Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia

Transtornos da identidade de gênero: o que o ginecologista precisa saber sobre transexualismo

DOI: S0100-7203(13)03500600001 - volume 35 - Junho 2013

Lucia Alves da Silva Lara, Carmita Helena Najar Abdo, Adriana Peterson M Salata Romão

Abstract


Full Text

EDITORIAL

 

Transtornos da identidade de gênero: o que o ginecologista precisa saber sobre transexualismo

 

Gender identity disorders: what the gynecologist must know about transsexualism

 

Lucia Alves da Silva LaraI; Carmita Helena Najar AbdoII; Adriana Peterson M Salata RomãoI

 

IAmbulatório de Estudos em Sexualidade Humana, Setor de Reprodução Humana, Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil

 

IIDepartamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo - USP - São Paulo (SP), Brasil

 

Correspondência

 

O indivíduo com transexualismo (CID-10)1 ou transtorno da identidade de gênero - tipo transexual (DSM-IV-TR)2 apresenta desejo irreversível de viver e ser aceito como um membro do sexo oposto (ou insistência de que é do sexo oposto), acompanhado por um sentimento persistente de grande mal-estar e de inadequação em relação ao próprio sexo anatômico. Há profundo desconforto com o sexo designado (genitália e caracteres sexuais secundários), bem como com o papel de gênero atribuído pela sociedade para esse sexo. Tal condição, que geralmente se inicia na infância, é acompanhada por sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional, ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. Por identificar-se com o outro sexo e não com aquele que lhe foi designado ao nascimento, o transexual deseja submeter-se a uma intervenção cirúrgica e tratamento hormonal, a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado1,2. Assim, chama a atenção para a possibilidade de transexualismo aquele meninos que expressam repulsa pelo pênis e testículos, afirmação de que estes desaparecerão, aversão a brincadeiras rudes e rejeição a brinquedos, jogos e atividades estereotipicamente masculinos. Em meninas, a rejeição a urinar sentada, afirmação de que desenvolverá um pênis, afirmação de que não deseja desenvolver seios ou menstruar ou acentuada aversão a roupas caracteristicamente femininas, falam a favor de transexualimo. Nos adolescentes e adultos, a crença de ter nascido com o sexo errado, busca por livrar-se das características sexuais primárias ou secundárias através de hormônios, cirurgia ou outros procedimentos para simular o sexo oposto, são fortemente indicativas de transexualismo.

 

A prevalência desta condição é pouco conhecida, mas estima-se que seja da ordem de 1 transexual masculino (homem para mulher) a cada 12.000 homens e 1 transexual feminino (mulher para homem) a cada 30.000 mulheres, em média3-6, numa proporção de 2:13.

 

A etiologia do transexualismo ainda não foi totalmente esclarecida. Com base no conhecimento atual, há indícios de que sua origem seja neurobiológica7. Estudos post-mortem do cérebro de transexuais evidenciam características anatômicas cerebrais diferentes do padrão esperado para homens e mulheres não transexuais. O número de neurônios do bed nucleus da estria terminal de transexuais homem para mulher, apresenta um padrão similar ao feminino enquanto o número de neurônios do transexual mulher para homem é parecido com o padrão masculino8. Esta situação também foi identificada em outras áreas do cérebro. O 3º núcleo intersticial do hipotálamo (INAH-3) dos transexuais homem para mulher tem o volume e o número de células similares ao feminino9. O giro lingual esquerdo desse transexual tem grande similaridade funcional com a mulher não transexual10. Estas alterações não são encontradas em adultos submetidos à terapia hormonal e não dependem da orientação sexual do indivíduo11. Outros estudos evidenciam modificações microestruturais na substância branca do cérebro de transexuais mulher para homem, sugerindo que alguns fascículos não completaram o processo de masculinização durante o desenvolvimento12. Estas alterações no sistema nervoso central dos transexuais reforçam a teoria de que o transexualismo está associado a modificações na diferenciação do cérebro ainda no ambiente intrauterino13,14.

 

As evidências atuais também apontam para a participação dos esteróides sexuais na identidade de gênero no cérebro ainda em desenvolvimento11. No segundo mês da vida intrauterina, um pico de testosterona masculinizaria o cérebro fetal masculino, enquanto a ausência deste pico resultaria em fetos com cérebro feminino13.

 

O diagnóstico de transtorno de identidade de gênero, tipo transexual, é essencialmente clínico, baseado em auto-relato do paciente e em critérios diagnósticos estabelecidos no DSM-IV-TR (Quadro 1). No CID-101, para que o diagnóstico seja feito, a identidade transexual deve ter estado presente persistentemente por pelo menos dois anos e não deve ser um sintoma de outro transtorno mental, tal como esquizofrenia, nem estar associada a qualquer anormalidade intersexual, genética ou do cromossomo sexual. No Brasil, o tratamento do transexualismo foi autorizado pela Resolução 1.482/97 (e atualizada pela Resolução CFM nº 1.955/2010)15, que prevê a avaliação do paciente por equipe multidisciplinar composta por: psiquiatra, psicólogo, assistente social, endocrinologista e cirurgião. Esta equipe é responsável pela formulação diagnóstica, avaliação psiquiátrica, apoio psicológico e psicoterapia, administração/correção do uso de hormônios, avaliações de condições familiares e sociais, preparação para a cirurgia, ato cirúrgico e acompanhamentos pós-operatórios (a curto e longo prazos).

 

 

É papel do psiquiatra fornecer o diagnóstico de transexualismo e o laudo autorizando (ou não) a cirurgia conforme a confirmação diagnóstica e o nível de preparo do paciente. É fundamental o acompanhamento psicológico, desde a definição diagnóstica até a pós-cirurgia de redesignação sexual. Além disso, é pré-requisito que o mínimo de dois anos de psicoterapia anteceda o ato cirúrgico.

 

A terapia hormonal (TH) deve anteceder a cirurgia de redesignação sexual, de modo a propiciar a aquisição de caracteres sexuais secundários relativos ao sexo almejado16. Para a aquisição de caracteres sexuais femininos no transexual homem para mulher, são empregadas doses até três vezes maior de estrogênio do que a utilizada para a reposição hormonal em mulheres na pós-menopausa. No caso do valerato de estradiol, são utilizados 2-6 mg/dia. O objetivo é manter níveis femininos para estrogênio sérico aproximadamente de 200 ng/mL e testosterona <50 ng/dL. Para o transexual mulher para homem, utiliza-se o Cipionato ou enatato de testosterona intramuscular na dose de 100-200 mg a cada 15 dias. Aqui, também deve-se manter os níveis hormonais (estrogênio e testosterona) correspondentes aos níveis masculinos. Se houver sangramento uterino, utilizar progesterona ou considerar a possibilidade de ablação do endométrio17,18.

 

Na Suécia, a aprovação da cirurgia de redesignação sexual se deu após a observação da impossibilidade de reverter a condição transexual pela psicoterapia. Desde então, em vários países houve a adoção da cirurgia de redesignação sexual desde que antecedida pela TH, visando a integridade dos pacientes transexuais19. Nesse sentido, a TH oferece uma abordagem reversível, anterior à gonadectomia, ou seja, uma janela de oportunidade para que o paciente possa avaliar sua decisão em relação à mudança de sexo, que é um procedimento irreversível20. A mudança das características sexuais resulta em satisfação para 87% dos transexuais homem para mulher e 97% dos transexuais mulher para homem, sendo o arrependimento referido em 1% dos pacientes tratados (WPATH)21-23.

 

A TH deve observar os cuidados com os efeitos adversos, considerando os riscos da terapia estrogênica (cardiovascular principalmente) para os transexuais homem para mulher, e androgênica (alterações hepáticas e lipídicas) para os transexuais mulher para homem24. Uma coorte de um ano que acompanhou 966 transexuais homem para mulher e 365 transexuais mulher para homem encontrou um incremento de 51% nas taxas de mortalidade entre transexuais homem para mulher em relação à população geral. Em transexuais mulher para homem, a testosterona está associada à maior incidência de doença metabólica25 bem como a um elevado risco de desenvolver câncer de mama e de endométrio e eritrocitose (hematócrito >50%). A utilização do etinilestradiol em transexuais homem para mulher foi associada a um risco três vezes maior de morte por doença cardiovascular26. Já a utilização do estradiol está associada a um risco muito elevado de tromboembolismo e risco moderado de desenvolver macroprolactinemia, disfunção hepática severa, câncer de mama, doença coronariana, doença cerebrovascular, migrania severa.

 

The World Professional Association for Transgender Health (WPATH) elaborou um guia com recomendações para o manejo do paciente transexual22,27, baseando-se na experiência dos Estados Unidos e da Europa ocidental. Várias estratégias, entretanto, são tratadas como sugestões, dado que a complexidade da abordagem desta condição deve levar em conta também os hábitos e valores de cada cultura. Assim, alguns autores recomendam a supressão da puberdade no estágio 2 de Tanner28 por meio de análogos do GnRH, para impedir o aparecimento dos caracteres sexuais secundários e favorecer que haja tempo maior até a tomada a decisão sobre a indicação e o benefício da cirurgia de redesignação sexual do paciente29. Não obstante, o pequeno número de evidências sobre os riscos da supressão do eixo hipotálamo hipofisário, parece que os padrões relativos à densidade mineral óssea e à saúde mental são mantidos como demonstrado em estudo de longo follow-up30.

 

O crescente arsenal de conhecimento e de critérios diagnósticos e medidas terapêuticas já normatizadas, inclusive em nosso país, exigem que o ginecologista se interesse e se atualize sobre essas questões31, as quais farão cada vez mais parte do cotidiano da pratica profissional de várias especialidades. Mesmo que não haja interesse em acompanhar casos dessa natureza, é preciso saber reconhecer e encaminhar os pacientes. Entretanto, a literatura enfatiza o importante papel do ginecologista no seguimento destas pacientes após a cirurgia de redesignação sexual32, uma vez que a reposição hormonal será realizada durante toda a vida, é preciso estar atento para as complicações descritas acima e especialmente o risco aumentado para câncer de mama nos transexuais homem para mulher e câncer de endométrio nos transexuais mulher para homem33.

 

 

 

Recebido: 29/05/2013

 

Aceito com modificações: 17/06/2013

 

Trabalho realizado no Serviço de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Preto (SP), Brasil.


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