Mortalidade materna é quase o dobro entre mulheres pretas no Brasil, aponta estudo

Compartilhe a publicação
Mortalidade materna é quase o dobro entre mulheres pretas no Brasil, aponta estudo

19 nov. de 2025

  • Disparidade se mantém por mais de uma década em todas as regiões, faixas etárias e causas
  • Especialista da FEBRASGO reforça que o problema decorre de barreiras de acesso, qualidade do cuidado e racismo estrutural
  • 20 de novembro: Dia da Consciência Negra

 

“Estudo mostra que a mortalidade materna foi quase duas vezes maior entre mulheres pretas ao longo de mais de uma década, em todas as regiões do país, em todas as faixas etárias e por todas as causas”, explica Dra. Fernanda Garanhani de Castro Surita, ginecologista e obstetra da Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) e uma das autoras do estudo cujo link é https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38985056/ .

Segundo a especialista, as maiores taxas de morte no ciclo gravídico-puerperal entre mulheres negras não se relacionam a fatores genéticos ou biológicos. “Condições clínicas de maior gravidade, demoras na obtenção do cuidado e atendimento pouco qualificado podem estar envolvidos — possivelmente pela presença do racismo estrutural na rotina dos serviços de saúde.” Esse racismo, acrescenta, interfere na qualidade do atendimento às gestantes negras desde o acesso ao serviço — por distância geográfica, custos, horários incompatíveis com o trabalho, falta de rede de apoio para cuidar de si — até o receio de um atendimento desrespeitoso.

Quando rompida a barreira do acesso, pode haver outra barreira: a baixa valorização das queixas pelos profissionais de saúde. O resultado são consultas mais rápidas, menos acolhedoras e com menos explicações, o que impacta diretamente o cuidado. Isso é relatado em outro estudo qualitativo (link https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40424987/ ), que entrevistou mulheres negras após o parto e mostrou, entre outras questões, o sentimento de não serem ouvidas e de não estarem adequadamente informadas sobre os procedimentos pelos quais iriam passar.

A Dra. Fernanda reforça que oferecer cuidado “humanizado e equitativo” significa adotar um “cuidado centrado na pessoa”: uma abordagem que coloca a pessoa assistida — suas necessidades, preferências e valores — no centro das decisões clínicas e do planejamento do cuidado, assegurando respeito, dignidade, protagonismo, informação qualificada e empatia. “Isso vale para todas as pessoas gestantes e puérperas, mas é particularmente essencial para aquelas em situação de vulnerabilidade, seja pela cor da pele ou por outras condições.”

Para superar o racismo estrutural na saúde, a especialista destaca que é preciso ir além da conscientização individual. “É necessária uma transformação fundamentada em educação crítica e antirracista, tanto na graduação médica quanto na educação profissional continuada. Esses processos devem abordar preconceitos implícitos e explícitos e, também, enfrentar os fundamentos históricos e sociopolíticos da desigualdade racial em saúde. Cabe citar a importância de ações inclusivas em todo o processo de formação, desde o acesso por vestibulares até políticas de permanência estudantil, para ampliar a presença de pessoas negras em espaços de cuidado e na discussão de políticas públicas específicas”, aponta.

Nesta direção, a FEBRASGO tem atuado para integrar a equidade racial às políticas de saúde, às estruturas de melhoria da qualidade e aos mecanismos de responsabilização. Criar ambientes inclusivos e reflexivos — nos quais a conduta profissional considere as interseccionalidades e seja guiada por equidade, justiça e ética — é essencial para romper a persistência de hierarquias racializadas no cuidado obstétrico e em toda a rede de atenção à saúde.

“Por fim, gostaria de sugerir a leitura de um editorial sobre o tema, em que abordamos a importância de considerar as disparidades raciais na tomada de decisões para reduzir inequidades em saúde e de como a cor da pele deve ser levada em conta, no contexto histórico de discriminação, como uma variável complexa que influencia desfechos em saúde”, conclui a Dra. Fernanda. O estudo ao qual ela se refere pode ser consultado aqui https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37339640/

Veja mais conteúdos

TSH acima de 2,5 na gravidez nem sempre significa doença da tireoide, alerta nova diretriz

05 out. de 2026

Manifesto da AMB por uma Medicina de Qualidade e uma Saúde Melhor para o Brasil

02 out. de 2026

Osteoporose antes da menopausa pode sinalizar outras doenças

02 out. de 2026

IMSRIO2026: FEBRASGO promove Simpósio sobre terapia hormonal e saúde cardiovascular

02 out. de 2026

Carta do Rio de Janeiro: Posicionamento das sociedades médicas sobre implantes hormonais manipulados

01 out. de 2026

Outubro Rosa: o que muda na saúde sexual da mulher após o câncer de mama

01 out. de 2026

Especialista da FEBRASGO alerta: Fitoterápicos para fogachos têm evidências limitadas e não devem substituir tratamentos comprovados

30 set. de 2026

IMSRIO2026 – Presidente da FEBRASGO debate a saúde cardiovascular da mulher na menopausa e a THM

30 set. de 2026

Antes do primeiro choro: nascimento seguro começa muito antes da sala de parto

25 set. de 2026

Hormônio vilão? Por que tantas mulheres ainda têm medo dos contraceptivos hormonais?

25 set. de 2026

Menstruação, anticoncepcional e vida sexual: ginecologista esclarece seis dúvidas das adolescentes

21 set. de 2026

ANS amplia cobertura da mamografia digital nos planos de saúde; entenda o que muda para as mulheres

21 set. de 2026