que a doença atinja estágios avançados”, enfatiza.

 

A vacina profilática para o HPV está disponível no SUS desde 2014, gratuitamente para a faixa etária de 9 a 14 anos, e constitui um pilar fundamental para a acelerar a eliminação do câncer do colo do útero como um problema de saúde pública. A cobertura vacinal no Brasil, entretanto, está abaixo do recomendado.

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